Conferncias introdutrias sobre psicanlise (Partes I e II)


















VOLUME XV
(1915-1916)













Dr. Sigmund Freud

         
         
         
         
CONFERNCIAS INTRODUTRIAS SOBRE PSICANLISE (1916-17 [1915-17])
         
         
         INTRODUO DO EDITOR INGLS
         
         VORLESUNGEN ZUR EINFHRUNG IN DIEPSYCHOANALYSE
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1916 Parte I (em separado), Die Fehlleistungen. Leipzig e Viena: Heller.
         1916 Parte II (em separado), Der Traum. Mesmos editores.
         1917 Parte III (em separado), Allgemeine Neurosenlehre. Mesmos editores.
         1917 Os ttulos acima, as trs partes em um s volume. Mesmos editores. viii + 545 pgs.
         1918 2 ed. (Com ndice e insero de lista de 40 corrigendas.) Mesmos editores. viii + 553 pgs.
         1920 3 ed. (Reimpresso corrigida da edio anterior.) Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag. viii + 553 pgs.
         1922 4 ed. (Reimpresso corrigida da edio anterior.) Mesmos editores. viii + 554 pgs. (Tambm as Partes II e III em separado, sob os ttulos de Vorlesungen 
ber den Traum e Allgemeine Neurosenlehre.)
         
         1922 Ed. de bolso. (Sem ndice). Mesmos editores. iv + 495 pgs.
         1922 Ed. de bolso. (2 ed., corrigida e com ndice.) Mesmos editores. iv + 502 pgs.
         1924 G.S., 7. 483 pgs.
         1926 5 ed. (Reimpresso das G.S.) I.P.V. 483 pgs.
         1926 Ed. de bolso. (3 ed.) Mesmos editores.
         1930 Ed. em 8 pequenos vols. I P.V. 501 pgs.
         1933 (Com autorizao) Berlim: Kiepenheuer. 524 pgs.
         1940 G.W., 11, 495 pgs.
         (b) TRADUES INGLESAS:
         A General Introduction to Psychoanalysis
         1920 Nova Iorque: Boni & Liveright. x + 406 pgs. (Tradutor no especificado; Prefcio de G. Stanley Hall.)
         Introductory Lectures on Psycho-Analysis
         1922 Londres: Allen & Unwin. 395 pgs. (Trad. de Joan Riviere; sem prefcio de Freud; com prefcio de Ernest Jones.)
         1929
         2a. ed. (revista). Mesmos editores. 395 pgs.
         A General Introduction to Psychoanalysis
         1935Nova Iorque: Liveright. 412 pgs. (A ed. de Londres com o ttulo da anterior de Nova Iorque. Trad. de Joan Riviere; com prefcios de Ernest Jones e 
G. Stanley Hall; includo o prefcio de Freud).
         A presente traduo inglesa  nova e da autoria de James Strachey.
         Esta obra teve uma circulao maior do que qualquer outra obra de Freud, com exceo, talvez, de The Psychopathology of Everyday Life. Tambm se distingue 
pela quantidade de erros de impresso nela existentes. Como ficou assinalado acima, quarenta foram corrigidos na segunda edio; porm havia ainda muitos mais, e 
pode ser observado um nmero considervel de pequenas variaes no texto das diversas edies. A presente traduo inglesa segue o texto dos Gesammelte Werke, que 
, de fato, idntico ao texto dos Gesammelte Schriften; e somente foram registradas as discordncias mais importantes das primeiras verses.
         A data real de publicao das trs partes no est definida. A Parte I certamente surgiu antes do fim de julho de 1916, como se verifica por uma referncia 
que a ela se faz em uma carta de Freud a Lou Andreas-Salom, de 27 de julho de 1916 (cf. Freud, 1960a). Na mesma carta, ele tambm fala na Parte II como estando 
prestes a aparecer. Uma carta de 18 de dezembro de 1916, que Freud escreveu a Abraham, sugere que, com efeito, ela apenas apareceu no fim do ano (cf. Freud, 1965a). 
A Parte III parece ter sido publicada em maio de 1917.
         O ano acadmico da Universidade de Viena se dividia em dois perodos: um perodo (ou semestre) de inverno, que ia de outubro a maro, e um perodo de vero, 
de abril a julho. As conferncias publicadas neste livro foram proferidas por Freud em dois perodos de inverno sucessivos, durante a Primeira Guerra Mundial: 1915-16 
e 1916-17. Os relatos mais completos das circunstncias que conduziram  sua publicao sero encontrados no segundo volume da biografia escrita por Ernest Jones 
(1955, pg. 255 e seguintes).
         Embora, como o prprio Freud observara em seu prefcio s New Introductory Lectures, sua qualidade de membro da Universidade de Viena tivesse sido apenas 
'perifrica', desde os tempos de sua indicao como Privatdozent (Livre Docente da Universidade), em 1885, e como Professor Extraordinarius (Professor Assistente), 
em 1902, havia realizado muitos ciclos de conferncias na Universidade. Estes ficaram sem registro, embora alguns relatos dos mesmos possam ser encontrados - por 
exemplo, os de Hanns Sachs (1945, pg. 39 e segs.) e Theodor Reik (1942, pg. 19 e segs.), bem como os de Ernest Jones (1953, pg. 375 e segs.). Freud decidiu que 
a srie que comeava no outono de 1915 deveria ser a ltima, e foi por sugesto de Otto Rank que Freud concordou com sua publicao. Em seu prefcio s New Introductory 
Lectures, h pouco citado, Freud nos refere que a primeira metade da srie atual, a srie inicial, 'foi improvisada e escrita logo depois', e que 'esboos da segunda 
metade foram feitos durante as frias do vero intermedirio, em Salzburg, e passados para o papel, palavra por palavra, no inverno seguinte'. Acrescenta que, naquela 
poca, 'ainda possua o dom de uma memria fotogrfica', pois, por mais cuidadosamente que suas conferncias pudessem ter sido preparadas, na realidade, invariavelmente, 
as proferia de improviso, e geralmente sem anotaes. Existe concordncia geral no tocante  sua tcnica de dar conferncias: que ele nunca era retrico e que seu 
tom era sempre o de uma conversao tranqila e mesmo ntima. Contudo, no se deve supor, por isso, que houvesse algo de desleixo ou desordem nessas conferncias. 
Elas quase sempre tinham uma forma definida - incio, meio e fim - e podiam, freqentemente, dar ao ouvinte a impresso de possurem uma unidade esttica.
         Foi mencionado (Reik, 1942, 19) que ele no gostava de dar conferncias, no entanto  difcil conciliar essa afirmao no apenas com a quantidade de conferncias 
que proferiu no decurso de sua vida, mas tambm com a quantidade notavelmente elevada de seus trabalhos efetivamente publicados que esto sob a forma de conferncias. 
Existe, entretanto, uma possvel explicao para essa discordncia. Um exame mostra que, entre suas publicaes, so predominantemente os trabalhos expositivos que 
aparecem como conferncias: por exemplo, a conferncia inicial sobre 'The Aetiology of Hysteria' (1896c), a que surgiu um pouco depois 'Sobre a Psicoterapia' (1905a), 
assim como, naturalmente, as Cinco Lies, proferidas na Amrica (1910a), e a presente srie. Contudo, alm disso, quando empreendeu anos depois uma exposio das 
mais recentes evolues de seus pontos de vista, ele, sem qualquer motivo evidente, mais uma vez as colocou na forma de conferncias e publicou suas New Introductory 
Lectures (1933a), embora jamais houvesse qualquer possibilidade de serem dadas  luz como tais. Assim, Freud se socorreu evidentemente das conferncias como mtodo 
de expor suas opinies, mas apenas sob uma condio particular: ele devia estar em vvido contato com seu auditrio real ou suposto. Os leitores do presente volume 
descobriro como  constante Freud manter esse contato - quo regularmente ele coloca objees na boca de seus ouvintes, e quo freqentemente existem debates imaginrios 
entre ele e seus ouvintes. Na verdade, ele estendia esse mtodo de formular suas exposies a alguns de seus trabalhos que absolutamente no so conferncias: a 
totalidade de The Question of Lay Analysis (1926e) e a maior parte de O Futuro de uma Iluso (1927c) tomaram a forma de dilogos entre o autor e um ouvinte que faz 
crticas. Contrariamente, talvez, a certas noes errneas, Freud era inteiramente avesso  exposio de suas opinies em forma autoritria e dogmtica: 'No o direi 
aos senhores', ele diz  sua audincia, em uma passagem adiante (pg. 433), 'mas insistirei em que o descubram por si mesmos'. As objees no eram para ser abafadas, 
mas esclarecidas e examinadas. E isso, afinal, no era mais que um prolongamento de um aspecto essencial da tcnica da prpria psicanlise.
         As Conferncias Introdutrias podem ser verdadeiramente consideradas como um inventrio das conceituaes de Freud e da posio da psicanlise na poca 
da Primeira Guerra Mundial. As dissidncias de Adler e Jung j eram histria passada, o conceito de narcisismo j tinha alguns anos de vida, o caso clnico do 'Wolf 
Man', que marcou poca, tinha sido escrito (com exceo de duas passagens) um ano antes do comeo das conferncias, embora no fosse publicado seno mais tarde. 
E, tambm, a grande srie de artigos 'metapsicolgicos' sobre a teoria fundamental tinha sido ultimada alguns meses antes, ainda que apenas trs deles tivessem sido 
publicados. (Mais dois deles surgiram logo aps as conferncias, porm os sete restantes desapareceram sem deixar vestgio.) Essas ltimas atividades e, sem dvida, 
tambm a realizao das conferncias tinham sido facilitadas pela diminuio do trabalho clnico de Freud, imposta pelas condies da guerra. Parecia haver-se chegado 
a um divisor de guas, e era como se houvesse chegado a poca para uma pausa. De fato, porm, estavam em preparao idias novas que deviam vir  luz em Alm do 
Princpio de Prazer (1920g), Psicologia de Grupo (1921c) e O Ego e o Id (1923b). Em verdade, a linha no deve ser traada com tanta exatido. Por exemplo, j podem 
ser detectados indcios da noo da 'compulso  repetio' (pgs. 292-3), e os comeos da anlise do ego esto bastante evidentes (pgs. 423 e 428-9), ao passo 
que as dificuldades referentes aos mltiplos sentidos da palavra 'inconsciente' (ver em [1]) preparam o caminho para uma nova descrio estrutural da mente.
         Em seu prefcio a estas conferncias, Freud fala um pouco depreciativamente da falta de novidade em seu contedo. No entanto, ningum, embora muito tenha 
lido de literatura psicanaltica, precisa sentir receio de se entediar com estas conferncias, e ainda poder achar nelas muitas coisas que no se encontraro em 
outro lugar. As discusses sobre ansiedade (Conferncia XV) e sobre fantasias primitivas (Conferncia XXIV), que Freud mesmo, no prefcio, aponta como material recente, 
no so as nicas que ele podia ter mencionado. A reviso do simbolismo na Conferncia X, , provavelmente, a mais completa que fez. Em nenhuma outra parte fornece 
to claro resumo da formao dos sonhos como nas ltimas pginas da Conferncia XIV. Sobre as perverses, no h comentrios mais inteligveis do que aqueles encontrados 
nas Conferncias XX e XXI. Finalmente, no existe absolutamente qualquer tpico que se iguale  anlise dos processos de terapia psicanaltica, feita na ltima conferncia. 
E mesmo onde os assuntos pareceriam estar surrados, como o mecanismo das parapraxias e dos sonhos, a abordagem  feita a partir de direes inesperadas, lanando 
nova luz sobre o que poderia ter parecido terreno por demais conhecido. As Conferncias Introdutrias seguramente merecem sua popularidade.
         
         
         
         





















PREFCIO [1917]
         
         O que ao pblico agora ofereo como uma 'Introduo  Psicanlise' no se destina a competir, de forma alguma, com determinadas descries gerais desse 
campo de conhecimento, como aquelas j existentes, e dentre as quais citam-se, por exemplo: as de Hitschmann (1913), Pfister (1913), Kaplan (1914), Rgis e Hesnard 
(1914) e Meijer (1915). Este volume  uma reproduo fiel das conferncias que proferi [na Universidade], durante as duas temporadas de inverno de 1915/16 e 1916/17, 
perante um auditrio de mdicos e leigos de ambos os sexos.
         Quaisquer peculiaridades deste livro que possam surpreender os leitores so devidas s condies em que ele se originou. Em minha apresentao no foi possvel 
preservar a tranqila serenidade de um tratado cientfico. Pelo contrrio, o conferencista tinha de se empenhar em evitar que a ateno de seu auditrio declinasse 
durante uma sesso de quase duas horas de durao. As necessidades do momento muitas vezes tornaram impossvel evitar repeties ao tratar de um determinado assunto 
- poderiam emergir uma vez, por exemplo, em relao  interpretao de sonhos e, mais tarde, de novo, em relao aos problemas das neuroses. Tambm em conseqncia 
da maneira como o material foi ordenado, alguns tpicos importantes (o inconsciente, por exemplo) no puderam ser exaustivamente debatidos em um s ponto, mas tiveram 
de ser retomados repetidamente e outra vez abandonados, at que surgisse nova oportunidade para acrescentar alguma informao adicional a respeito.
         Aqueles que esto familiarizados com a literatura psicanaltica encontraro nesta 'Introduo' pouca coisa que no lhes seja conhecida j a partir de outras 
publicaes muito mais detalhadas. No obstante, a necessidade de completar e resumir algum tema compeliu o autor, em certos pontos (a etiologia da ansiedade e as 
fantasias histricas), a apresentar material que at ento havia retido.
         FREUD.
         VIENA, primavera de 1917.
         
         
         
         
         








PREFCIO DA TRADUO HEBRAICA [1930]
         
         Estas conferncias foram proferidas em 1916 e 1917; proporcionaram uma descrio muito pormenorizada da posio da jovem cincia naquela poca, e continham 
mais do que seu ttulo indicava. Proporcionaram no apenas uma introduo  psicanlise, mas abrangeram a maior parte de seu contedo temtico. Isso, naturalmente, 
j no  mais verdade. Nesse meio tempo houve progressos em sua teoria e importantes acrscimos  mesma, como a diviso da personalidade em ego, superego e id, uma 
modificao radical na teoria dos instintos, bem como descobertas referentes  origem da conscincia e do sentimento de culpa. Assim sendo, estas conferncias se 
tornaram em grande parte incompletas; na verdade, somente agora  que se tornaram realmente 'introdutrias'. Porm, em outro sentido, mesmo hoje elas no foram suplantadas, 
nem se tornaram obsoletas. O que contm ainda  acreditado e pensado, afora algumas poucas modificaes, nos institutos de formao psicanaltica.
         Os leitores de hebraico e especialmente os jovens, vidos de conhecimento, se defrontaro neste volume com a psicanlise vestida com o antigo idioma que 
tem sido despertado para uma vida nova pela vontade do povo judeu. O autor bem pode imaginar o problema que se props seu tradutor. E nem pode suprimir a dvida 
quanto a saber se Moiss e os Profetas teriam julgado inteligveis estas conferncias em hebraico. Pede, entretanto, aos descendentes deles (entre os quais ele prprio 
se inclui), a quem este livro se destina, para que no reajam demasiado prontamente a seus primeiros impulsos de crtica e enfado, rejeitando-o. A psicanlise revela 
tantas coisas novas, e, em meio a tudo isso, tantas coisas que contraditam opinies tradicionais, e tanto fere sentimentos profundamente arraigados, que no pode 
deixar de provocar contestao. O leitor, se deixar em suspenso seu julgamento e permitir que a psicanlise, como um todo, provoque nele sua impresso, talvez se 
torne receptivo  convico de que mesmo essa indesejada novidade  digna de se conhecer e indispensvel para todo aquele que deseja compreender a mente e a vida 
humana.
         VIENA, dezembro de 1930
         
         
         
         









PARTE I - PARAPRAXIAS (1916 [1915])
         
         
         CONFERNCIA I - INTRODUO
         
         SENHORAS E SENHORES:
         No posso dizer quanto conhecimento sobre psicanlise cada um dos senhores j adquiriu pelas leituras que fez, ou por ouvir dizer. Mas o ttulo de meu programa 
- 'Introduo Elementar  Psicanlise' - obriga-me a trat-los como se nada soubessem e estivessem necessitados de algumas informaes preliminares.
         Posso, no entanto, seguramente supor que sabem ser a psicanlise uma forma de executar o tratamento mdico de pacientes neurticos. E aqui j lhes posso 
dar um exemplo de como, nessa atividade, numerosas coisas se passam de forma diferente - e muitas vezes, realmente, de forma oposta - de como ocorrem em outros campos 
da prtica mdica. Quando, em outra situao, apresentamos ao paciente uma tcnica que lhe  nova, de hbito minimizamos os inconvenientes desta e lhe damos confiantes 
promessas de xito do tratamento. Penso estarmos justificados de assim proceder, de vez que desse modo estamos aumentando a probabilidade de xito. Quando, porm, 
tomamos em tratamento analtico um paciente neurtico, agimos diferentemente. Mostramos-lhe as dificuldades do mtodo, sua longa durao, os esforos e os sacrifcios 
que exige; e, quanto a seu xito, lhe dizemos no nos ser possvel promet-lo com certeza, que depende de sua prpria conduta, de sua compreenso, de sua adaptabilidade 
e de sua perseverana. Temos boas razes, naturalmente, para manter essa conduta aparentemente obstinada no erro, como talvez os senhores viro a verificar mais 
adiante.
         No se aborream, ento, se comeo por trat-los da mesma forma como a esses pacientes neurticos. Seriamente eu os advirto de que no venham ouvir-me uma 
segunda vez. Para corroborar esta advertncia, explicarei quo incompleto deve necessariamente ser qualquer conhecimento da psicanlise, e que dificuldades surgem 
no caminho dos senhores ao formarem um julgamento prprio a respeito dela. Mostrar-lhes-ei como toda a tendncia de sua educao prvia e todos os seus hbitos de 
pensamento esto inevitavelmente propensos a fazer com que se oponham  psicanlise, e quanto teriam de superar, dentro de si mesmos, para obter o mximo de vantagem 
dessa natural oposio. No posso, certamente, predizer quanto entendimento de psicanlise obtero das informaes que lhes dou, contudo posso prometer-lhes isto: 
que, ouvindo-as atentamente, no tero aprendido como efetuar uma investigao psicanaltica ou como realizar um tratamento. No entanto, na hiptese de que um dos 
senhores no se sentisse satisfeito com um ligeiro conhecimento da psicanlise, mas estivesse inclinado a entrar em relao permanente com ela, no apenas eu o dissuadiria 
de agir assim, como ativamente tambm o admoestaria para no faz-lo. Da maneira como esto as coisas, no momento, tal escolha de profisso arruinaria qualquer possibilidade 
de obter sucesso em uma universidade, e, se comeou na vida como mdico clnico, iria encontrar-se numa sociedade que no compreenderia seus esforos, que o veria 
com desconfiana e hostilidade e que despejaria sobre ele todos os maus espritos que esto  espreita dentro dessa mesma sociedade. E os acontecimentos que acompanham 
a guerra, que agora assola a Europa, lhes daro talvez alguma noo de que legies desses maus espritos podem existir.
         No obstante, h bom nmero de pessoas para as quais, a despeito desses inconvenientes, algo que promete trazer-lhes uma nova parcela de conhecimento tem 
ainda seu atrativo. Se alguns dos senhores pertencerem a essa espcie de pessoas, e, malgrado minhas advertncias, novamente aqui comparecerem para minha prxima 
conferncia, sero bem-vindos. Todos, porm, tm o direito de saber da natureza das dificuldades da psicanlise, s quais aludi.
         Iniciarei por aquelas dificuldades vinculadas ao ensino,  formao em psicanlise. Na formao mdica os senhores esto acostumados a ver coisas. Vem 
uma preparao anatmica, o precipitado de uma reao qumica, a contrao de um msculo em conseqncia da estimulao de seus nervos. Depois, pacientes so demonstrados 
perante os sentidos dos senhores: os sintomas de suas doenas, as conseqncias dos processos patolgicos e, mesmo, em muitos casos, o agente da doena isolado. 
Nos departamentos cirrgicos, so testemunhas das medidas ativas tomadas para proporcionar socorro aos pacientes, e os senhores mesmos podem tentar p-las em execuo. 
Na prpria psiquiatria, a demonstrao de pacientes, com suas expresses faciais alteradas, com seu modo de falar e seu comportamento, propicia aos senhores numerosas 
observaes que lhes deixam profunda impresso. Assim, um professor de curso mdico desempenha em elevado grau o papel de guia e intrprete que os acompanha atravs 
de um museu, enquanto os senhores conseguem um contato direto com os objetos exibidos e se sentem convencidos da existncia dos novos fatos mediante a prpria percepo 
de cada um.
         Na psicanlise, ai de ns, tudo  diferente. Nada acontece em um tratamento psicanaltico alm de um intercmbio de palavras entre o paciente e o analista. 
O paciente conversa, fala de suas experincias passadas e de suas impresses atuais, queixa-se, reconhece seus desejos e seus impulsos emocionais. O mdico escuta, 
procura orientar os processos de pensamento do paciente, exorta, dirige sua ateno em certas direes, d-lhe explicaes e observa as reaes de compreenso ou 
rejeio que ele, analista, suscita no paciente. Os desinformados parentes de nossos pacientes, que se impressionam apenas com coisas visveis e tangveis - preferivelmente 
por aes tais como aquelas vistas no cinema -, jamais deixam de expressar suas dvidas quanto a saber se 'algo no pode ser feito pela doena, que no seja simplesmente 
falar'. Essa, naturalmente,  uma linha de pensamento ao mesmo tempo insensata e incoerente. Essas so as mesmas pessoas que se mostram assim to seguras de que 
os pacientes esto 'simplesmente imaginando' seus sintomas. As palavras, originalmente, eram mgicas e at os dias atuais conservaram muito do seu antigo poder mgico. 
Por meio de palavras uma pessoa pode tornar outra jubilosamente feliz ou lev-la ao desespero, por palavras o professor veicula seu conhecimento aos alunos, por 
palavras o orador conquista seus ouvintes para si e influencia o julgamento e as decises deles. Palavras suscitam afetos e so, de modo geral, o meio de mtua influncia 
entre os homens. Assim, no depreciaremos o uso das palavras na psicoterapia, e nos agradar ouvir as palavras trocadas entre o analista e seu paciente.
         Contudo, nem isso podemos fazer. A conversao em que consiste o tratamento psicanaltico no admite ouvinte algum; no pode ser demonstrada. Um paciente 
neurastnico ou histrico pode, naturalmente, como qualquer outro, ser apresentado a estudantes em uma conferncia psiquitrica. Ele far uma descrio de suas queixas 
e de seus sintomas, porm apenas isso. As informaes que uma anlise requer sero dadas pelo paciente somente com a condio de que ele tenha uma ligao emocional 
especial com seu mdico; ele silenciaria to logo observasse uma s testemunha que ele percebesse estar alheia a essa relao. Isso porque essas informaes dizem 
respeito quilo que  mais ntimo em sua vida mental, a tudo aquilo que, como pessoa socialmente independente, deve ocultar de outras pessoas, e, ademais, a tudo 
o que, como personalidade homognea, no admite para si prprio.
         Portanto, os senhores no podem estar presentes, como ouvintes, a um tratamento psicanaltico. Este pode, apenas, ser-lhes relatado; e, no mais estrito 
sentido da palavra,  somente de ouvir dizer que chegaro a conhecer a psicanlise. Como conseqncia do fato de receberem seus conhecimentos em segunda mo, por 
assim dizer, os senhores estaro em condies bem incomuns para formar um julgamento. Isto obviamente depender, em grande parte, do quanto de crdito podem dar 
a seu informante.
         Suponhamos, por um momento, que os senhores estivessem ouvindo uma conferncia no sobre psiquiatria, mas sobre histria, e que o conferencista lhes estivesse 
expondo a vida e os feitos militares de Alexandre Magno. Que fundamentos teriam para acreditar na verdade do que ele referisse? Num primeiro relance, a situao 
pareceria ser ainda mais desfavorvel do que no caso da psicanlise, pois o professor de histria teve tanta participao nas campanhas de Alexandre quanto os senhores. 
O psicanalista pelo menos reporta coisas nas quais ele prprio tomou parte. Porm, na devida oportunidade, chegamos aos elementos que confirmam aquilo que o historiador 
lhes disse. Ele poderia remet-los aos relatos dos escritores da Antigidade que, ou foram eles prprios contemporneos dos eventos em questo, ou, de qualquer forma, 
estavam mais prximos dos mesmos - ele poderia remet-los, digamos, s obras de Diodoro, Plutarco, Arriano e outros. Poderia colocar  frente dos senhores reprodues 
de moedas e esttuas do rei, que sobreviveram, e poderia passar s suas mos uma fotografia do mosaico de Pompia representando a batalha de Isso. Estritamente falando, 
contudo, todos esses documentos apenas provam que as geraes anteriores j acreditavam na existncia de Alexandre e na realidade de seus feitos, e as crticas dos 
senhores poderiam comear novamente nesse ponto. Os senhores descobririam ento que nem tudo aquilo que foi relatado sobre Alexandre merece crdito ou pode ser confirmado 
em seus detalhes; no obstante, no posso supor que os senhores viessem a deixar a sala de conferncia com dvidas sobre a realidade de Alexandre Magno. A deciso 
dos senhores seria determinada, essencialmente, por duas consideraes: primeiro, que o conferencista no tem qualquer motivo imaginvel para garantir-lhes a realidade 
de algo que ele prprio no julga ser real, e, em segundo lugar, que todos os livros de histria disponveis descrevem os acontecimentos em termos aproximadamente 
semelhantes. Se continuassem a examinar as fontes antigas, teriam em conta os mesmos fatores - os possveis motivos dos informantes e a conformidade das testemunhas 
entre si. O resultado da pesquisa sem dvida lhes traria uma confirmao, no caso de Alexandre; no entanto, provavelmente seria diferente quando se tratasse de personagens 
como Moiss ou Nemrod. Outras oportunidades revelaro muito claramente que dvidas os senhores podem ter a respeito da credibilidade do seu informante psicanaltico.
         Mas os senhores tm o direito de fazer outra pergunta. Se no h verificao objetiva da psicanlise nem possibilidade de demonstr-la, como pode absolutamente 
algum aprender psicanlise e convencer-se da veracidade de suas afirmaes?  verdade que a psicanlise no pode ser aprendida facilmente, e que no so muitas 
as pessoas que a tenham aprendido corretamente. Naturalmente, porm, existe um mtodo que se pode seguir, apesar de tudo. Aprende-se psicanlise em si mesmo, estudando-se 
a prpria personalidade. Isso no  exatamente a mesma coisa que a chamada auto-observao, porm pode, se necessrio, estar nela subentendido. Existe grande quantidade 
de fenmenos mentais, muito comuns e amplamente conhecidos, que, aps conseguido um pouco de conhecimento da tcnica, podem se tornar objeto de anlise na prpria 
pessoa. Dessa forma, adquire-se o desejado sentimento de convico da realidade dos processos descritos pela anlise e da correo dos pontos de vista da mesma. 
No obstante, h limites definidos ao progresso por meio desse mtodo. A pessoa progride muito mais se ela prpria  analisada por um analista experiente e vivencia 
os efeitos da anlise em seu prprio eu (self), fazendo uso da oportunidade de assimilar de seu analista a tcnica mais sutil do processo. Esse excelente mtodo 
, naturalmente, aplicvel apenas a uma nica pessoa e jamais a todo um auditrio de estudantes reunidos.
         A psicanlise no deve ser acusada de uma segunda dificuldade na relao dos senhores com ela; devo faz-los, aos senhores mesmos, responsveis por isso, 
senhoras e senhores, pelo menos na medida em que foram estudantes de medicina. A educao que receberam previamente deu uma direo particular ao pensar dos senhores 
que conduz para longe da psicanlise. Foram formados para encontrar uma base anatmica para as funes do organismo e suas doenas, a fim de explic-las qumica 
e fisicamente e encar-las do ponto de vista biolgico. Nenhuma parte do interesse dos senhores, contudo, tem sido dirigida para a vida psquica, onde, afinal, a 
realizao desse organismo maravilhosamente complexo atinge seu pice. Por essa razo, as formas psicolgicas de pensamento tm permanecido estranhas aos senhores. 
Cresceram acostumados a encar-las com suspeita, a negar-lhes a qualidade cientfica, a abandon-las em poder de leigos, poetas, filsofos naturalistas e msticos. 
Essa limitao , sem dvida, prejudicial  sua atividade mdica, pois, como  a regra em todos os relacionamentos humanos, os pacientes dos senhores comeam mostrando-lhes 
sua faade mental, e temo que sejam obrigados, como punio, a deixar parte da influncia teraputica que os senhores esto procurando aos praticantes leigos, aos 
curandeiros e aos msticos, que os senhores tanto desprezam.
         No ignoro a excusa de que devemos tolerar esse defeito em sua educao. No existe nenhuma cincia filosfica auxiliar que possa servir s finalidades 
mdicas dos senhores. Nem a filosofia especulativa, nem a psicologia descritiva, nem o que  chamado de psicologia experimental (que est estritamente aliada  fisiologia 
dos rgos dos sentidos), tal como so ensinadas nas universidades, esto em condies de dizer-lhes algo de utilizvel pertinente  relao entre corpo e mente, 
ou de lhes proporcionar uma chave para a compreenso dos possveis distrbios das funes mentais.  verdade que a psiquiatria, como parte da medicina, se empenha 
em descrever os distrbios mentais que observa, e em agrup-los em entidades clnicas; porm, em momentos favorveis os prprios psiquiatras duvidam de que suas 
hipteses puramente descritivas meream o nome de cincia. Nada se conhece da origem, do mecanismo ou das mtuas relaes dos sintomas dos quais se compem essas 
entidades clnicas; ou no h alteraes observveis, no rgo anatmico da mente, que correspondam a esses sintomas, ou h alteraes nada esclarecedoras a respeito 
deles. Esses distrbios mentais apenas so acessveis  influncia teraputica quando podem ser reconhecidos como efeitos secundrios daquilo que, de outro modo, 
constitui uma doena orgnica.
         Essa  a lacuna que a psicanlise procura preencher. Procura dar  psiquiatria a base psicolgica de que esta carece. Espera descobrir o terreno comum em 
cuja base se torne compreensvel a conseqncia do distrbio fsico e mental. Com esse objetivo em vista, a psicanlise deve manter-se livre de toda hiptese que 
lhe  estranha, seja de tipo anatmico, qumico ou fisiolgico, e deve operar inteiramente com idias auxiliares puramente psicolgicas; e precisamente por essa 
razo temo que lhes parecer estranha de incio.
         No considerarei os senhores, ou sua educao, ou sua atitude mental, responsveis pela prxima dificuldade. Duas das hipteses da psicanlise so um insulto 
ao mundo inteiro e tm ganho sua antipatia. Uma delas encerra uma ofensa a um preconceito intelectual; a outra, a um preconceito esttico e moral. No devemos desprezar 
em demasia esses preconceitos; so coisas poderosas, so precipitados da evoluo do homem que foram teis e, na verdade, essenciais. Sua existncia  mantida por 
foras emocionais, e a luta contra eles  rdua.
         A primeira dessas assertivas impopulares feitas pela psicanlise declara que os processos mentais so, em si mesmos, inconscientes e que de toda a vida 
mental apenas determinados atos e partes isoladas so conscientes. Os senhores sabem que, pelo contrrio, temos o hbito de identificar o que  psquico com o que 
 consciente. Consideramos a conscincia, sem mais nem menos, como a caracterstica que define o psquico, e a psicologia como o estudo dos contedos da conscincia. 
Na verdade, parece-nos to natural os igualar dessa forma, que qualquer contestao  idia nos atinge como evidente absurdo. A psicanlise, porm, no pode evitar 
o surgimento dessa contradio; no pode aceitar a identidade do consciente com o mental. Ela define o que  mental, enquanto processos como o sentir, o pensar e 
o querer, e  obrigada a sustentar que existe o pensar inconsciente e o desejar no apreendido. Dizendo isso, de sada e inutilmente ela perde a simpatia de todos 
os amigos do pensamento cientfico solene, e incorre abertamente na suspeita de tratar-se de uma doutrina esotrica, fantstica, vida de engendrar mistrios e de 
pescar em guas turvas. Contudo, as senhoras e os senhores naturalmente no podem compreender, por agora, que direito tenho eu de descrever como preconceito uma 
afirmao de natureza to abstrata como 'o que  mental  consciente'. E nem podem os senhores conjecturar que evoluo seja essa, que chegou a levar a uma negao 
do inconsciente - se  que isso existe - e que vantagem pode ter havido em tal negao. A questo de saber se devemos fazer coincidir o psquico com o consciente, 
ou aumentar a abrangncia daquele, soa como uma discusso vazia em torno de palavras; mas posso assegurar-lhes que a hiptese de existirem processos mentais inconscientes 
abre o caminho para uma nova e decisiva orientao no mundo e na cincia.
         Os senhores no podem sequer ter qualquer noo de quo ntima  a conexo entre essa primeira mostra de coragem por parte da psicanlise e a segunda, da 
qual devo agora falar-lhes. Essa segunda tese, que a psicanlise apresenta como uma de suas descobertas,  uma afirmao no sentido de que os impulsos instintuais 
que apenas podem ser descritos como sexuais, tanto no sentido estrito como no sentido mais amplo do termo, desempenham na causao das doenas nervosas e mentais 
um papel extremamente importante e nunca, at o momento, reconhecido. Ademais, afirma que esses mesmos impulsos sexuais tambm fornecem contribuies, que no podem 
ser subestimadas, s mais elevadas criaes culturais, artsticas e sociais do esprito humano.
         Em minha experincia, a antipatia que se volta contra esse resultado da pesquisa psicanaltica  a mais importante fonte de resistncia que ela encontrou. 
Gostariam de ouvir como explicamos esse fato? Acreditamos que a civilizao foi criada sob a presso das exigncias da vida,  custa da satisfao dos instintos; 
e acreditamos que a civilizao, em grande parte, est sendo constantemente criada de novo, de vez que cada pessoa, assim que ingressa na sociedade humana, repete 
esse sacrifcio da satisfao instintual em benefcio de toda a comunidade. Entre as foras instintuais que tm esse destino, os impulsos sexuais desempenham uma 
parte importante, nesse processo eles so sublimados - isto , so desviados de suas finalidades sexuais e dirigidos a outras, socialmente mais elevadas e no mais 
sexuais. Esse arranjo, contudo,  instvel; os instintos sexuais so imperfeitamente subjugados e, no caso de cada indivduo que se supe juntar-se ao trabalho da 
civilizao, h um risco de seus instintos sexuais se rebelarem contra essa destinao. A sociedade acredita no existir maior ameaa que se possa levantar contra 
sua civilizao do que a possibilidade de os instintos sexuais serem liberados e retornarem s suas finalidades originais. Por esse motivo, a sociedade no quer 
ser lembrada dessa parte precria de seus alicerces. No tem interesse em reconhecer a fora dos instintos sexuais, nem interesse pela demonstrao da importncia 
da vida sexual para o indivduo. Ao contrrio, tendo em vista um fim educativo, tem-se empenhado em desviar a ateno de todo esse campo de idias.  por isso que 
no tolerar esse resultado da pesquisa psicanaltica, e nitidamente prefere qualific-lo como algo esteticamente repulsivo e moralmente repreensvel, ou como algo 
perigoso. Entretanto, as objees dessa espcie so ineficazes contra aquilo que se ergueu como produto objetivo de um exemplo de trabalho cientfico; se a contestao 
se fizer em pblico, ento deve ser expressa novamente, em termos intelectuais. Ora,  inerente  natureza humana ter uma tendncia a considerar como falsa uma coisa 
de que no gosta e, ademais,  fcil encontrar argumentos contra ela. Assim, a sociedade transforma o desagradvel em falso. Rebate as verdades da psicanlise com 
argumentos lgicos e concretos; estes, porm, surgem de fontes emocionais, e ela mantm essas objees na forma de preconceitos, opondo-se a toda tentativa de as 
contestar.
         Ns, porm, senhoras e senhores, podemos afirmar que, ao expor esta controvertida tese, no temos em vista qualquer objetivo tendencioso. Desejamos simplesmente 
dar expresso a um assunto que acreditamos ter demonstrado mediante nossos conscienciosos trabalhos. Afirmamos tambm o direito de rejeitar sem restrio qualquer 
interferncia motivada em consideraes prticas, no trabalho cientfico, mesmo antes de nos termos perguntado se o medo, que procura impor-nos essas consideraes, 
 justificado ou no.
         Essas, pois, so algumas das dificuldades que se erguem contra o interesse dos senhores pela psicanlise. So, talvez, mais que suficientes para um comeo. 
Porm, se puderem vencer a impresso que lhes causam, prosseguiremos.
         
         CONFERNCIA II - PARAPRAXIAS
         
         SENHORAS E SENHORES:
         No comearemos com postulados, e sim com uma investigao. Escolhamos como tema determinados fenmenos muito comuns e muito conhecidos, os quais, porm, 
tm sido muito pouco examinados e, de vez que podem ser observados em qualquer pessoa sadia, nada tm a ver com doenas. So o que se conhece como 'parapraxias', 
s quais todos esto sujeitos. Pode acontecer, por exemplo, que uma pessoa que tenciona dizer algo venha a usar, em vez de uma palavra, outra palavra (um lapso de 
lngua [Versprechen]), ou possa fazer a mesma coisa escrevendo, podendo, ou no, perceber o que fez. Ou uma pessoa pode ler algo, seja impresso ou manuscrito, diferentemente 
do que na realidade est diante de seus olhos (um lapso de leitura [Verlesen]), ou ouvir errado algo que lhe foi dito (um lapso de audio [Verhren] ) - na hiptese, 
naturalmente, de no haver qualquer perturbao orgnica de sua capacidade auditiva. Outro grupo desses fenmenos tem como sua base o esquecimento [Vergessen] - 
no, no entanto, um esquecimento permanente, mas apenas um esquecimento temporrio. Assim, uma pessoa pode ser incapaz de se lembrar de uma palavra que conhece, 
apesar de tudo, e que reconhece de imediato, ou pode esquecer de executar uma inteno, embora dela se lembre mais tarde, tendo-a esquecido apenas naquele determinado 
momento. Em um terceiro grupo o carter temporrio est ausente - por exemplo, no caso de extravio [Verlegen], quando a pessoa colocou uma coisa em algum lugar e 
no consegue encontr-la novamente, ou no caso precisamente igual de perda [Verlieren]. Aqui temos um esquecimento que tratamos diferentemente de outras formas de 
esquecimento, um caso em que ficamos surpresos ou aborrecidos em vez de consider-lo compreensvel. Alm de tudo isso, h determinadas espcies de erros [Irrtmer], 
nos quais o carter temporrio est presente mais uma vez: pois, no caso destes, por um certo espao de tempo acreditamos saber algo que, antes ou depois desse perodo, 
na realidade no sabemos. E existem numerosos outros fenmenos semelhantes, conhecidos por diversos nomes.
         Todas essas so ocorrncias cuja afinidade interna recproca  expressa pelo fato de [em alemo] sua designao comear com a slaba 'ver'. Quase todas 
carecem de importncia, na maioria so muito transitrias e so destitudas de muita importncia na vida humana. Apenas raramente, como no caso da perda de um objeto, 
um fenmeno desses assume certo grau de importncia prtica. Tambm por esse motivo chamam pouco a ateno, fazem surgir nada mais que tnues emoes, e assim por 
diante.
          para esses fenmenos, tambm, que agora proponho chamar a ateno dos senhores. Porm, iro protestar com certo enfado: 'H tantos problemas ingentes 
no amplo universo, assim como dentro dos estreitos limites de nossas mentes, tantas maravilhas no campo dos distrbios mentais, que exigem e merecem elucidao, 
que parece realmente injustificado investir trabalho e interesse em tais trivialidades. Se o senhor puder fazer-nos compreender por que uma pessoa com olhos e ouvidos 
sos pode ver e ouvir, em plena luz do dia, coisas que no se encontram ali; por que outra pessoa subitamente pensa estar sendo perseguida pelas pessoas das quais 
foi, at ento, muito amiga, ou apresenta os mais engenhosos argumentos em apoio de suas crenas delirantes, que qualquer criana poderia ver que so disparatadas, 
ento deveramos ter algum apreo pela psicanlise. Entretanto, se ela no pode fazer mais que nos pedir para considerarmos por que um orador, num banquete, emprega 
uma palavra em vez de outra, ou por que uma dona de casa extraviou suas chaves, e futilidades semelhantes, ento saberemos como empregar melhor nosso tempo e interesse.'
         Eu responderia: Pacincia, senhoras e senhores! Penso que suas crticas perderam o rumo.  verdade que a psicanlise no pode vangloriar-se de jamais haver-se 
ocupado de trivialidades. Pelo contrrio, o material para sua observao  geralmente proporcionado pelos acontecimentos banais, postos de lado pelas demais cincias 
como sendo bastante insignificantes - o refugo, poderamos dizer, do mundo dos fenmenos. Porm, no esto os senhores fazendo confuso, em suas crticas, entre 
a vastido dos problemas e a evidncia que aponta para eles? No existem coisas muito importantes que, sob determinadas condies e em determinadas pocas, s se 
podem revelar por indicaes bastante dbeis? Eu no encontraria dificuldade para fornecer-lhes diversos exemplos de tais situaes. Se o senhor, por exemplo,  
um homem jovem, no ser a partir de pequenos indcios que concluir haver conquistado os favores de uma jovem? Esperaria uma expressa declarao de amor, ou um 
abrao apaixonado? Ou no seria suficiente um olhar, que outras pessoas mal perceberiam, um ligeiro movimento, o prolongamento, por um segundo, da presso de sua 
mo? E se fosse um detetive empenhado em localizar um assassino, esperaria achar que o assassino deixou para trs sua fotografia, no local do crime, com seu endereo 
assinalado? Ou no teria necessariamente de ficar satisfeito com vestgios fracos e obscuros da pessoa que estivesse procurando? Assim sendo, no subestimemos os 
pequenos indcios; com sua ajuda podemos obter xito ao seguirmos a pista de algo maior. Ademais, penso, como os senhores, que os grandes problemas do universo e 
da cincia so aqueles que mais exigem nosso interesse. , porm, muito raro algum manter a expressa inteno de se devotar  pesquisa deste ou daquele grande problema. 
Fica-se ento sem poder saber qual o primeiro passo a dar.  mais promissor, no trabalho cientfico, atacar o que quer que esteja imediatamente  nossa frente e 
oferea uma oportunidade  pesquisa. Agindo dessa forma, realmente com afinco e sem preconceito ou sem prevenes, e tendo-se sorte, ento, desde que tudo se relaciona 
com tudo, inclusive as pequenas coisas com as grandes, pode-se, mesmo partindo de um trabalho despretensioso, ter acesso ao estudo dos grandes problemas.  isso 
que eu devia dizer, a fim de manter o interesse dos senhores quando tratamos dessas trivialidades to evidentes como o so as parapraxias de pessoas ss.
         Peamos, agora, auxlio a algum que nada saiba de psicanlise, e perguntemos-lhe como explica essas ocorrncias. Sua primeira resposta certamente ser: 
'Ora, no h o que explicar: no passam de pequenos acontecimentos ao acaso.' O que o amigo quer dizer com isso? Estar afirmando existirem ocorrncias, embora pequenas, 
que escapam  concatenao universal dos fatos - ocorrncias que tanto poderia haver como no haver? Se algum comete uma infrao desse tipo no determinismo dos 
eventos naturais em um s ponto, significa que atirou fora toda a Weltanschauung da cincia. A prpria Weltanschauung da religio, podemos lembrar-lhe, se comporta 
de maneira mais coerente, porque d explcita garantia de que nenhum pardal cai do telhado sem a vontade de Deus. Penso que nosso amigo hesitar em tirar a concluso 
lgica dessa primeira resposta; mudar de opinio e dir que, afinal, quando vir a estudar essas coisas, poder encontrar explicaes para elas. O que est em questo 
so pequenas falhas no funcionamento, imperfeies na atividade mental, cujos determinantes podem ser especificados. Um homem que em geral consegue falar corretamente, 
pode cometer um lapso de lngua (1) se est ligeiramente indisposto e cansado, (2) se est excitado e ( 3 ) se est excessivamente ocupado com outras coisas.  fcil 
comprovar essas afirmaes. Os lapsos de lngua realmente acontecem com especial freqncia quando se est cansado, quando se tem dor de cabea ou quando se est 
ameaado de enxaqueca. Nas mesmas circunstncias, os nomes prprios so esquecidos com facilidade. Algumas pessoas esto acostumadas a reconhecer a aproximao de 
um ataque de enxaqueca quando nomes prprios lhes escapam dessa forma        . Quando estamos excitados, tambm, amide cometemos erros com palavras - assim como 
com coisas, e segue-se um 'ato descuidado'. Intenes so esquecidas e numerosos outros atos no premeditados se tornam perceptveis se estamos distrados - isto 
, propriamente falando, se estamos concentrados em alguma coisa. Um conhecido exemplo de tal distrao  o professor em Fliegende Bltter, que perde seu guarda-chuva 
e pega o chapu errado porque est pensando nos problemas que ter de abordar no livro seguinte. Todos ns podemos recordar, de nossa prpria experincia, exemplos 
de como nos  possvel esquecer intenes que tivemos e promessas que fizemos, por termos nesse entremeio passado por alguma experincia absorvente.
         Tal coisa soa bastante razovel e parece no ser passvel de contradio, embora possa afigurar-se no muito interessante, talvez, e no ser o que espervamos. 
Vejamos mais de perto essas explicaes sobre parapraxias. As supostas precondies para a ocorrncia desses fenmenos no so todas da mesma espcie. Estar doente 
e ter distrbios de circulao fornecem um motivo fisiolgico de deteriorao do funcionamento normal; a excitao, a fadiga e a distrao so fatores de outra espcie 
que poderiam ser descritos como psicofisiolgicos. Esses ltimos comportam fcil traduo para a teoria. Tanto a fadiga como a distrao e, talvez, tambm a excitao 
geral realizam uma diviso da ateno, que pode resultar em que seja dirigida ateno insuficiente para a funo em apreo. Nesse caso, a funo pode ser perturbada 
com especial facilidade ou executada com descuido. Uma ligeira doena ou mudanas no suprimento sangneo ao rgo nervoso central podem ter o mesmo efeito, influenciando 
de modo similar o fator determinante, a diviso da ateno. Em todos esses casos, portanto, seria uma questo de efeito de um distrbio da ateno, de causas orgnicas 
ou fsicas.
         Isso parece no prometer muito ao nosso interesse psicanaltico. Poderamos sentir-nos tentados a abandonar o tema. Se, no entanto, examinarmos as observaes 
mais atentamente, o que vemos no se harmoniza inteiramente com essa teoria da ateno das parapraxias, ou, pelo menos, naturalmente no se regula por ela. Descobrimos 
que as parapraxias desse tipo e o esquecimento dessa espcie ocorrem em pessoas que no esto fatigadas ou distradas ou excitadas, mas que esto, sob todos os aspectos, 
em seu estado normal - a menos que decidamos atribuir ex post facto s pessoas em questo, puramente por conta de suas parapraxias, uma excitao que, entretanto, 
elas mesmas no comportam. Nem pode, simplesmente, tratar-se do caso de uma funo ser garantida atravs de um incremento da ateno dirigida a ela, e ser comprometida 
se essa ateno  reduzida. H grande nmero de aes efetuadas de forma puramente automtica, com muito pouca ateno, no obstante com total segurana. Um caminhante, 
que mal sabe aonde est indo, mantm-se no caminho certo, malgrado isso, e pra em seu destino sem se haver perdido [vergangen]. Ora, em todos os casos, isso  como 
uma regra. Um exmio pianista toca as teclas certas, sem pensar. Pode naturalmente cometer um erro ocasional; porm, se o tocar automtico aumentasse o risco de 
errar, esse risco seria mximo para um virtuose, cuja forma de tocar, em conseqncia de prolongada prtica, se tornou inteiramente automtica. Sabemos, pelo contrrio, 
que muitas aes so efetuadas com um grau de preciso muito especial se no so objeto de um nvel especialmente elevado de ateno, e que o infortnio de uma parapraxia 
est fadado a ocorrer precisamente quando se atribui importncia especial ao funcionamento correto, portanto deveras sem que houvesse distrao da ateno necessria. 
Poder-se-ia argir que isso  o resultado da 'excitao', porm  difcil enxergar por que a excitao no deveria, inversamente, aumentar a ateno dirigida para 
aquilo que to intensamente  desejado. Se, por um lapso de lngua, algum diz o oposto do que pretende, em um importante discurso ou comunicao oral, dificilmente 
isso pode ser explicado pela teoria psicofisiolgica ou da ateno.
         Existem, ademais, numerosos pequenos fenmenos secundrios no caso das parapraxias, os quais no compreendemos e a cujo respeito as explicaes dadas at 
agora no trouxeram nenhuma luz. Por exemplo, se temporariamente esquecemos um nome, aborrecemo-nos com isso, fazemos tudo para record-lo e no podemos nos resignar. 
Por que, nesses casos,  to extremamente raro lograrmos orientar nossa ateno, pois enfim estamos ansiosos por faz-lo,  palavra que (como dizemos) est 'na ponta 
da lngua' e que reconhecemos de pronto quando  dita para ns? Ou ainda: h casos em que as parapraxias se multiplicam, formam cadeias e se substituem umas s outras. 
Numa primeira ocasio algum perdeu um compromisso. Na ocasio seguinte, quando se decidiu firmemente no esquecer desta vez, verifica-se que se faz anotao da 
hora errada. Ou tenta-se chegar, por vias indiretas, a uma palavra esquecida, e nisso escapa uma segunda palavra que poderia ter ajudado a encontrar a primeira. 
Procurando-se por essa segunda palavra, uma terceira desaparece, e assim por diante. Como bem se sabe, o mesmo acontece com os erros de impresso, que devem ser 
considerados as parapraxias do compositor. Um teimoso erro de impresso dessa espcie, segundo se conta, certa vez esgueirou-se para dentro de um jornal social-democrata. 
A notcia que dava de uma cerimnia inclua as palavras: 'Entre os que estavam presentes, podia-se notar Sua Alteza o Kornprinz.' No dia seguinte, fez-se uma tentativa 
de correo. O jornal pedia desculpas e dizia: 'Devamos, naturalmente, ter dito "o Knorprinz".' Em tais casos, as pessoas falam de um 'demnio dos erros de impresso' 
ou um 'demnio da composio tipogrfica' - expresses que, pelo menos, vo alm de qualquer teoria psicofisiolgica dos erros de impresso.
         Talvez lhes seja tambm conhecido o fato de ser possvel provocar lapsos de lngua, produzi-los, digamos assim, por sugesto. Uma anedota ilustra esse fato. 
Tinha sido confiado a um estreante dos palcos o importante papel, em Die Jungfrau von Orleans [de Schiller], do mensageiro que anuncia ao rei de 'der Conntable 
schickt sein Schwert zurck [o Condestvel devolve sua espada]'. Um primeiro ator divertia-se, durante os ensaios, com induzir repetidamente o nervoso jovem a dizer, 
em vez das palavras do texto: 'der Komfortabel schickt sein Pferd zurck [o cocheiro devolve seu cavalo]'. Conseguiu seu intento: o desventurado principiante realmente 
fez sua estria na representao com a verso corrompida, apesar de haver sido admoestado de no faz-lo, ou, talvez, porque tenha sido admoestado.
         Nenhuma luz  lanada sobre esses pequenos aspectos das parapraxias com a teoria da falta de ateno. Porm, no significa necessariamente que a teoria 
seja errnea, em face dessa explicao; ela simplesmente pode estar carecendo de algo, de algum acrscimo, para que venha a ser completamente satisfatria. Contudo, 
algumas das parapraxias tambm podem ser consideradas por outro prisma.
         Tomemos os lapsos de lngua como o tipo de parapraxia mais adequado a nossos propsitos - embora pudssemos igualmente ter escolhido lapsos de escrita ou 
lapsos de leitura. Devemos ter em mente que, at aqui, apenas perguntamos quando - sob que condies - as pessoas cometem lapsos de lngua, e apenas para essa pergunta 
tivemos uma resposta. Poderamos, porm, dirigir nosso interesse para outro aspecto e indagar por que razo o erro ocorreu dessa determinada forma e no de outra; 
e poderamos considerar o que  que emerge no lapso propriamente dito. Os senhores observaro que, enquanto essa pergunta no for respondida e nada for respondido 
e nada for elucidado sobre o lapso, o fenmeno permanece como evento casual, do ponto de vista psicolgico, embora dele se tenha dado uma explicao fisiolgica. 
Se eu cometesse um lapso de lngua, poderia obviamente faz-lo em nmero infinito de formas, a palavra certa poderia ser substituda por alguma palavra entre milhares 
de outras, ser distorcida em incontveis direes diferentes. Existe, pois, algo que, no caso particular, me compele a cometer o lapso de uma determinada forma; 
ou isso continua sendo uma questo de acaso, de escolha arbitrria, e se trata, talvez, de uma pergunta a que no se pode dar qualquer resposta sensata?
         Dois escritores, Meringer e Mayer (um, fillogo, o outro, psiquiatra), de fato tentaram, em 1895, atacar o problema das parapraxias por esse ngulo. Coligiram 
exemplos e comearam por abord-los de maneira puramente descritiva. Isso, naturalmente, at aqui no oferece nenhuma explicao, embora possa preparar o caminho 
para alguma. Distinguem os diversos tipos de distores que o lapso impe ao discurso pretendido, como 'transposies', 'pr-sonncias [antecipaes]', 'ps-sonncias 
[perseveraes]', 'fuses (contaminaes)' e 'substituies'. Eu lhes darei alguns exemplos desses principais grupos propostos pelos autores. Um exemplo de transposio 
seria dizer 'a Milo de Vnus' em vez de 'a Vnus de Milo' (transposio da ordem das palavras); um exemplo de pr-sonncia [antecipao] seria: 'es war mir auf der 
Schwest... auf der Brust so schwer'; e uma ps-sonncia [perseverao] seria exemplificada pelo conhecido brinde que saiu errado: 'Ich fordere Sie auf, auf das Wohl 
unseres Chefs aufzustossen' [em vez de 'anzustossen']. Essas trs formas de lapso de lngua no so propriamente comuns. Os senhores encontraro exemplos muito mais 
numerosos, nos quais o lapso resulta de contrao ou fuso. Assim, por exemplo, um cavalheiro dirige-se a uma senhora na rua com as seguintes palavras: 'Se me permite, 
senhora, gostaria de a begleit-digen.' A palavra composta que se juntou a 'begleiten [acompanhar]' evidentemente escondeu em si 'beleidigen [insultar]'. (Diga-se 
de passagem, o jovem provavelmente no teve muito xito com a senhora.) Como exemplo de substituio, Meringer e Mayer citam o caso de algum que diz: 'Ich gebe 
die Prparate in den Briefkasten' em vez de 'Brtkasten'.
         A explicao em que esses autores tentaram basear sua coleo de exemplos,  especialmente inadequada. Acreditam que os sons e as slabas de uma palavra 
tm uma 'valncia' determinada, e que a inervao de um elemento de alta valncia pode exercer uma influncia perturbadora em outro de menor valncia. Com isso, 
esto evidentemente se baseando nos raros casos de pr-sonncia e ps-sonncia; essas preferncias de uns sons a outros (se  que de fato existem) podem no ter 
absolutamente qualquer relao com outros casos de lapsos de lngua. Afinal, os lapsos de lngua mais comuns ocorrem quando, em vez de dizermos uma palavra, dizemos 
uma outra muito semelhante; e essa semelhana , para muitos, explicao suficiente de tais lapsos. Por exemplo, um professor declarou em sua aula inaugural: 'No 
estou 'geneigt [inclinado]' (em vez de 'geeignet [qualificado]') a valorizar os servios de meu mui estimado predecessor.' Ou ento, outro professor observava: 'No 
caso dos rgos genitais femininos, apesar de muitas Versuchungen [tentaes] - me desculpem, Versuche [tentativas] ....'
         O tipo mais comum e, ao mesmo tempo, mais notvel de lapsos de lngua, no entanto, so aqueles em que se diz justamente o oposto do que se pretendia dizer. 
Aqui, naturalmente, estamos muito longe de relaes entre sons e os efeitos de semelhana; e, em vez disso, podemos apelar para o fato de que os contrrios tm um 
forte parentesco conceitual uns com os outros e mantm entre si uma associao psicolgica especialmente prxima. H exemplos histricos de tais ocorrncias. Um 
presidente da cmara dos deputados de nosso parlamento certa vez abriu a sesso com as palavras: 'Senhores, observo que est presente a totalidade dos membros, e 
por isso declaro a sesso encerrada.'
         Qualquer outra associao conhecida pode atuar da mesma forma insidiosa, como um contrrio, e emergir em circunstncias bastante inadequadas. Assim, conta-se 
que, por ocasio de uma celebrao em honra do casamento de um filho de Hermann von Helmholtz com uma filha de Werner von Siemens, o conhecido inventor e industrial, 
a incumbncia de saudar  felicidade do jovem par coube ao famoso fisiologista Du Bois-Reymond. Sem dvida, este fez um discurso brilhante, porm encerrou com as 
palavras: 'Portanto, longa vida  nova firma Siemens e Haeske!' Essa era, naturalmente, a denominao da antiga firma. A justaposio dos dois nomes deve ter sido 
to familiar a um berlinense como Fortnum e Mason o seria a um londrino.
         Devemos, portanto, incluir entre as causas das parapraxias no apenas relaes entre sons e semelhana verbal, como tambm a influncia das associaes 
de palavras. Isso, porm, no  tudo. Em numerosos casos, parece impossvel explicar um lapso de lngua, a no ser que levemos em conta algo que tinha sido dito, 
ou mesmo simplesmente pensado, em uma frase anterior. De novo temos aqui um caso de perseverao, como aqueles em que insistia Meringer, porm de origem mais remota. 
Devo confessar que sinto, na totalidade, como se estivssemos mais longe do que nunca de compreender os lapsos de lngua.
         No obstante, espero no estar equivocado ao dizer que, durante essa ltima pesquisa, todos ns tivemos uma nova impresso desses exemplos de lapsos de 
lngua, e que pode valer a pena considerar um pouco mais detidamente essa impresso. Examinamos as condies sob as quais em geral os lapsos de lngua ocorrem, e, 
depois, as influncias que determinam o tipo de distoro produzida pelo lapso. At agora, no entanto, no dedicamos nada de nossa ateno ao produto do lapso considerado 
em si mesmo, sem referncia  sua origem. Se decidimos faz-lo, no podemos deixar de encontrar, no final, coragem para dizer que, em alguns exemplos, aquilo que 
resulta do lapso de lngua tem um sentido prprio. O que queremos dizer com 'tem um sentido'? Que o produto do lapso de lngua pode, talvez, ele prprio ter o direito 
de ser considerado como ato psquico inteiramente vlido, que persegue um objetivo prprio, como uma afirmao que tem seu contedo e seu significado. At aqui temos 
sempre falado em 'parapraxias [atos falhos]', porm agora  como se s vezes o ato falho fosse, ele mesmo, um ato bastante normal, que simplesmente tomou o lugar 
de outro, que era o ato que se esperava ou desejava.
         O fato de a parapraxia ter um sentido prprio parece, em determinados casos, evidente e inequvoco. Quando o presidente da cmara dos deputados, com suas 
primeiras palavras, encerrou a sesso em vez de abri-la, sentimo-nos inclinados, em vista de nosso conhecimento das circunstncias em que o lapso de lngua ocorreu, 
a reconhecer que a parapraxia tem um sentido. O presidente no esperava nada de bom da sesso e ficaria satisfeito se pudesse dar-lhe um fim imediato. No temos 
qualquer dificuldade em chamar a ateno para o sentido desse lapso de lngua, ou, por outras palavras, de interpret-lo. Ou, ento suponhamos que uma mulher diga 
a outra, em tom de aparente admirao: 'Esse lindo chapu novo, suponho que voc mesma o aufgepatzt [palavra no existente, em lugar de aufgeputzt (enfeitou)], no?' 
Ora, no existe decoro cientfico que possa impedir-nos de ver por trs desse lapso de lngua as palavras: 'Esse chapu  uma Patzerei [droga].' Ou, noutro caso, 
contam-nos que uma senhora, conhecida por seus modos enrgicos, certa ocasio observava: 'Meu marido perguntou a seu mdico qual dieta devia seguir; mas o mdico 
lhe disse que no precisava de dieta: ele podia comer e beber o que eu quero.' Tambm nesse caso o lapso de lngua tem seu inconfundvel outro lado: estava expressando 
um programa coerentemente planejado.
         Se viesse a acontecer, senhoras e senhores, que tivessem um sentido no apenas alguns exemplos de lapsos de lngua e de parapraxias em geral, mas considervel 
nmero deles, o sentido das parapraxias, do qual at agora nada ouvimos, se tornaria seu aspecto mais importante e deslocaria qualquer outra considerao para um 
plano secundrio. Poderamos, ento, pr de lado todos os fatores fisiolgicos e psicofisiolgicos e dedicar-nos  investigao exclusivamente psicolgica do sentido 
- isto , da significao ou do propsito - das parapraxias. Por conseguinte, nos ocuparemos em testar essa hiptese em grande nmero de observaes.
         Antes, porm, de levar a cabo essa inteno, gostaria de convid-los a seguir-me ao longo de outra pista. Repetidamente tem acontecido haver um escritor 
criativo feito uso de um lapso de lngua ou de alguma outra parapraxia como meio de produzir um efeito pleno de imaginao. Esse fato isoladamente deve demonstrar-nos 
que ele considera a parapraxia - o lapso de lngua, por exemplo - como possuidora de um sentido, de vez que a produziu deliberadamente. Pois o que sucedeu no foi 
o autor ter cometido um lapso de escrita acidental e, assim, permitido o uso do mesmo por um de seus personagens, na qualidade de lapso de lngua; ele tenciona trazer 
algo  nossa ateno mediante o lapso de lngua, e podemos indagar sobre que algo  esse, se talvez queira sugerir que o personagem em questo esteja distrado e 
fatigado, ou esteja prestes a ter um ataque de enxaqueca. Se o autor emprega o lapso como se este tivesse um sentido, ns, naturalmente, no temos vontade de exagerar 
a importncia disso. Afinal, um lapso poderia realmente no ter sentido, ser um evento psquico casual ou poderia ter um sentido apenas em casos bastante raros; 
contudo, ainda assim o autor teria o direito de intelectualiz-lo fornecendo a ele um sentido, a fim de empreg-lo segundo suas finalidades prprias. E no seria 
de surpreender se tivssemos mais a aprender sobre lapsos de lngua com escritores criativos, do que com fillogos e psiquiatras.
         Um exemplo desse tipo pode ser encontrado em Wallenstein (Piccolomini Ato I, Cena 5), [de Schiller]. Na cena anterior, Max Piccolomini esposou ardentemente 
a causa do Duque [de Wallenstein] e esteve descrevendo apaixonadamente os benefcios da paz, dos quais se tornou cnscio no decurso de uma viagem enquanto acompanhava 
a filha de Wallenstein ao campo. Quando ele deixa o palco, seu pai [Octavio] e Questenbergs, o emissrio da Corte, esto mergulhados em consternao. A Cena 5 continua:
         
         QUESTENBERG Ai de mim! e continua assim?Como, amigo! deixamo-lo partirNeste delrio - deix-lo partir?No cham-lo de volta imediatamente,[no abrirSeus 
olhos, sem perda de tempo?
         OCTAVIO (saindo de uma meditao profunda)
         Ele vem de abrir meus olhos,E enxergo mais do que me apraz.
         QUEST. Que  isso?
         OCT. Amaldioem essa viagem!
         QUEST. Mas, por qu? Que se passa?
         OCT. Vem, vamos juntos, amigos! Preciso seguirA execrvel rota, imediatamente. Meus olhosAgora esto abertos, e devo us-los. Vem!(Atrai Q. e o leva consigo.)
         QUEST. Que est havendo? Aonde vais, ento!?
         OCT. At ela...
         QUEST. At -
         OCT. (corrigindo-se.) At o Duque. Vem, partamos.[Conforme a traduo inglesa de Coleridge.]
         
         Otvio quis dizer 'at ele', ao Duque. Comete, porm, um lapso de lngua e, dizendo 'at l' ao menos revela a ns que reconheceu claramente a influncia 
que o jovem guerreiro causou em um entusiasta da paz.
         Um exemplo ainda mais impressionante foi descoberto por Otto Rank [1910a] em Shakespeare. Est em O Mercador de Veneza, na famosa cena em que o venturoso 
amante escolhe entre os trs cofres... e talvez o melhor  ler para os senhores a breve descrio de Rank:
         'Um lapso de lngua ocorre em O Mercador de Veneza, de Shakespeare (Ato III, Cena 2) e , do ponto de vista dramtico, causado de maneira extremamente sutil 
e empregado com tcnica brilhante. Semelhante ao lapso existente em Wallenstein, para o qual Freud chamou a ateno, mostra que os dramaturgos possuem uma clara 
compreenso do mecanismo e do significado desse tipo de parapraxia, e supem que o mesmo seja verdadeiro para sua platia. Prcia, que, por vontade de seu pai, teve 
de escolher um marido por sorteio, escapou, at ento, de todos os seus indesejados pretendentes por um feliz acaso. Tendo enfim encontrado em Bassanio o pretendente 
de sua preferncia, tem motivos para temer que tambm ele venha a escolher o cofre errado. Ela desejaria muito dizer-lhe que, mesmo assim, ele poderia ter certeza 
de seu amor; porm isso lhe  vedado em virtude do juramento. Nesse conflito ntimo, o poeta faz com que ela diga ao pretendente preferido:
         Por favor, no vos apresseis; esperai um ou dois dias antes de consultar a sorte, pois, se escolherdes mal, perco vossa companhia; assim, pois, aguardai 
um pouco. Alguma coisa me diz (mas no  o amor) que no quereria perder-vos... Eu poderia ensinar-vos como escolher bem; mas, ento, seria perjura e no o serei 
jamais. Podeis, pois, fracassar; porm, se fracassardes, far-me-eis deplorar no haver cometido o pecado de perjrio. Malditos sejam vossos olhos!Encantaram-me e 
partiram-me em duas partes: uma  vossa e outra  meia vossa; quero dizer, minha; mas, sendo minha,  vossa e, desse modo, sou toda vossa.
         A coisa da qual ela desejava dar a ele apenas um indcio muito sutil, porque devia escond-la dele de qualquer maneira, ou seja, que ela, mesmo antes de 
ele fazer a escolha, era inteiramente dele e o amava -  precisamente isso que o poeta, com uma maravilhosa sensibilidade psicolgica, faz irromper abertamente em 
seu lapso de lngua; e, com essa soluo artstica, logra aliviar tanto a incerteza intolervel do amante como o suspense do compreensivo auditrio diante do resultado 
de sua escolha.'
         Observem tambm com que habilidade Prcia, no fim, reconcilia as duas afirmaes contidas em seu lapso de lngua, como resolve a contradio entre elas 
e como, finalmente, mostra ser o lapso o que estava correto:
         'Mas, sendo minha,  vossae desse modo, sou toda vossa.'
         Ocasionalmente tem acontecido que um pensador, cuja atividade se situa fora da medicina, haja revelado, por algo que falou, o sentido de uma parapraxia, 
e se tenha antecipado a nossos esforos de explic-la. Os senhores, todos, ouviram falar no espirituoso satirista Lichtenberg (1742-99), de quem Goethe disse: 'Onde 
ele faz uma pilhria, se esconde um problema.' s vezes, a pilhria tambm traz  luz a soluo do problema. Nos Witzige und Satirische Einflle [Witty and Satirical 
Thoughts, 1853], de Lichtenberg, encontramos o seguinte: 'Ele tanto leu Homero, que sempre lia "Agamemnon" em vez de "angenommen [suposto]".' Aqui temos toda a teoria 
dos lapsos de leitura.
         Na prxima vez precisamos ver se podemos concordar com esses escritores em suas opinies.
         
         
         CONFERNCIA III - PARAPRAXIAS (continuao)
         
         SENHORAS E SENHORES:
         Chegamos, na ltima vez,  idia de considerar as parapraxias no em relao  desejada funo que elas perturbavam, mas  sua prpria descrio; e tivemos 
a impresso de que, em casos especiais, pareciam revelar um sentido prprio. Refletimos ento que, se pudesse ser obtida a confirmao, em uma escala mais ampla, 
de que as parapraxias tm um sentido, seu sentido logo ficaria mais interessante que a investigao das circunstncias em que ocorrem. Vamos, mais uma vez, chegar 
a um acordo sobre o que se deve entender por 'sentido' de processo psquico. Queremos dizer com isso to-somente a inteno  qual serve e sua posio em uma continuidade 
psquica. Na maioria de nossas investigaes podemos substituir 'sentido' por 'inteno' ou 'propsito'. Tratava-se, ento, simplesmente de uma iluso enganadora 
ou de uma exaltao potica das parapraxias quando pensamos reconhecer nelas uma inteno?
         Continuaremos a tomar lapsos de lngua como nossos exemplos. Se agora examinarmos atentamente numerosas observaes desse tipo, encontraremos categorias 
completas de casos em que a inteno, o sentido, do lapso  inteiramente visvel. Antes de tudo existem aqueles nos quais o que se pretendia  substitudo por seu 
contrrio. O presidente da cmara dos deputados [ver em [1]] disse, em seu discurso de abertura: 'Declaro a sesso encerrada.' Isso no  nada ambguo. O sentido 
e inteno de seu lapso era encerrar a sesso. 'Er sagt es ja selbst"  o que estamos tentados a citar:  apenas uma questo de aceitar suas palavras. No me interrompam 
neste ponto, objetando que isso  impossvel, que sabemos que ele no queria encerrar a sesso e sim abri-la, e que ele mesmo, a quem ns reconhecemos como a nica 
suprema corte de apelao, poderia confirmar o fato de que queria abri-la. Os senhores esto se esquecendo de que fizemos o acordo de comearmos considerando as 
parapraxias no que concerne  sua prpria descrio; sua relao com a inteno, que elas perturbaram, no ser discutida seno mais adiante. De outro modo, os senhores 
sero culpados de um erro de lgica, simplesmente por fugirem do problema ora em exame - por algo que  chamado em ingls 'begging the question'.
         Em outros casos, nos quais o lapso no expressa o exato contrrio, no obstante um sentido oposto pode ser expresso por ele. 'No estou geneigt [inclinado] 
a valorizar os servios de meu predecessor [ver em [1]]. Geneigt no  o contrrio de geeignet [qualificado], mas exprime claramente algo que contrasta nitidamente 
com a situao na qual o discurso devia ser feito.
         J em outros casos o lapso de lngua apenas acrescenta um segundo sentido quele que se pretendia. A frase ento soa como uma contrao, uma abreviao 
ou condensao de diversas frases. Assim, quando a enrgica senhora dizia: 'Ele pode comer e beber o que eu quero' [ver em [1]],  bem como se ela tivesse dito: 
'Ele pode comer e beber o que ele quer; mas o que ele tem a ver com querer? Eu  que quero em vez dele.' Um lapso de lngua muitas vezes d a impresso de ser uma 
abreviao desse tipo. Por exemplo, um professor de anatomia, ao fim de uma conferncia sobre as cavidades nasais, perguntou se seu auditrio havia compreendido 
o que ele disse, e aps geral assentimento prosseguiu: 'Dificilmente posso acreditar nisso, pois, mesmo em uma cidade com milhes de habitantes, aqueles que entendem 
das cavidades nasais podem ser contados em um dedo... desculpem-me, nos dedos de uma mo.' A frase abreviada tambm possui um sentido - a saber, que existe apenas 
uma pessoa que delas entende.
         Contrastando com esses grupos de casos, nos quais a parapraxia por si mesma revela seu sentido, existem outros em que a parapraxia no produz nada que tenha 
algum sentido prprio, e que, por conseguinte, contrariam nitidamente nossas expectativas. Se algum deturpa um nome prprio atravs de um lapso de lngua ou agrupa 
uma srie anormal de sons, esses eventos muito comuns, isoladamente considerados, parecem dar uma resposta negativa  nossa pergunta sobre se todas as parapraxias 
tm alguma espcie de sentido. Um exame mais detido desses exemplos, porm, mostra que essas distores so facilmente compreendidas e que absolutamente no existe 
diferena to grande entre esses casos mais obscuros e os anteriores, mais claros.
         Um homem, a quem se perguntou a respeito da sade de seu cavalo, respondeu: 'Bem, ele draut [uma palavra sem sentido] ... ele dauert [vai durar] mais um 
ms, talvez.' Quando lhe foi perguntando o que realmente quis dizer, explicou haver pensado que isso era uma 'traurige [triste] histria'. A combinao de 'dauert' 
e 'traurig' produziu 'draut'.
         Outro homem, falando de uns acontecimentos que condenava, prosseguiu: 'Mas ento, os fatos vieram a Vorschwein [palavra no existente, em vez de Vorschein 
(luz)]....' Respondendo a indagaes, confirmou o fato de que havia considerado essas ocorrncias 'Schweinereien' ['repugnantes', literalmente 'porcarias']. 'Vorschein' 
e 'Schweinereien' combinaram-se para produzir a estranha palavra 'Vorschwein'.
         Por certo recordam-se do caso do jovem senhor que perguntou  senhora desconhecida se ele a podia 'begleitdigen' [ver em [1]]. Aventuramo-nos a dividir 
esta forma verbal em 'begleiten [acompanhar]' e 'beleidigen [insultar]' e nos sentimos muito certos dessa interpretao, sem precisarmos de qualquer confirmao. 
Os senhores vero, a partir desses exemplos, que mesmo esses casos mais obscuros de lapsos de lngua podem ser explicados por uma convergncia, uma 'interferncia' 
recproca entre duas elocues desejadas; as diferenas entre esses casos de lapsos surgem meramente do fato de, em algumas ocasies, uma inteno tomar completamente 
o lugar da outra (uma substitui a outra), como nos lapsos de lngua que exprimem o contrrio; ao passo que, em outras ocasies, uma inteno se satisfaz distorcendo 
ou modificando a outra, de modo que se produzem estruturas compostas, que fazem sentido, em maior ou menor grau, por sua prpria conta.
         Parecemos agora haver desvendado o segredo de grande nmero de lapsos de lngua. Se retivermos na memria essa descoberta, seremos capazes de compreender 
tambm outros grupos que at agora se constituram em enigma para ns. Nos casos de distoro de nomes, por exemplo, no podemos supor que se trate sempre de uma 
questo de competio entre dois nomes semelhantes, mas diferentes. No  difcil, no entanto, entrever a segunda inteno. A distoro de um nome ocorre, muito 
freqentemente, sem haver lapsos de lngua; procura dar ao nome um tom ofensivo ou faz-lo soar como algo inferior, e  um costume conhecido (ou mau costume) destinado 
a insultar, que as pessoas civilizadas cedo aprendem a abandonar, porm relutam em abandonar. Muitas vezes ainda  permitida como brincadeira, embora brincadeira 
pouco digna. Como exemplo notrio e deselegante dessa forma de distorcer nomes, posso mencionar que, nos dias atuais [da Primeira Guerra Mundial], o nome do presidente 
da Repblica Francesa, Poincar, foi transformado em 'Schweinskarr'. Portanto,  plausvel supor que a mesma inteno insultuosa esteja presente nesses lapsos de 
lngua e procure encontrar expresso na distoro de um nome. Explicaes semelhantes acodem ao esprito, na mesma ordem de coisas, quando se trata de certos exemplos 
de lapsos de lngua com efeitos cmicos ou absurdos. 'Eu os convido a arrotar [aufzustossen]  sade de nosso Chefe [ver em [1]].' Aqui, uma atmosfera de cerimnia 
 inesperadamente perturbada pela intromisso de uma palavra que evoca uma idia condenvel, e,  maneira de certas frases insultuosas e ofensivas, mal podemos evitar 
a suspeita de que uma inteno procurava encontrar expresso e estava em violenta contradio com as palavras ostensivamente respeitosas. O que o lapso de lngua 
parece ter estado dizendo era mais ou menos isto: 'No acreditem! Isso no  a srio. Pouco me importa esse sujeito!' Quase a mesma coisa se aplica a lapsos de lngua 
que transformam palavras inocentes em outras, indecentes ou obscenas. Assim, 'Apopos' em vez de ' propos', ou 'Eischeissweibchen' por 'Eiweissscheibchen'.Muitas 
pessoas, como sabemos, tiram alguma satisfao de um costume como esse de distorcer deliberadamente palavras inocentes em obscenas; tais distores so vistas como 
engraadas, e ao ouvirmos uma delas devemos, de fato, primeiro indagar do interlocutor se a disse intencionalmente, como brincadeira, ou se ela ocorreu como lapso 
de lngua.
         Bem, est parecendo como se tivssemos resolvido o problema das parapraxias, e com bem pouca dificuldade! No so eventos casuais, porm atos mentais srios; 
tm um sentido; surgem da ao concorrente - ou, talvez, da ao de mtua oposio - de duas intenes diferentes. Agora, contudo, vejo tambm que os senhores esto 
se preparando para apresentar-me uma avalanche de perguntas e de dvidas, que tero de ser respondidas e abordadas antes de podermos apreciar esse primeiro resultado 
de nosso trabalho. Certamente no tenho qualquer desejo de forar os senhores a decises apressadas. Vamos tom-las na devida ordem, uma aps outra e dedicar-lhes 
uma tranqila ateno.
         O que  que os senhores desejam perguntar-me? Penso eu que essa explicao se aplica a todas as parapraxias ou apenas a determinado nmero delas? Pode este 
mesmo ponto de vista ser estendido aos muitos outros tipos de parapraxias, aos lapsos de leitura, aos lapsos de escrita, ao esquecimento, aos atos descuidados, aos 
extravios, e assim por diante? Em vista da natureza psquica das parapraxias, que significao resta aos fatores de fadiga, excitao, distrao e interferncia 
na ateno? E mais,  claro que das duas intenes rivalizantes de uma parapraxia uma delas sempre est manifesta, porm a outra, nem sempre. Que fazemos, ento, 
para descobrir essa outra? E, se pensamos t-la descoberto, como provamos que se trata no apenas de uma inteno provvel, mas da nica que  a correta para o caso? 
Existe algo mais que desejam perguntar-me? Se no, vou prosseguir. Os senhores se lembraro de que no damos muito valor s parapraxias em si mesmas e tudo o que 
queremos  aprender, partindo de seu estudo, algo que possa resultar em benefcio da psicanlise. Por conseguinte, eu lhes apresento esta questo. Que intenes 
ou que propsitos so esses, capazes de perturbar outros dessa maneira? E quais so as relaes entre as intenes que perturbam e as intenes que so perturbadas? 
Logo, o problema no  resolvido, a menos que recomecemos nosso trabalho.
         Assim, pois, em primeiro lugar,  essa a explicao para todos os casos de lapsos de lngua? Estou muito inclinado a pensar que sim e meu motivo  que, 
sempre ao se investigar um exemplo de lapso de lngua, surge uma explicao desse tipo. No entanto, realmente tambm no h maneira de provar que um lapso de lngua 
no possa ocorrer sem esse mecanismo. Pode ser assim; mas, teoricamente,  uma questo sem interesse para ns, de vez que permanecem as concluses que desejamos 
tirar para nossa introduo  psicanlise, embora - este no  certamente o caso - nossa opinio seja vlida apenas para uma minoria dos casos de lapsos de lngua. 
 questo seguinte - saber se podemos estender a outros tipos de parapraxias nosso ponto de vista - responderei de antemo com um 'sim'. Os senhores sero capazes 
de se convencer disso ao virmos examinar exemplos de lapsos de escrita, de atos descuidados, e outros mais. Por motivos tcnicos, porm, sugiro que adiemos essa 
tarefa at havermos abordado os lapsos de lngua de forma ainda mais completa.
         Exige-se uma resposta mais detalhada  pergunta sobre que significao resta aos fatores postos em evidncia pelos autores mencionados - distrbios da circulao, 
fadiga, excitao, distrao e a teoria da perturbao da ateno - se aceitamos o mecanismo psquico dos lapsos de lngua que descrevemos. Observem que no estamos 
negando esses fatores. Em geral no  muito comum a psicanlise negar algo que outras pessoas afirmam; via de regra, ela apenas acrescenta algo novo - embora, sem 
dvida, vez e outra sucede esse algo, que at ento foi negligenciado e  agora apresentado como um acrscimo novo, ser de fato a essncia do assunto. A influncia 
das condies fisiolgicas sobre a produo dos lapsos de lngua mediante uma ligeira doena, distrbios da circulao ou estados de exausto deve ser reconhecida 
de imediato; a experincia cotidiana e pessoal os convencer disso. Mas, que pouca coisa elas explicam! Antes de tudo, elas no so precondies necessrias das 
parapraxias. Lapsos de lngua ocorrem, com a mesma possibilidade, em perfeita sade e em estado normal. Esses fatores somticos, portanto, apenas servem para facilitar 
e favorecer o especial mecanismo mental dos lapsos de lngua. Certa vez usei de uma analogia para descrever essa relao, e vou repeti-la aqui, porquanto posso supor 
no haver outra melhor que a substitua. Suponhamos que, numa noite escura, eu fosse a um local ermo e ali fosse atacado por um meliante, que carregasse com meu relgio 
e minha carteira. Como no visse claramente o rosto do ladro, faria minha queixa no posto policial mais prximo, com as palavras: 'Isolamento e escurido roubaram 
meus pertences.' O funcionrio da polcia poderia ento dizer-me: 'Pelo que o senhor diz, parece estar adotando injustificadamente uma opinio extremamente esquemtica. 
Seria melhor apresentar os fatos assim: "Valendo-se da escurido e favorecido pelo isolamento do lugar, um ladro desconhecido roubou os pertences do senhor." Em 
seu caso, me parece que a tarefa principal  que devemos encontrar o ladro. Talvez, ento, sejamos capazes de recuperar o produto do roubo.'
         Esses fatores psicofisiolgicos como a excitao, a distrao e os distrbios da ateno muito pouco nos vo ajudar com vistas a uma explicao. Eles so 
apenas frases vazias, so biombos atrs dos quais no devemos nos sentir impedidos de lanar um olhar. A pergunta deveria ser: o que foi causado pela excitao, 
pela distrao especial da ateno? Ademais, devemos reconhecer a importncia da influncia dos sons, da semelhana das palavras e das associaes habituais suscitadas 
pelas palavras. Estas facilitam os lapsos de lngua por apontarem os caminhos que esses lapsos podem tomar. Contudo, se tenho um caminho aberto diante de mim, esse 
fato automaticamente decide que eu o tomaria? Preciso de um motivo a mais, antes de me resolver por ele e, alm disso, de uma fora que me impulsione pelo caminho. 
Assim, essas relaes de sons e palavras constituem tambm, do mesmo modo como as condies somticas, exclusivamente coisas que favorecem os lapsos de lngua e 
no podem proporcionar a verdadeira explicao para eles. Considerem apenas isso: em uma imensa quantidade de casos meu falar no  perturbado pela circunstncia 
de as palavras, que estou usando, lembrarem outras com som semelhante, de serem intimamente vinculadas a seus contrrios, ou de associaes correntes delas derivarem. 
E talvez pudssemos encontrar uma sada acompanhando o filsofo Wundt, quando diz que os lapsos de lngua surgem se, em conseqncia de exausto fsica, a tendncia 
a associar prevalece sobre aquilo que a pessoa tenciona dizer. Seria muito convincente se no fosse contrariado pela experincia, que mostra que numa srie de casos 
os fatores somticos facilitadores dos lapsos de lngua esto ausentes, e que em outra srie de casos os fatores associativos, que os facilitam, esto igualmente 
ausentes.
         Entretanto, estou particularmente interessado em sua pergunta seguinte: Como se descobrem as duas intenes que se interferem mutuamente? Os senhores provavelmente 
no percebem como  importante a pergunta. Uma das duas intenes, aquela que  perturbada, naturalmente  inequvoca: a pessoa que comete o lapso de lngua conhece-a 
e a admite.  somente a outra, a inteno que perturba, que pode dar origem  dvida e  hesitao. Ora, j temos visto, e sem dvida os senhores no o esqueceram, 
que em numerosos casos essa outra inteno  igualmente evidente.  indicada pelo efeito do lapso, bastando que tenhamos a coragem de reconhecer nesse efeito uma 
validade prpria. Seja o caso do presidente da cmara dos deputados, cujo lapso de lngua disse o contrrio do tencionado. E claro que desejava abrir a sesso, porm 
 igualmente claro que tambm desejava encerr-la. Isso  to bvio que no nos deixa nada por interpretar. Nos outros casos, contudo, nos quais a inteno perturbadora 
apenas distorce a inteno original sem que ela mesma consiga completa expresso, como  que, partindo da distoro, chegamos  inteno perturbadora?
         Em um primeiro grupo de casos, isso se faz de maneira bastante simples e segura - com efeito, da mesma maneira como se tem a inteno perturbada. Fazemos 
o interlocutor dar-nos a informao diretamente. Depois do lapso de lngua, ele prontamente diz as palavras que originalmente pretendia: 'Draut... no, dauert [vai 
durar] mais um ms, talvez.' [ver em [1]]. Pois bem, exatamente da mesma forma o fazemos dizer qual a inteno que perturba. 'Por que', lhe perguntamos, 'o senhor 
disse "draut"?' Ele responde: 'Eu queria dizer " uma traurige [triste] histria".' De maneira semelhante, em outro caso, em que o lapso de lngua era 'Vorschwein' 
[ver em [1]], a pessoa confirma o fato de que desejava inicialmente dizer ' uma Schweinerei [porcaria]', porm se controlou e saiu-se com outro comentrio. Aqui, 
pois, a inteno que distorce fica estabelecida to seguramente como aquela que foi distorcida. Minha escolha desses exemplos no foi sem propsito, de vez que sua 
origem e sua soluo no procedem nem de mim nem de meus seguidores. E em ambos esses casos medidas ativas de alguma espcie foram necessrias para se chegar  soluo. 
Foi preciso perguntar ao orador por que cometera o lapso e o que poderia dizer sobre o mesmo. De outro modo, seu lapso poderia ter-lhe passado despercebido, sem 
desejar explic-lo. Quando, porm, foi indagado a respeito, deu a explicao com a primeira coisa que lhe ocorreu. E agora, por favor, observem que esse pequeno 
passo positivo e seu resultado bem-sucedido j so uma psicanlise, e constituem um modelo para todas as investigaes psicanalticas que empreenderemos daqui por 
diante.
         Serei demais desconfiado, porm, se suspeito que, exatamente no momento em que a psicanlise faz seu aparecimento perante os senhores, a resistncia a ela 
desperta, simultaneamente? No se sentem os senhores inclinados a objetar que a informao dada pela pessoa a quem foi feita a pergunta - a pessoa que cometeu o 
lapso de lngua - no  totalmente conclusiva? Ela estava naturalmente desejosa, pensam os senhores, de atender  solicitao de explicar o lapso, e assim disse 
a primeira coisa que lhe veio  cabea e que parecia capaz de fornecer tal explicao. Isso, porm, no  nenhuma prova de que o lapso realmente ocorreu dessa maneira. 
Pode ter sido assim; contudo, tambm pode ter sucedido de outra forma. E poderia ter-lhe ocorrido mais alguma coisa, que seria tambm apropriada, ou talvez at mesmo 
mais bem ajustada.
          estranho quo pouco respeito os senhores, no fundo, tm por um ato psquico. Imaginem que algum tivesse empreendido a anlise qumica de determinada 
substncia e encontrado determinado peso para um de seus componentes: tantos e tantos miligramas. Determinadas inferncias seriam deduzidas desse peso. Ora, supem 
os senhores que alguma vez ocorreria a um qumico criticar essas inferncias com base no fato de que a substncia isolada poderia igualmente ter tido algum outro 
peso? Todos se curvaro ante o fato de que o peso era esse e nenhum outro, e confiantemente tiraro da suas ulteriores concluses. No entanto, quando os senhores 
se defrontam com o fato psquico de que determinada coisa ocorreu  mente da pessoa interrogada, no querem admitir a validade do fato: alguma outra coisa poderia 
ter-lhe ocorrido! Os senhores acalentam a iluso de haver uma coisa como liberdade psquica e no querem desistir dela. Lamento dizer que discordo categoricamente 
dos senhores a este respeito.
         Perante isso iro interromper-se, porm apenas para retomar sua resistncia em outro ponto. E prosseguiro: 'Constitui tcnica especial da psicanlise, 
segundo entendemos, tomarem anlise as prprias pessoas a fim de obter a soluo de seus problemas. [ver em [1], adiante.] Agora tomemos um novo exemplo: aquele 
em que um orador, convocando a um brinde de homenagem numa ocasio de cerimnia, convidou seus ouvintes a arrotar [aufzustossen]  sade do chefe [ver em [1]].O 
senhor diz [ver em [1] e [2]] que a inteno perturbadora, nesse caso, era uma inteno de insultar: era essa que estava opondo-se  expresso de respeito do orador. 
, contudo, mera interpretao da parte do senhor, baseada em observaes no relacionadas com o lapso de lngua. Se, nesse exemplo, o senhor interrogasse a pessoa 
responsvel pelo lapso, ela no confirmaria a idia do senhor, de que ela tencionava um insulto; ao contrrio, ela repudiaria isso energicamente. Por que, em face 
desse claro desmentido, no abandona sua improvvel interpretao?'
         Sim. Os senhores encontraram um argumento poderoso desta vez. Posso imaginar o desconhecido proponente do brinde. Provavelmente  subordinado do chefe do 
departamento, a quem est sendo feita a homenagem - talvez ele mesmo j seja professor-assistente, um homem jovem, com excelentes projetos de vida. Procuro for-lo 
a admitir que ele pode, no obstante, ter tido uma sensao de que nele havia algo se opondo ao brinde em honra do chefe. Entretanto, isso me pe em maus lenis. 
Ele fica impaciente e, de repente, irrompe: 'Pare de querer me interrogar, se no, vou ficar grosseiro. O senhor vai arruinar toda a minha carreira com suas suspeitas. 
Apenas falei "aufstossen [arrotar]" em vez de "anstossen [brindar]", porque antes disse "auf" duas vezes na mesma frase.  o que Meringer chama de perseverao e 
no h nada mais para ser interpretado nisso. Est entendendo? Basta!' - Hum! Que reao surpreendente - uma negao realmente enrgica. Vejo que no h nada mais 
a tratar com o homem. Porm, tambm constato que ele mostra intenso interesse pessoal em insistir em que sua parapraxia no tem um sentido. Os senhores tambm podem 
sentir que existe algo de errado em ele ser assim to rude com uma indagao puramente terica. Entretanto pensaro, depois de tudo dito e feito: ele deve saber 
o que quis e o que no quis dizer.
         Mas, ser que sabe mesmo? Talvez seja essa ainda a questo.
         Agora, porm, julgam que me tm  merc dos senhores. 'Ento essa  sua tcnica', ouo-os dizer. 'Quando algum que cometeu um lapso de lngua diz alguma 
coisa a respeito, que satisfaz ao senhor, o senhor o declara autoridade decisiva e final no assunto. " ele mesmo quem diz! [ver em [1]]". Quando o que ele diz no 
se ajusta ao livro do senhor, ento tudo quanto o senhor diz  que ele no tem importncia - no h necessidade de acreditar nele.
         Isso  bastante verdadeiro. Mas posso trazer-lhes um exemplo semelhante, no qual ocorre o mesmo espantoso evento. Quando algum, acusado de um delito, confessa 
ao juiz sua ao, o juiz acredita em sua confisso; porm, se nega, o juiz no acredita nele. Se fosse de outra forma, no haveria aplicao de justia, e apesar 
de erros ocasionais devemos convir em que o sistema funciona.
         'O senhor  um juiz, ento? E uma pessoa que cometeu um lapso de lngua  trazida  sua presena sob acusao? Quer dizer que cometer um lapso de lngua 
 um delito, no ?'
          Talvez no precisemos rejeitar a comparao. Eu, contudo, pedir-lhes-ia observarem que profundas diferenas de opinio atingimos aps uma pequena investigao 
do que pareciam ser esses inocentes problemas concernentes s parapraxias - diferenas que, no momento, no vemos como atenuar. Proponho uma conciliao provisria, 
com base na analogia entre juiz e ru. Penso que os senhores conviro comigo em que no pode haver dvida de que a parapraxia tenha um sentido, se a prpria pessoa 
o admite. Em troca, eu vou convir em que no podemos chegar a uma prova direta do suspeito sentido, se a pessoa nos recusa informaes, e tambm, naturalmente, se 
no est em condies de nos fornecer as informaes. Portanto, como no caso da aplicao da justia, somos obrigados a voltar-nos para a prova circunstancial, que 
pode tornar uma deciso mais fundamentada em alguns casos, e menos, em outros. Nos tribunais de justia pode ser necessrio, por motivos prticos, considerar um 
ru culpado com base em provas circunstanciais. No temos necessidade disso; nem estamos, contudo, tambm obrigados a prescindir de provas circunstanciais. Seria 
um erro supor que uma cincia consista inteiramente de teses estritamente comprovadas, e seria injusto exigir isso. Somente uma pessoa inclinada a uma paixo por 
autoridade far essa exigncia, algum com um desejo insacivel de substituir seu catecismo religioso por outro, embora cientfico. A cincia tem apenas algumas 
poucas proposies apodcticas em seu catecismo: o resto so asseres promovidas por ela a um certo grau de probabilidade. Atualmente, constitui sinal de modo cientfico 
de pensamento contentar-se com essas aproximaes da certeza e ser capaz de dedicar-se a um trabalho construtivo mais alm, apesar da ausncia de confirmao final.
         No entanto, se a pessoa mesma no nos d a explicao do sentido de uma parapraxia, onde iremos encontrar os pontos de partida para nossa interpretao 
- a prova circunstancial? Em diversas direes. Em primeiro lugar, a partir de analogias com fenmenos outros que no as parapraxias: quando, por exemplo, afirmamos 
que distorcer um nome, isso ocorrendo como lapso de lngua, tem o mesmo sentido insultuoso que a deturpao deliberada de um nome. Ademais, tambm a partir da situao 
psquica na qual ocorreu a parapraxia, do carter da pessoa que comete a parapraxia e das impresses que a pessoa recebeu antes da parapraxia e s quais a parapraxia 
talvez seja uma reao. O que sucede, via de regra,  a interpretao ser efetuada segundo princpios gerais: comear por onde existe apenas uma suspeita, uma hiptese 
de interpretao; e ento encontramos uma confirmao ao examinarmos a situao psquica. s vezes, temos de esperar tambm por eventos subseqentes (que, de certa 
maneira, se anunciaram pela parapraxia) antes de nossa suspeita ser confirmada.
         No posso facilmente dar-lhes ilustraes desse aspecto se me limito ao campo dos lapsos de lngua, embora nele mesmo se possa encontrar alguns bons exemplos. 
O jovem senhor que queria 'begleitdigen' uma senhora [ver em [1]] certamente era uma personalidade tmida. A mulher, cujo marido podia comer e beber o que ela quisesse 
[ver em [1]],  o que eu conheo como uma dessas enrgicas senhoras que mandam em casa. Ou, ento, tomemos o seguinte exemplo: Na assemblia geral do "Concordia" 
um jovem membro fez um discurso de violenta oposio, no decorrer do qual se referiu  diretoria como 'Vorschussmitglieder [membros do emprstimo]', uma palavra 
que parece ter sido formada de 'Vorstand [diretoria]' e 'Ausschuss [comisso]'. Suspeitaremos de que alguma inteno perturbadora estivesse operando nele, trabalhando 
contra sua violenta oposio, baseada em algo referente a um emprstimo. E com efeito, soubemos de nosso informante que o orador estava constantemente em dificuldades 
financeiras, e justamente nessa poca se havia inscrito para um emprstimo. A inteno perturbadora podia, por conseguinte, ser substituda pelo pensamento: 'Modere 
sua posio, estas so as mesmas pessoas que iro aprovar seu emprstimo.'
         Contudo, tenho condies de dar-lhes um extenso conjunto de provas circunstanciais desse tipo se me desloco para o vasto campo das outras parapraxias.
         Se algum esquece um nome prprio que lhe  normalmente familiar, ou se, malgrado todos os seus esforos, acha difcil lembr-lo,  plausvel supor que 
tenha algo contra a pessoa que usa o nome, de modo que prefere no pensar nela. Considerem, por exemplo, o que aprendemos sobre a situao psquica em que ocorreu 
a parapraxia, nos casos que agora examinaremos:
         'Herr Y. apaixonou-se por uma senhora, porm no teve sucesso, e logo depois ela se casou com Herr X. Depois disso, Herr Y., apesar de ter conhecido Herr 
X. por muito tempo e mesmo ter assuntos de negcios com ele, esquecia seu nome repetidamente, de forma que por diversas vezes tinha de perguntar a outras pessoas 
qual era o nome, quando precisava corresponder-se com Herr X.' Herr Y. evidentemente nada queria saber de seu rival mais afortunado: 'jamais pensar sobre sua existncia.'
         Ou esse outro: Uma senhora indagou a seu mdico sobre notcias de uma conhecida de ambos, porm mencionou-a por seu nome de solteira. Ela havia esquecido 
o nome de casada de sua amiga. Admitiu, depois, que ficara muito desgostosa com o casamento e se antipatizava com o marido de sua amiga.
         Teremos muito a dizer sobre esquecimento de nomes em outros contextos [ver em  [1] e seg., adiante]; no momento interessa-nos principalmente a situao 
psquica na qual ocorre o esquecimento.
         O esquecimento de intenes pode geralmente ser atribudo a uma corrente oposta de pensamento, que reluta em executar a inteno. Essa opinio, porm, no 
 sustentada apenas por ns, psicanalistas;  opinio geral, aceita por todos em sua vida diria e negada somente quando se torna teoria. Um protetor que d a seu 
protg a desculpa de haver esquecido seu pedido, no precisa justificar-se. O protg logo pensa: No significa nada para ele;  verdade que prometeu, mas na realidade 
no quer faz-lo. Por essa razo o esquecimento  interdito em certas circunstncias da vida comum; a diferena entre a opinio popular e a opinio psicanaltica 
acerca dessas parapraxias parece haver desaparecido. Imaginem a dona da casa recebendo seu convidado com as palavras: 'O qu? O senhor veio hoje? Esqueci-me totalmente 
de hav-lo convidado para hoje.' Ou imaginem um jovem senhor confessando a sua noiva que ele se esqueceu de comparecer ao ltimo encontro. Ele certamente no o confessar; 
preferir inventar de improviso os mais improvveis obstculos que o impediram de comparecer a tempo e que, depois, o impossibilitaram de avis-la. Todos sabemos, 
tambm, que na vida militar a desculpa de se haver esquecido algo, em nada ajuda, e no constitui proteo contra punio; e certamente todos sentimos que essa conduta 
se justifica. Aqui de repente todos se unem no pensar que uma determinada parapraxia tem um sentido e no saber que sentido  esse. Por que no so suficientemente 
coerentes para estender seu conhecimento s outras parapraxias e admiti-las plenamente? Para essa pergunta existe, naturalmente, tambm uma resposta.
         Visto como os leigos tm to poucas dvidas sobre o sentido do esquecimento de intenes, os senhores no ficaro nada surpresos ao encontrarem escritores 
empregando essa espcie de parapraxia no mesmo sentido. Qualquer um dos senhores que tenha visto ou lido Caesar and Cleopatra, de Bernard Shaw, se lembrar de que, 
na ltima cena, Csar, ao deixar o Egito,  perseguido pela idia de que h alguma coisa mais que tencionara fazer, porm esqueceu. No fim, vem-se a saber o que 
era: esquecera-se de dizer adeus a Clepatra. O dramaturgo, mediante esse pequeno expediente engenhoso, procura atribuir ao grande Csar a superioridade que, na 
realidade, ele no possui e que jamais desejou. Fontes histricas lhes contaro que Csar fez Clepatra acompanh-lo a Roma, que ela vivia l com seu pequeno Caesarion 
quando Csar foi assassinado, e que ela logo depois fugiu da cidade.
         Casos de esquecimento de uma inteno em geral so to claros que no servem muito a nosso objetivo obter a partir da situao psquica uma prova circunstancial 
do sentido de uma parapraxia. Voltemo-nos, portanto, para um tipo de parapraxia especialmente ambguo e obscuro: a perda e o extravio. Os senhores no tero dvida 
em achar inacreditvel que ns prprios podemos desempenhar um papel intencional em coisa to freqente como o  o doloroso acidente de perder algo. Existem, contudo, 
numerosas observaes semelhantes  que se segue. Um jovem senhor perdeu um lpis de grande valor estimativo para ele. No dia anterior recebera uma carta de seu 
cunhado, a qual terminava com estas palavras: 'No tenho atualmente nem disposio nem tempo para encoraj-lo em sua futilidade e preguia.' O lpis, de fato, lhe 
fora dado pelo mesmo cunhado. Sem essa coincidncia no poderamos, naturalmente, ter afirmado que, nessa perda, um papel foi desempenhado pela inteno de se desfazer 
do objeto. Casos semelhantes so muito comuns. Perdemos um objeto se nos desentendemos com a pessoa de quem o ganhamos e no queremos nos lembrar dela; ou, ento, 
se no gostamos mais do objeto em si mesmo e queremos uma desculpa para conseguir um outro melhor em seu lugar. A mesma inteno dirigida contra um objeto tambm, 
naturalmente, pode ter um desempenho nos casos de deixar cair, de quebrar e de destruir coisas. Podemos considerar obra do acaso quando uma criana em idade escolar, 
imediatamente antes do aniversrio, estraga ou despedaa algum de seus pertences pessoais como sua mochila ou seu relgio?
         Sequer qualquer um que j tenha sofrido suficientes vezes o tormento de no poder encontrar algo guardado por ele mesmo, se sentir inclinado a acreditar 
que existe um objetivo em extraviar coisas. No so nada raros os casos em que as circunstncias concomitantes do extravio indicam uma inteno de se desfazer, temporria 
ou permanentemente, do objeto.
         O que se segue talvez seja o melhor exemplo de tal situao. Um homem ainda bem jovem contou-me o seguinte caso: 'H alguns anos havia desentendimentos 
entre mim e minha esposa. Achava-a muito fria, e embora de bom grado reconhecesse suas excelentes qualidades, convivamos sem quaisquer sentimentos ternos. Um dia. 
voltando de uma caminhada, deu-me um livro que havia comprado porque pensou que me interessaria. Agradeci-lhe esse gesto de "ateno", prometi ler o livro e o pus 
de parte. Depois disso jamais consegui encontr-lo. Passaram-se meses, durante os quais casualmente eu me lembrava do livro perdido e fazia vs tentativas de encontr-lo. 
Uns seis meses mais tarde minha querida me, que no morava conosco, caiu doente. Minha esposa deixou a casa para ir cuidar de sua sogra. A condio da paciente 
agravou-se e deu  minha mulher uma oportunidade de revelar o melhor lado de si mesma. Uma noite, eu regressava a casa cheio de entusiasmo e gratido pelo que minha 
esposa tinha realizado. Aproximei-me de minha escrivaninha, e, sem qualquer inteno definida, embora com uma espcie de certeza de sonmbulo, abri uma das gavetas. 
Ali, bem  vista, encontrei o livro que h muito eu extraviara. Com a extino do motivo o extravio do objeto tambm cessou.
         Senhoras e senhores, poderia multiplicar indefinidamente essa coleo de exemplos; mas no o farei, aqui. De qualquer forma os senhores encontraro uma 
profuso de material para estudo das parapraxias em Psychopathology of Everyday Life (publicado pela primeira vez em 1901). Todos esses exemplos conduzem ao mesmo 
resultado: indicam a probabilidade de as parapraxias terem um sentido, e mostram aos senhores como esse sentido  descoberto ou confirmado pelas circunstncias concomitantes. 
Hoje serei mais breve, pois adotamos o objetivo limitado de usar o estudo desses fenmenos como auxlio para uma preparao  psicanlise. H apenas dois grupos 
de observaes nos quais preciso adentrar-me mais completamente neste ponto: as parapraxias acumuladas e combinadas e a confirmao de nossas interpretaes por 
acontecimentos subseqentes.
         As parapraxias acumuladas e combinadas so, sem dvida, a fina flor de sua espcie. Se estivssemos apenas interessados em provar que as parapraxias tm 
um sentido, nos teramos limitado a elas logo de sada, de vez que em seu caso o sentido  inconfundvel at mesmo para um pobre de esprito e se impe ao julgamento 
mais crtico. Um acmulo desses fenmenos revela uma persistncia que quase nunca constitui caracterstica de eventos casuais, a qual, porm, se ajusta muito bem 
a algo intencional. Finalmente, a permutabilidade recproca entre diferentes espcies de parapraxias demonstra que coisa na parapraxia  importante e caracterstica: 
no  sua forma nem o mtodo que empregam, mas sim o propsito a que servem, possvel de se atingir das mais variadas formas. Por essa razo, fornecer-lhes-ei um 
exemplo de esquecimento repetido. Ernest Jones [1911, 483] conta-nos que, por motivo que ele desconhece, certa vez deixou por vrios dias uma carta sobre sua escrivaninha. 
Por fim decidiu expedi-la; a carta, porm, retornou a ele pelo Dead Letter Office pois havia se esquecido de sobrescrit-la. Depois de colocado o endereo levou-a 
ao correio, mas desta vez ela no tinha selo. Ento, por fim, foi obrigado a admitir sua completa relutncia em enviar a carta.
         Em outro caso um ato descuidado aparece combinado com um exemplo de extravio. Uma senhora viajou para Roma com seu cunhado, que era um artista famoso. O 
visitante foi recebido com grandes honras pela comunidade alem de Roma e, entre outros presentes, deram-lhe uma antiga medalha de ouro. A senhora ficou agastada 
porque seu cunhado no apreciou suficientemente o valioso objeto. Quando regressava a sua casa (o lugar onde estava, em Roma, ficou ocupado por sua irm), ao desfazer 
as malas ela descobriu que havia trazido a medalha consigo; como, ela no sabia. Imediatamente enviou a seu cunhado uma carta com a notcia informando que no dia 
seguinte devolveria para Roma o objeto que levara consigo. Porm no dia imediato a medalha foi extraviada de forma to astuta que no pde ser encontrada e remetida; 
e foi nesse ponto que a senhora comeou a compreender o significado de sua distrao: ela queria guardar o objeto para si mesma.
         J lhes dei um exemplo de combinao de um esquecimento com um erro, o caso de algum que se esquece de um compromisso e, numa segunda ocasio, aparece 
na hora errada, tendo antes decidido firmemente no esquec-lo desta vez [ver em [1]]. Um caso exatamente semelhante foi-me referido, de sua prpria experincia, 
por um amigo que possui interesses literrios e cientficos. 'H alguns anos', contou-me, 'permiti que me elegessem para a diretoria de certa sociedade literria, 
pois pensava que a organizao algum dia pudesse ser capaz de me ajudar a ter minha pea produzida; e embora sem muito interesse, participei regularmente das reunies 
que se realizavam todas as sextas-feiras. H poucos meses deram-me a promessa de uma produo no teatro de F.; e, desde ento, tenho me esquecido regularmente das 
reunies da sociedade. Ao ler seu livro sobre o assunto senti-me envergonhado de minha negligncia. Reprovei-me com a idia de que distanciar-me era uma conduta 
indigna de minha parte, de vez que agora eu no estava precisando mais dessas pessoas, e resolvi a qualquer custo no me esquecer da prxima sexta-feira. Persisti 
em lembrar-me dessa resoluo at quando a pus em execuo e parei diante da porta da sala onde as reunies se realizavam. Para minha surpresa, estava fechada; a 
reunio havia terminado. Eu havia realmente cometido um engano quanto ao dia; era sbado!'
         Seria adequado acrescentar outros exemplos semelhantes. Devo prosseguir, contudo, e mostrar-lhes num relance os casos em que nossa interpretao tem de 
esperar pelo futuro para ser confirmada. A condio dominante nesses casos, como se verificar,  que a situao psquica presente nos  desconhecida ou inacessvel 
a nossas pesquisas. Nossa interpretao, por conseguinte, no  mais que uma suspeita  qual ns prprios no atribumos muita importncia. Mais tarde, no entanto, 
sucede algo que nos revela quo acertada fora nossa interpretao. Certa vez fui hspede de um jovem casal recm-casado e ouvi a jovem senhora descrever, com risos, 
sua ltima experincia. No dia aps o regresso da lua-de-mel, convidara sua irm solteira para acompanh-la s compras, como costumava fazer, enquanto seu marido 
ia para o trabalho. De repente, reparou em um cavalheiro no outro lado da rua, e, cutucando sua irm, exclamou: 'Olha, a vai Herr L.' Ela se havia esquecido de 
que esse cavalheiro era seu marido h algumas semanas. Estremeci quando ouvi a histria, contudo no ousei tirar uma concluso. O pequeno incidente s acudiu  minha 
memria alguns anos depois, quando o casamento havia chegado a um triste fim.
         Maeder conta-nos de uma senhora que, na vspera de suas npcias, se esquecera de provar o vestido de casamento e, para desespero de seu costureiro, apenas 
se lembrou quando j era tarde,  noite. Correlaciona essa negligncia com o fato de que ela em breve se divorciava de seu marido. Conheo uma senhora, atualmente 
divorciada de seu marido, a qual, ao tratar de assuntos de dinheiro, freqentemente assinava documentos com seu nome de solteira, muitos anos antes de o reassumir 
de fato. - Sei de outras mulheres que perderam suas alianas de casamento durante a lua-de-mel, e tambm que a histria de seus casamentos conferiu um sentido ao 
acidente. - E agora, eis mais um exemplo evidente, porm com um final mais feliz. Conta-se essa histria de um famoso qumico alemo, cujo casamento no se realizou 
porque ele se esqueceu da hora da cerimnia nupcial, tendo ido ao laboratrio em vez de ir  igreja. Foi muito prudente por se haver contentado com uma s tentativa; 
morreu em avanada idade, solteiro.
         Talvez possa ter ocorrido aos senhores a idia de que, nesses exemplos, as parapraxias assumiram o lugar dos pressgios ou dos augrios dos antigos. E, 
com efeito, alguns pressgios nada mais eram que parapraxias, como, por exemplo, quando algum tropeava ou caa. Outros,  verdade, tinham o carter de acontecimentos 
objetivos e no de atos subjetivos. Os senhores, contudo, dificilmente acreditariam quo difcil, s vezes,  decidir se determinado evento pertence a um ou a outro 
grupo. Um ato muito amide sabe como se disfarar como uma experincia passiva.
         Aqueles dentre ns que podem recordar uma experincia de vida comparativamente longa, provavelmente admitiro que nos teramos poupado muitos desapontamentos 
e surpresas dolorosas se tivssemos encontrado coragem e determinao para interpretar como augrios pequenas parapraxias experimentadas em nossos contatos humanos, 
e para fazer uso delas como indcios de intenes que ainda estavam ocultas. Via de regra, no ousamos faz-lo; isso nos levaria a sentir-nos como se, aps uma jornada 
atravs da cincia, estivssemos ficando supersticiosos novamente. Nem todos os augrios se realizam e os senhores compreendero, a partir de nossas teorias, que 
nem todos precisam realizar-se.
         
         CONFERNCIA IV - PARAPRAXIAS (concluso)
         
         SENHORAS E SENHORES:
         Podemos considerar como resultado de nossos esforos at agora desenvolvidos e como base de nossas ulteriores investigaes o fato de as parapraxias terem 
um sentido. Permitam-me mais uma vez insistir em que no estou afirmando - para nossos objetivos no h necessidade de faz-lo - que toda parapraxia que ocorre individualmente 
tem um sentido, embora eu pense que provavelmente seja esse o caso. J nos satisfaz mostrarmos esse sentido em um nmero relativamente freqente de diferentes formas 
de parapraxias. Ademais, a esse respeito as diferentes formas aqui mencionadas se comportam de modo diverso. Casos de lapsos de lngua e de lapsos de escrita, e 
outros, podem ocorrer mediante uma causa puramente fisiolgica. No posso acreditar que isso ocorra nos tipos que dependem de esquecimento (esquecimento de nomes 
ou de intenes, extravios, etc.).  muito provvel haver casos de perda que podem ser considerados como no-intencionados. De um modo geral,  verdade que apenas 
uma parcela dos erros que ocorrem na vida comum, pode ser julgada segundo nosso ponto de vista. Os senhores devem ter em mente essas limitaes quando, de ora em 
diante, dermos por estabelecido o fato de que as parapraxias so atos psquicos e surgem de mtua interferncia entre duas intenes.
         Esse  o primeiro produto da psicanlise. A psicologia, at o momento atual, nada sabia da existncia dessas interferncias recprocas ou da possibilidade 
de que pudessem resultar em tais fenmenos. Ampliamos consideravelmente o mundo dos fenmenos psquicos e conquistamos para a psicologia fenmenos que anteriormente 
no eram nele includos.
         Faamos uma pausa mais detida sobre a afirmao de que as parapraxias so 'atos psquicos'. Ser que isso envolve uma coisa alm daquilo que j dissemos: 
que elas possuem um sentido? Penso que no. Penso, antes, que a afirmao anterior [de que so atos psquicos]  mais indefinida e mais facilmente passvel de compreenso 
errnea. Tudo o que  observvel na vida mental pode ocasionalmente ser descrito como fenmeno mental. A questo, nesse caso,  saber se o fenmeno mental especfico 
teve origem imediata em influncias somticas, orgnicas e materiais - e, assim, sua investigao no far parte da psicologia - ou se ele, em primeira instncia, 
deriva de outros processos mentais, em alguma parte alm daquela onde comea a srie das influncias orgnicas.  essa ltima situao que temos em vista quando 
descrevemos um fenmeno como processo mental, sendo por isso mais adequado encerrar nossa afirmao desta forma: 'o fenmeno tem um sentido'. Por 'sentido' entendemos 
'significao', 'inteno', 'propsito' e 'posio em um contexto psquico contnuo'. [ver em [1]]
         Existem inmeros outros fenmenos muito semelhantes s parapraxias; para eles, porm, esse nome no mais se ajusta. Ns os denominamos aes casuais e aes 
sintomticas. Estas possuem igualmente a peculiaridade de no ter motivo, serem insignificantes e no importantes; contudo, tm um acrscimo, explicitamente o de 
serem desnecessrias. Distinguem-se das parapraxias porque lhes falta uma segunda inteno capaz de lhes fazer oposio e de ser perturbada por elas. Por outro lado, 
elas se confundem insensivelmente com os gestos e movimentos que consideramos expresses das emoes. Essas aes casuais incluem toda classe de manipulaes com 
nossas roupas ou com partes de nosso corpo ou com objetos ao nosso alcance, executadas como que por brincadeira e aparentemente sem finalidade, e incluem, ademais, 
a omisso dessas manipulaes; ou, alm disso, melodias que murmuramos para ns mesmos. Penso que todos esses fenmenos tm um sentido e podem ser interpretados 
da mesma forma como as parapraxias, que eles so pequenas indicaes de processos mentais mais importantes e atos psquicos inteiramente vlidos. No me proponho, 
contudo, demorar-me sobre essa recente expanso do campo dos fenmenos mentais; voltarei s parapraxias, em relao s quais importantes problemas para a psicanlise 
podem ser equacionados com muito maior clareza.
         Talvez sejam essas as questes mais interessantes que levantamos a respeito das parapraxias e que ainda no foram respondidas. Dissemos serem as parapraxias 
o produto de mtua interferncia entre duas intenes diferentes, das quais uma pode ser chamada de inteno perturbada e a outra, inteno perturbadora. As intenes 
perturbadas no ensejam outras questes, porm no que se refere s intenes perturbadoras gostaramos de saber: em primeiro lugar, que espcie de intenes so 
essas capazes de perturbar outras, e, em segundo lugar, qual  a relao das intenes perturbadoras com as perturbadas?
         Se me permitem, mais uma vez tomarei lapsos de lngua como representantes da classe inteira, e responderei  segunda questo antes de responder  primeira.
         Em um lapso de lngua a inteno perturbadora pode, em seu contedo, custar relacionada  inteno perturbada, caso em que ela a contradiz, corrige ou suplementa. 
Ou ento - caso esse mais obscuro e mais interessante - o contedo da inteno perturbadora pode no ter nada a ver com o contedo da inteno perturbada.
         No teremos qualquer dificuldade em encontrar provas da relao citada em primeiro lugar, em exemplos que j conhecemos e em outros parecidos. Em quase 
todos os casos nos quais um lapso de lngua inverte o sentido, a inteno perturbadora expressa o contrrio da inteno perturbada, e a parapraxia representa um 
conflito entre duas tendncias incompatveis. 'Declaro aberta a sesso, porm preferiria que j estivesse encerrada'  o sentido do lapso de lngua do presidente 
[ver em [1]]. Uma revista poltica, acusada de corrupo, se defende em um artigo cujo clmax deveria ter sido: 'Nossos leitores sero testemunhas do fato de que 
sempre agimos da maneira mais desinteressada, pelo bem da comunidade.' O editor a quem fora confiada a preparao do artigo, porm, escreveu 'da maneira mais interesseira'. 
Quer dizer, ele estava pensando: 'Isso  o que estou obrigado a escrever; porm, tenho idias diferentes.' Um membro do parlamento [alemo], que insistia em que 
se devia dizer a verdade ao imperador 'rckhaltlos [sem reservas]', evidentemente ouviu uma voz interior, sobressaltada com sua ousadia e, por um lapso de lngua, 
mudou a palavra para 'rckgratlos [sem espinha dorsal, sem coragem]'.
         Nos exemplos j conhecidos dos senhores, os quais do uma impresso de serem contraes ou abreviaes, o que temos diante de ns so correes, acrscimos 
ou continuaes, por meio dos quais uma segunda inteno se faz sentir ao lado da primeira. 'Os fatos vieram a Vorschein [a luz] - melhor dizer de uma vez: eram 
Schweinereien [porcarias]; pois bem, ento os fatos vieram a Vorschwein [ver em [1]].' 'Os que entendem disso podem ser contados nos dedos de uma mo - no, existe 
realmente apenas uma pessoa que entende disso: portanto, pode ser contada em um s dedo [ver em [1]].' Ou: 'Meu marido pode comer e beber o que quer. Mas, como sabem, 
eu no me submeto  sua vontade em nada, absolutamente; ento: ele pode comer e beber o que eu quero [ver em [1]].' Em todos esses casos o lapso de lngua surge, 
pois, do contedo da prpria inteno perturbada ou est em conexo com ela.
         A outra espcie de relao entre as duas intenes mutuamente interferentes parece enigmtica. Se a inteno perturbadora no tem nada a ver com a inteno 
perturbada, de onde pode ter-se originado e por que se faz notar como uma perturbao nesse determinado ponto? A observao, que por si s  capaz de dar-nos a resposta 
para isso, mostra que a perturbao surge de uma seqncia de idias que pouco antes se apossou da pessoa referida, e produz esse efeito subseqente havendo ou no 
j sido expressa no discurso. Portanto, na realidade deve ser descrita como uma perseverao, embora no necessariamente como a perseverao das palavras faladas. 
Tambm nesse caso est presente um elo associativo entre as intenes perturbadora e perturbada, porm no  situado em seu contedo, e sim construdo artificialmente, 
muitas vezes atravs de vias associativas extremamente tortuosas.Aqui est um exemplo simples desse aspecto, derivado de minha prpria experincia. Certa vez encontrei 
nas aprazveis Dolomitas duas senhoras vienenses vestidas em trajes de passeio. Acompanhei-as parte do caminho e conversamos sobre as delcias e, tambm, as atribulaes 
de passar um feriado daquela maneira. Uma das senhoras admitiu que passar assim o dia tinha como conseqncia uma boa dose de desconforto. 'Certamente, no  de 
todo agradvel', dizia, 'quando se esteve o dia inteiro perambulando ao sol e transpirando at pela blusa e a camisa.' Nesta frase, ela teve de vencer uma leve hesitao 
em determinado ponto. E prosseguiu: 'Mas ento, quando se vai "nach Hose" e se pode mudar....' Esse lapso de lngua no foi analisado, contudo espero que possam 
compreend-lo facilmente. A inteno da senhora fora obviamente a de dar uma lista mais completa de suas roupas: blusa, camisa e Hose [calas]. Razes de decoro 
levaram-na a omitir qualquer meno s 'Hose'. Porm na frase seguinte, com seu contedo bastante independente, a palavra no dita emergiu como uma distoro da 
outra de som semelhante, 'nach Hause [para casa]'.
         Agora, porm, podemos voltar  questo principal, que por muito tempo adiamos: que espcie de intenes so essas, que encontram expresso nessa forma incomum 
como perturbadoras de outras intenes? Bem, evidentemente elas so de espcies muito diferentes, entre as quais devemos procurar o fator comum. Com isso em mente, 
se examinarmos determinado nmero de exemplos, esses logo se enquadraro em trs grupos. O primeiro grupo contm aqueles casos nos quais a inteno perturbadora 
 do conhecimento de quem fala e, alm disso, foi por este percebida antes de cometer o lapso de lngua. Assim, no lapso do 'Vorschwein' [ver em [1]] a pessoa que 
falava admitiu no somente haver feito o julgamento 'Schweinereien'/' sobre os fatos em questo, mas tambm admitiu que tivera a inteno, da qual depois recuou, 
de expressar seu julgamento em palavras. Um segundo grupo  formado por outros casos nos quais a inteno perturbadora  igualmente reconhecida como tal pela pessoa 
que fala; porm, nestes casos, a pessoa no se apercebia de que a inteno estava atuando dentro dela to logo acabou de cometer o lapso. Desse modo, ela aceita 
nossa interpretao de seu lapso; ainda assim, permanece surpresa com o mesmo. Exemplos desse tipo de atitude talvez possam ser encontrados em outras espcies de 
parapraxias, mais facilmente do que nos lapsos de lngua. Em um terceiro grupo, a interpretao da inteno perturbadora  vigorosamente rejeitada por aquele que 
incorreu no lapso; no apenas nega que essa inteno estava atuante nele antes de cometer o lapso, mas procura sustentar a afirmao de que tal inteno lhe  inteiramente 
estranha. Recordam-se do exemplo do 'arroto' [ver em [1] e [2]] e da vigorosa contestao que me foi apresentada pelo orador, pelo fato de eu revelar sua inteno 
perturbadora. Como os senhores sabem, at agora, em nossas opinies, ainda no chegamos a um acordo a respeito desses casos. Eu no daria maior importncia  contestao 
formulada pelo proponente do brinde e persistiria serenamente em minha interpretao, ao passo que os senhores; suponho, ainda afetados pelo protesto daqueles, levantam 
a questo de saber se no deveramos desistir de interpretar parapraxias dessa espcie e consider-las como atos puramente fisiolgicos, no sentido pr-analtico. 
Bem posso imaginar que coisa os intimida. Minha interpretao abriga a hiptese de que, quando uma pessoa fala, podem ser expressas intenes das quais ela prpria 
nada sabe e que eu, contudo, posso inferir a partir de provas circunstanciais. Os senhores se detm ao arrostar essa hiptese nova e momentosa. Posso entender isso 
e lhes dou razo nesse ponto. No entanto, uma coisa  certa. Se os senhores querem aplicar coerentemente a compreenso das parapraxias, confirmada por tantos exemplos, 
tero de se decidir a aceitar a estranha hiptese que mencionei. Caso no possam faz-lo, mais uma vez precisaro abandonar o entendimento das parapraxias, que os 
senhores vm de adquirir.
         Consideremos, por um momento, que coisa  essa que une os trs grupos, o que  aquilo que os trs mecanismos dos lapsos de lngua tm em comum. Isso, felizmente, 
 um fato inequvoco. Nos dois primeiros grupos, a inteno perturbadora  reconhecida pela pessoa que comete o lapso; ademais, no primeiro grupo essa inteno se 
revela imediatamente antes do lapso. Porm, em ambos os casos, ela  repelida. O orador decide no express-la verbalmente e, aps isso, ocorre o lapso de lngua: 
aps isso, quer dizer, que a inteno, que foi repelida,  expressa em palavras, contra a vontade de quem fala, seja alterando a expresso da inteno permitida, 
seja confundindo-se com essa expresso, ou realmente tomando seu lugar. Este , pois, o mecanismo do lapso de lngua.
         Em minha opinio, posso fazer com que aquilo que acontece no terceiro grupo se harmonize completamente com o mecanismo que descrevi. Apenas tenho de supor 
ser o diferente grau em que a inteno  repelida, aquilo que distingue esses trs grupos um dos outros. No primeiro grupo a inteno existe e se faz notar antes 
de o orador express-la; s ento  rejeitada; e faz sua desforra no lapso de lngua. No segundo grupo a rejeio vai alm: a inteno j deixou de ser perceptvel 
antes de a pessoa express-la no lapso. De modo muito estranho, isso absolutamente no impede que ela tenha sua parte na causa do lapso. Essa conduta, porm, nos 
facilita a explicao do que acontece no terceiro grupo. Eu me aventuraria a supor que uma inteno tambm possa conseguir expressar-se em uma parapraxia quando 
foi repelida e no foi percebida durante um tempo considervel, talvez por um tempo muito longo: e pode, por essa razo, ser negada francamente pelo orador. Conquanto 
os senhores ponham de lado o problema do terceiro grupo, no podem deixar de concluir, a partir das observaes que fizemos nos outros casos, que a supresso da 
inteno de algum que fala, de dizer algo,  a condio indispensvel para que ocorra um lapso de lngua.
         Agora podemos pretender havermos feito maiores progressos em nossa compreenso das parapraxias. Sabemos no apenas que elas so atos mentais nos quais podemos 
detectar sentido e inteno, sabemos no apenas que acontecem por mtua interferncia entre duas intenes diferentes; porm, alm disso, sabemos que uma dessas 
intenes deve ter sido, de alguma forma, coagida a no ser posta em execuo antes de poder manifestar-se como uma perturbao da outra inteno. Deve ter sido 
perturbada, antes de poder ser um elemento perturbador. Isso no significa, naturalmente, que j tenhamos conseguido uma completa explicao dos fenmenos que denominamos 
parapraxias. Vemos aflorarem imediatamente novas interrogaes, e geralmente suspeitamos que, quanto mais se estende nossa compreenso, mais ocasies haver para 
surgirem novas questes. Podemos perguntar, por exemplo, da razo por que as coisas no poderiam ser mais simples. Se o propsito  repelir determinada inteno, 
em vez de coloc-la em execuo, o ato de repelir deveria ser bem-sucedido, de modo que a inteno absolutamente no se manifestasse; ou, por outro lado, a repulsa 
poderia falhar, de forma que a inteno que devia ter sido repelida se manifestaria completamente. As parapraxias, porm, so o resultado de um acordo: constituem 
um meio-xito e um meio-fracasso para cada uma das duas intenes; a inteno que est sendo desafiada no  completamente suprimida, salvo em casos especiais, nem 
 levada a cabo em sua ntegra. Podemos concluir que determinadas condies especiais devem prevalecer para que uma interferncia ou ajuste desse tipo aconteam; 
no entanto, no podemos formar nenhuma idia sobre que condies so essas. E no penso que poderamos descobrir esses fatores desconhecidos penetrando mais a fundo 
no estudo das parapraxias. Ser necessrio, isto sim, examinar primeiramente outras regies obscuras da vida mental: somente a partir das analogias que a obtivermos, 
encontraremos a coragem de estabelecer as hipteses necessrias para lanar uma luz mais penetrante sobre as parapraxias. E acrescento mais uma coisa. Trabalhar 
com base em pequenos indcios, como constantemente temos o hbito de fazer nessa rea, tem seus prprios perigos. Existe uma doena mental, a 'parania combinatria', 
na qual a explorao de pequenos indcios como esses  levada a graus ilimitados; e, naturalmente, no pretendo afirmar que as concluses construdas sobre tais 
fundamentos sejam invariavelmente corretas. Podemos to-somente nos precaver desses riscos pela ampla base de nossas observaes, pela repetio de impresses semelhantes 
originrias das mais variadas esferas da vida mental.
         Nesse ponto, portanto, vamos abandonar a anlise das parapraxias. Existe, contudo, mais um ponto para o qual chamaria a ateno dos senhores. Eu lhes pediria 
que fixassem na memria, como um modelo, a maneira como temos tratado esses fenmenos. Os senhores podem aprender desse exemplo quais os objetivos de nossa psicologia. 
Buscamos no apenas descrever e classificar fenmenos, mas entend-los como sinais de uma ao recproca de foras na mente, como manifestao de intenes com finalidade, 
trabalhando concorrentemente ou em oposio recproca. Interessa-nos uma viso dinmica dos fenmenos mentais. Em nossa opinio, os fenmenos que so percebidos 
devem ceder lugar, em importncia, a tendncias que so apenas hipotticas.
         Por conseguinte, no nos aprofundaremos mais nas parapraxias; contudo, ainda podemos realizar um rpido reconhecimento da extenso dessa rea, no decorrer 
do qual mais uma vez encontramos coisas que j conhecemos, mas que tambm revelaro algumas novidades. Nesse reconhecimento, manterei a diviso em trs grupos que 
propus inicialmente: lapsos de lngua reunidos, com suas formas cognatas (lapsos de escrita, lapsos de leitura e lapsos de audio); esquecimento, subdividido segundo 
os objetos de esquecimento (nomes prprios, palavras estrangeiras, intenes e impresses); e atos descuidados, extravio e perda. Os erros, no aspecto que nos interessa, 
situam-se, em parte, entre os esquecimentos e, em parte, nos atos descuidados.
         J abordamos bastante detalhadamente os lapsos de lngua, contudo existem mais alguns pontos a acrescentar. Os lapsos de lngua so acompanhados por determinados 
fenmenos emocionais menores, no de todo destitudos de interesse. Ningum aprecia cometer lapsos de lngua e assiduamente deixamos de ouvir nossos prprios lapsos, 
embora jamais deixemos de ouvir os de outras pessoas. Os lapsos de lngua tambm so, em certo sentido, contagiosos; absolutamente no  fcil falar sobre lapsos 
de lngua sem cometer alguns lapsos de lngua prprios. As formas mais triviais desses lapsos, precisamente aquelas no consignadas a projetar uma luz especial sobre 
os processos mentais ocultos, possuem razes que, no obstante, no so difceis de discernir. Por exemplo, se algum pronunciou com emisso breve uma vogal longa, 
em virtude de um distrbio que afeta a palavra por uma ou outra razo, logo aps pronunciar como longa uma vogal subseqente breve, cometendo assim um novo lapso 
de lngua para compensar o anterior. Da mesma forma, se a pessoa pronuncia um ditongo incorreta e descuidadamente (por exemplo, pronunciar um 'eu' ou 'i como 'ei'), 
procurar compensar isso trocando um 'ei' subseqente por um 'eu' ou 'oi'. Aqui, o fator decisivo parece ser uma considerao para com a impresso causada nos ouvintes; 
estes no deveriam supor que, para o orador,  indiferente a maneira como trata sua lngua-me. A segunda distoro, a que compensa a primeira, realmente tem o propsito 
de dirigir a ateno do ouvinte para a primeira e de lhe assegurar que o orador tambm a percebeu. Os lapsos de lngua mais comuns, simples e triviais so contraes 
e antecipaes [ver em [1] e [2]] ocorrentes em partes insignificantes do falar. Por exemplo, em uma frase um tanto longa pode-se cometer um lapso de lngua que 
antecipa a ltima palavra do que se pretende dizer. Isso causa uma impresso de impacincia por ver terminada a frase, e em geral constitui evidncia de uma certa 
antipatia contra o ato de comunicar a frase, ou contra o todo do comentrio que se est fazendo. Chegamos, assim, a casos marginais em que as diferenas entre a 
opinio psicanaltica a respeito de lapsos de lngua e a opinio fisiolgica comum se fundem uma na outra.  de supor que, nestes casos, esteja presente um propsito 
de perturbar a inteno do discurso, porm tal propsito apenas consegue fazer notar sua presena e no aquilo a que ele prprio visa. A perturbao que ele produz 
se faz ento segundo certas influncias fonticas ou atraes associativas; pode ser considerada resultado de a ateno ter sido desviada da inteno do discurso. 
Contudo, nem essa perturbao da ateno nem as tendncias  associao que se tornaram atuantes, atingem a essncia do processo. Este, apesar de tudo, se mantm 
como a indicao da existncia de uma inteno que  perturbadora da inteno do discurso, embora a natureza dessa inteno perturbadora no possa ser avaliada a 
partir de suas conseqncias, conforme  possvel faz-lo em todos os casos de lapsos de lngua mais bem definidos.
         Os lapsos de escrita, aos quais passaremos agora, so to afins dos lapsos de lngua, que nada de novo podemos esperar deles. Talvez possamos acrescentar 
algum pequeno ponto adicional. Os pequenos lapsos de escrita, extremamente comuns, contraes e antecipaes de palavras que deveriam vir depois (especialmente de 
palavras do fim de frases) indicam, mais uma vez, um desprazer geral de escrever e impacincia por ver o trabalho terminado. Determinados produtos mais marcantes 
de lapsos de escrita possibilitam reconhecer a natureza e o objetivo da inteno perturbadora. Ao encontrar um lapso de escrita em uma carta, sabe-se geralmente 
que havia algo de diferente com seu autor, porm no se pode sempre descobrir o que se passava com ele. Um lapso de escrita passa despercebido da pessoa responsvel, 
com a mesma freqncia com que sucede com os lapsos de lngua. A seguinte observao  digna de nota. Como sabemos, h pessoas que tem o hbito de reler todas as 
cartas que escrevem, antes de envi-las. Outras, no, via de regra; porm, quando excepcionalmente o fazem, sempre encontram alguns lapsos de escrita que chamam 
a ateno e que elas podem corrigir, ento. Como se explica isso?  como se essas pessoas soubessem que haviam cometido um erro ao escrever a carta. Podemos realmente 
acreditar nesse fato?
         Um problema interessante diz respeito  importncia prtica dos lapsos de escrita. Os senhores certamente podem recordar o caso de um assassino, H., que 
encontrou os meios de obter de instituies cientficas culturas de bactrias patognicas altamente perigosas, apresentando-se como bacteriologista. Usou, ento, 
essas culturas com a finalidade de se desfazer de suas ligaes prximas atravs desse mtodo modernssimo. Ora, certa ocasio esse homem se queixou aos diretores 
de um desses institutos que as culturas a ele enviadas eram ineficazes; porm cometeu um lapso de escrita e, em vez de escrever 'em meus experimentos com camundongos 
ou porquinhos-da-ndia', escreveu muito claramente'em meus experimentos com homens'. Os cientistas do instituto ficaram chocados com o lapso, contudo, pelo que sei, 
da no tiraram qualquer concluso. Pois bem, o que pensam os senhores? No deveriam os cientistas, pelo contrrio, ter tomado o lapso de escrita como uma confisso 
e iniciado uma investigao que teria posto um fim imediato s atividades do assassino? Por ignorarem nossas opinies sobre parapraxias, no foram responsveis, 
nesse caso, por uma omisso de importncia prtica? Ora, penso que um lapso de escrita como esse deveras me pareceria muito suspeito; porm algo de grande importncia 
se ope a que seja qualificado como confisso. O assunto no  to simples assim. O lapso certamente era uma prova circunstancial; mas no era suficiente, por si 
mesmo, para dar incio a uma investigao.  verdade que o lapso de escrita disse que ele estava ocupado com idias de infectar pessoas, entretanto no tornou possvel 
decidir se essas idias deveriam ser tomadas como clara inteno de causar dano ou como uma fantasia sem importncia prtica.  mesmo possvel que um homem que tivesse 
cometido um lapso como esse, teria todas as justificativas objetivas para negar a fantasia, e a repudiaria como algo inteiramente estranho para ele. Os senhores 
compreendero ainda melhor essas possibilidades quando, mais adiante, viermos a considerar a diferena entre realidade psquica e material. Assim, esse  mais um 
exemplo de parapraxia que adquire importncia a partir de eventos subseqentes [ver em [1] e seg., acima.]
         Com os lapsos de leitura chegamos a uma situao psquica que difere sensivelmente daquela encontrada em lapsos de lngua ou em lapsos de escrita. Aqui, 
uma das duas intenes em mtua competio  substituda por uma estimulao sensorial e, talvez por isso, resiste menos. O que a pessoa vai ler no  um derivado 
de sua prpria vida mental, como algo que se prope escrever. Em grande nmero de casos, portanto, um lapso de leitura consiste em uma substituio completa. Substitui-se 
por outra a palavra que deve ser lida, sem haver necessariamente qualquer conexo de contedo entre o texto e o produto do lapso de leitura, o qual depende, via 
de regra, de semelhana verbal. O melhor exemplo desse grupo  o de Lichtenberg, 'Agamemnon' por 'angenommen' [ver em [1], acima]. Se quisermos descobrir a inteno 
perturbadora que produziu o lapso de leitura, devemos deixar inteiramente de lado o texto que foi lido erroneamente, e podemos comear a investigao analtica com 
duas perguntas: qual  a primeira associao ao produto do lapso de leitura? e em que situao ocorreu o lapso de leitura? s vezes o conhecimento dessa situao 
, por si s, suficiente para explicar o lapso de leitura. Por exemplo, um homem, sob a presso de uma necessidade urgente, vagava por uma cidade estranha quando 
viu a palavra 'Closet-House' numa grande tabuleta, no primeiro andar de um prdio. Mal teve tempo suficiente para se surpreender com o fato de a tabuleta estar colocada 
to alta, quando descobriu que, estritamente falando, o que devia ter lido era 'Corset-House'. Em outros casos, um lapso de leitura, precisamente do tipo que  muito 
independente do contedo do texto, requer uma anlise detalhada, impossvel de se efetuar sem a prtica da tcnica de psicanlise e sem seu apoio. Como regra, entretanto, 
no  to rduo encontrar a explicao para um lapso de leitura: a palavra substituda imediatamente revela, como no exemplo Agamemnon, o crculo de idias do qual 
surgiu a perturbao. Na atual poca de guerra, por exemplo,  coisa muito comum os nomes de cidades e de generais, e de termos militares, que esto constantemente 
zumbindo  nossa volta, serem lidos onde quer que nossos olhos encontrem palavras semelhantes. Tudo aquilo que nos interessa e nos preocupa se pe no lugar do que 
 estranho e ainda destitudo de interesse. Imagens residuais de pensamentos [anteriores] perturbam novas percepes.
         Com os lapsos de leitura, tambm, no faltam os casos de outra espcie, nos quais o texto daquilo que se l desperta por si mesmo a inteno perturbadora, 
a qual de imediato o transforma em seu contrrio. O que devamos ler era alguma coisa de indesejado, e a anlise nos convencer de que um intenso desejo de rejeitar 
o que estvamos lendo deve ter sido responsvel por sua alterao.
         Nos casos mais freqentes de lapsos de leitura, que mencionamos no incio, inexistiam os dois fatores aos quais consignamos um importante papel no mecanismo 
das parapraxias: o conflito entre dois propsitos, e a repulsa a um deles, que faz sua represlia produzindo a parapraxia. No que algo em contrrio ocorra no lapso 
de leitura. A proeminncia da idia que leva ao lapso de leitura , contudo, muito mais perceptvel do que a repulsa que essa idia pode ter percebido previamente.
         So esses dois fatores os que encontramos com mais evidncia nas diferentes situaes em que ocorrem parapraxias de esquecimento. O esquecimento de intenes 
 bem livre de ambigidades, como j vimos [ver em [1]], sua interpretao no  objeto de controvrsias, nem mesmo por parte de leigos. O propsito que perturba 
a inteno , em todos os casos, uma contra-inteno, uma relutncia; e tudo o que nos resta saber a seu respeito  por que ele no se expressou em alguma forma 
diversa e menos disfarada. No entanto, a presena dessa contravontade  inquestionvel. Vez e outra tambm conseguimos entrever algo dos motivos que compelem essa 
contravontade a ocultar-se; agindo subrepticiamente por intermdio da parapraxia, ela sempre atinge seu objetivo, ao passo que seria seguramente repudiada se emergisse 
como franca oposio. Se alguma importante modificao na situao psquica se realiza entre a formao da inteno e sua execuo, em conseqncia do que no mais 
existe a cogitao de executar a inteno, ento o esquecimento da inteno se exclui da categoria das parapraxias. J no parece mais estranho hav-la esquecido 
e nos apercebemos de que teria sido desnecessrio lembrarmo-nos dessa inteno; depois disso ela se extingue em forma permanente ou temporria. O esquecimento de 
uma inteno somente pode ser denominado parapraxia quando no pudermos acreditar que a inteno tenha sido interrompida desse ltimo modo.
         Os casos de esquecimento de uma inteno geralmente so to uniformes e to evidentes que, por essa mesma razo no interessam  nossa investigao. Assim 
mesmo, existem dois pontos em que algo de novo podemos aprender a partir de um estudo dessas parapraxias O esquecimento de uma inteno - isto  a omisso de execut-la 
- revela, como dissemos, uma contravontade que lhe  hostil. Sem dvida, esse fato procede; nossas investigaes, porm, mostram que a contravontade pode ser de 
dois tipos: direto e indireto. O que dou a entender com este ltimo  ilustrado mais adequadamente com um ou dois exemplos. Se um benfeitor se esquece de interceder 
junto a uma terceira pessoa em benefcio de seu protg, isso pode acontecer porque no est realmente muito interessado no protg e, portanto, no tem grande desejo 
de falar em benefcio deste. De qualquer forma,  esse o modo como o protg entender o esquecimento de seu protetor [ver em [1]]. Contudo, as coisas podem ser 
mais complexas. No protetor a contravontade, opondo-se  execuo da inteno, pode ter outra origem e pode ser voltada em direo a um ponto bem diferente. Pode 
no ter nada a ver com o protg, mas, talvez, pode ser dirigida contra a terceira pessoa junto a quem a recomendao devia ter sido feita. Assim, a partir disso 
os senhores mais uma vez verificam [ver em [1]] as dvidas que se erguem como obstculo a uma aplicao prtica de nossas interpretaes. Apesar da interpretao 
correta do esquecimento, o protg corre o risco de ser demasiado desconfiado e de fazer grave injustia ao seu protetor. Ou, suponhamos que algum se esquea de 
um compromisso que prometeu manter com alguma outra pessoa; a razo mais freqente para isso ser, sem dvida, uma franca rejeio ao encontro com essa pessoa. Contudo, 
em um caso assim a anlise poderia demonstrar que a inteno perturbadora no se referiu a essa pessoa, mas estava dirigida contra o lugar planejado para o encontro, 
e foi evitado por conta de uma lembrana desagradvel referente ao lugar. Ou, ainda, se algum se esquece de pr uma carta no correio, o contrapropsito pode basear-se 
no contedo da carta; de modo algum, porm, se exclui a hiptese de a carta poder ser inocente em si mesma e poder apenas estar sujeita ao contrapropsito, de vez 
que algo referente a ela faz lembrar uma outra carta, escrita em alguma ocasio anterior, que ofereceu  contravontade um ponto direto de ataque. Pode-se dizer, 
portanto, que aqui a contravontade foi transferida da carta anterior que a justificou,  carta atual, em relao  qual no havia motivos de preocupao. Os senhores 
verificam, ento, que devemos ser moderados e previdentes ao aplicar nossas interpretaes, e isso se justifica: as coisas que so psicologicamente equivalentes 
podem, na prtica, ter grande variedade de significados.
         Fenmenos como esses ltimos podem parecer muito inusitados para os senhores, e, talvez, se inclinaro a supor que uma contravontade indireta j indica 
tratar-se de um processo patolgico. Posso assegurar-lhes, contudo, que ela ocorre tambm dentro dos limites do que  normal e sadio. Ademais, no devem me interpretar 
mal. Estou longe de admitir que nossas interpretaes analticas sejam indignas de confiana. As ambigidades no esquecimento de intenes, que venho mencionando, 
existem apenas enquanto no tenhamos feito uma anlise do caso e apenas quando fazemos nossas interpretaes com base em nossas hipteses gerais. Se efetuarmos uma 
anlise na pessoa em questo, invariavelmente descobrimos com suficiente certeza se a contravontade  direta ou que outra origem possa ter.
         O segundo ponto que tenho em mente [ver em [1]]  o seguinte: Se em uma grande maioria de casos encontramos confirmao do fato de que o esquecimento de 
uma inteno remonta a uma contravontade, podemos ousar estender a soluo a um outro grupo de casos nos quais a pessoa em anlise no confirma, e sim nega, a contravontade 
que inferimos. Tomem como exemplo disso eventos to extremamente comuns como esquecer de devolver livros que se tomaram emprestados, ou de pagar contas ou dvidas. 
Com a pessoa em questo nos aventuraremos a insistir em que nela existe uma inteno de conservar consigo os livros e de no pagar as dvidas; a pessoa negar essa 
situao, porm no ser capaz de fornecer qualquer outra explicao para sua conduta. Com isso, prosseguiremos dizendo-lhe que tem essa inteno, mas sem nada saber 
da mesma, embora para ns isso seja suficiente, porquanto nos revela a presena da inteno que origina nela o esquecimento. A pessoa pode repetir-nos que deveras 
se esqueceu. Agora reconhecero a situao como uma tal em que ns mesmos anteriormente nos encontramos [ver em [1] e [2]]. Se quisermos prosseguir com nossas interpretaes 
das parapraxias - to freqentemente comprovadas como acertadas - at uma concluso coerente, somos compelidos  inevitvel hiptese de que nas pessoas existem propsitos 
capazes de se tornar atuantes sem que elas saibam da existncia deles. Isto, contudo, nos leva a contrariarmos todas as opinies dominantes tanto na vida comum como 
na psicologia.
         O esquecimento de nomes prprios e de nomes estrangeiros, tanto como o de palavras estrangeiras, pode semelhantemente ser rastreado at uma contra-inteno, 
que se volta, direta ou indiretamente, contra o nome em questo. J lhes apresentei diversos exemplos de averso direta [ver em [1] e [2]]. A causao indireta , 
contudo, particularmente freqente nesses casos e em geral apenas pode ser estabelecida por meio de anlises cuidadosas. Por exemplo, durante a guerra atual, que 
nos obrigou a abandonar tantos dos nossos divertimentos anteriores, nossa capacidade de recordar nomes sofreu muito em conseqncia das mais estranhas associaes. 
H pouco tempo atrs verifiquei que eu era incapaz de reproduzir o nome de Bisenz, pacata cidade da Morvia; e a anlise demonstrou que aquilo que era responsvel 
pelo fato no era nenhuma hostilidade direta contra ela, seno sua similitude, no som, com o nome do Palazzo Bisenzi, em Orvieto, que tive o prazer de visitar repetidas 
vezes no passado. Aqui, pela primeira vez, descobrimos nessa razo de se opor  recordao de um nome, um princpio que depois ir revelar sua enorme importncia 
na causao dos sintomas neurticos: a memria tem averso por recordar tudo que est em conexo com sentimentos de desprazer e com a reproduo daquilo que renova 
o desprazer. Essa inteno de evitar o desprazer, emergente da lembrana ou de outros atos psquicos, essa fuga psquica do desprazer, pode ser reconhecida como 
a causa atuante fundamental no apenas do esquecimento de nomes, mas tambm de muitas outras parapraxias, como as omisses, os erros, e assim por diante.O esquecimento 
de nomes, entretanto, parece ser sobremodo facilitado psicofisiologicamente e, por esse motivo, h casos em que no se pode confirmar a interferncia de um motivo 
de desprazer. Se algum tem determinada tendncia para esquecer nomes, a investigao analtica mostrar que os nomes lhe fogem no apenas porque em si no os aprecia 
ou porque lhe lembram algo desagradvel; porm, tambm porque nesse caso o nome pertence a outro crculo de associaes com as quais a pessoa est mais intimamente 
relacionada. O nome est, digamos, ali ancorado e se mantm fora de contato com outras associaes que foram momentaneamente ativadas. Se os senhores se recordarem 
dos truques mnemotcnicos verificaro, com certa surpresa, que as mesmas cadeias associativas, deliberadamente estabelecidas para evitar que nomes sejam esquecidos, 
tambm podem nos levar a esquec-los. O mais notvel exemplo desse fato  o que se refere aos nomes prprios de pessoas, os quais naturalmente possuem importncia 
psquica bastante diferente para diferentes pessoas. Para ilustr-lo, tomemos um primeiro nome, como Teodoro. Para alguns dos senhores ele no ter qualquer significao 
especial; para outro, ser o nome de seu pai, do irmo ou de um amigo, ou seu prprio nome. Assim, a experincia analtica lhes mostrar que a primeira dessas pessoas 
no corre nenhum risco de se esquecer de que algum estranho usa esse nome, ao passo que as outras tero constantemente a tendncia de negar a estranhos um nome que 
lhes parece reservado a ligaes ntimas. Ora, se os senhores considerarem que essa inibio associativa pode coincidir com a atuao do princpio de desprazer e, 
ademais, com um mecanismo indireto, estaro em condies de formar uma idia adequada das complexidades existentes na causao do esquecimento temporrio de um nome. 
Uma anlise apropriada ir, porm, desemaranhar-lhes uma dessas meadas.
         O esquecimento de impresses e de experincias demonstra, de forma muito mais clara e exclusiva do que o esquecimento de nomes, a atuao da inteno de 
manter coisas desagradveis fora da memria. Naturalmente nem toda a rea desse tipo de esquecimento se situa dentro da categoria das parapraxias, mas apenas casos 
tais como aqueles que, medidos pelo padro de nossa experincia habitual, nos parecem admirveis e inexplicveis: por exemplo, quando o esquecimento atinge impresses 
que so muito recentes ou importantes, ou quando a lembrana perdida abre uma brecha naquilo que , por seu lado, uma bem-memorizada cadeia de acontecimentos. Por 
que e de que modo somos capazes de esquecer em geral, e entre outras coisas esquecer experincias que certamente deixaram em ns uma impresso mais profunda, tal 
como os acontecimentos dos anos mais remotos de nossa infncia - isso constitui outro problema no qual querer evitar impulsos desagradveis desempenha determinado 
papel, e, contudo, est longe de constituir a explicao completa.  fato inequvoco que as impresses desagradveis so facilmente esquecidas. Diversos psiclogos 
o observaram, e o grande Darwin se impressionava tanto com isso, que tornou 'regra de ouro' anotar com cuidado especial quaisquer observaes que parecessem desfavorveis 
 sua teoria, de vez que se havia convencido de que precisamente elas no permaneceriam em sua memria.
         Uma pessoa que pela primeira vez ouve falar nesse princpio do afastamento de lembranas desagradveis por meio do esquecimento, raramente deixa de objetar 
que, pelo contrrio, em sua experincia as coisas aflitivas so especialmente difceis de esquecer e insistem em retornar, contra sua vontade, a fim de atorment-la: 
lembranas, por exemplo, de insultos e humilhaes. Isso tambm  um fato verdico, contudo a objeo no procede.  importante e oportuno comear a levar em conta 
o fato de que a vida mental  a arena e o campo de batalha de intenes que se opem reciprocamente ou, para diz-lo de modo no-dinmico, que se constitui de contradies 
e de pares de contrrios. A prova da existncia de determinado propsito no  argumento contra a existncia de um propsito oposto; h lugar para ambos.  apenas 
uma questo de saber como se colocam esses contrrios, um em relao ao outro, e que efeitos so produzidos por um e por outro.
         Perda e extravio so de particular interesse para ns devido aos vrios significados que podem ter - isto , devido  multiplicidade das intenes que podem 
se servir dessas parapraxias. Todos os casos tm em comum o fato de ter existido um desejo de perder algo; diferem quanto  origem e quanto ao objetivo desse desejo. 
Perdemos uma coisa quando est gasta, quando pretendemos substitu-la por outra melhor, quando no gostamos mais dela, quando ela procedeu de algum com quem no 
estamos nos relacionando bem, ou quando a adquirimos em circunstncias que no desejamos mais rememorar. [ver em [1] e [2].] Deixar cair, danificar ou quebrar um 
objeto podem servir  mesma finalidade. Na esfera da vida social, segundo se diz, a experincia demonstrou que as crianas indesejadas e ilegtimas so muito mais 
frgeis do que aquelas concebidas legitimamente. No  necessrio atingir a crua tcnica das criadeiras profissionais de crianas; para chegar a tal resultado, determinada 
dose de negligncia no trato com as crianas deve ser suficiente. A preservao de coisas pode estar sujeita s mesmas influncias que o cuidado com as crianas.
         No entanto, as coisas podem ser condenadas a serem perdidas sem que seu valor tenha sofrido qualquer diminuio - isto , quando h uma inteno de sacrificar 
algo ao Destino, a fim de se proteger de uma outra perda que se teme. A anlise nos revela que entre ns ainda  muito comum exorcizar o Destino dessa maneira; e, 
assim, nossa perda muitas vezes  um sacrifcio voluntrio. Da mesma forma, a perda tambm pode servir  inteno de desafio ou autopunio. Para resumir, so incontveis 
as mais remotas razes para a inteno de se desfazer de uma coisa por meio de sua perda.
         Os atos descuidados, assim como outros erros, muitas vezes so usados para satisfazer desejos que uma pessoa deveria negar existirem em si prpria. Neles 
a inteno se dissimula em um auspicioso acidente. Por exemplo, como aconteceu a um de meus amigos, um homem pode ser obrigado, obviamente contra sua vontade, a 
viajar de trem para visitar algum perto da cidade em que vive, e em uma estao onde deve fazer baldeao ento pode, por engano, embarcar num trem que o leva de 
volta ao local de onde veio. Ou algum, numa viagem, pode estar desejoso de fazer uma parada em uma estao intermediria, porm estar impedido de faz-lo devido 
a outras obrigaes, podendo, assim, negligenciar ou perder uma conexo de modo que, em ltima anlise,  obrigado a interromper sua viagem da maneira como queria. 
Ou o que sucedeu a um de meus pacientes: eu lhe havia proibido telefonar  moa de quem estava apaixonado, e quando quis telefonar para mim, pediu o nmero errado 
'por engano' ou 'enquanto estava pensando em alguma outra coisa', e de repente se viu com o nmero do telefone da moa. Um bom exemplo de descuido cabal com repercusso 
prtica  proporcionado pela observao feita por um engenheiro em seu relato dos fatos que antecederam um caso de danos materiais:
         'H algum tempo atrs eu trabalhava com diversos estudantes no laboratrio da escola tcnica, numa srie de complexas experincias sobre elasticidade, um 
trabalho que tnhamos assumido voluntariamente e, contudo, comeava a exigir mais tempo de que prevramos. Um dia, quando retornava ao laboratrio com meu amigo 
F., este comentou como o aborrecia perder tanto tempo justamente naquele dia, quando tinha tantas outras coisas para fazer em casa. No pude deixar de concordar 
com ele e, com algum gracejo, referindo-me a um acidente na semana anterior, acrescentei: "Esperemos que a mquina falhe novamente, pois assim poderemos parar com 
o trabalho e ir para casa cedo."
         'Ao distribuir o trabalho, sucedeu que a F. coube a regulagem da vlvula da prensa; isto , estava incumbido de abrir cuidadosamente a vlvula para deixar 
o fluido sob presso sair lentamente do acumulador para o cilindro da prensa hidrulica. O homem que conduzia a experincia colocou-se junto ao manmetro e, quando 
se atingiu a presso correta, ordenou em voz alta: "Pare!"  palavra de comando, F. agarrou a vlvula e torceu-a com toda a fora - para a esquerda! (Todas as vlvulas, 
sem exceo, fecham-se girando para a direita.) Isso fez com que a presso total do acumulador passasse subitamente para a prensa, um esforo para o qual no estavam 
destinados os canos de ligao, de forma que um desses canos imediatamente explodiu - um acidente bastante incuo para a mquina, porm suficiente para nos obrigar 
a suspender o trabalho por esse dia e irmos para casa.
         'O surpreendente, alis,  que, quando estvamos discutindo o caso algum tempo depois, meu amigo F. no tinha a mnima recordao de meu comentrio, que 
eu recordava fielmente.'
         Isso pode levar os senhores a suspeitar de que no  apenas um inocente acaso que transforma as mos de nossas empregadas domsticas em perigosos inimigos 
de nossos objetos de casa. E os senhores tambm podem se perguntar se  obra do acaso quando as pessoas se machucam e arriscam sua prpria segurana. Essas so noes 
cuja validade os senhores, surgindo a ocasio, podem se dedicar a comprovar analisando suas prprias observaes.
         Senhoras e senhores, isso est longe de ser tudo quanto se poderia dizer a respeito de parapraxias. Muita coisa resta a examinar e discutir. Fico, contudo, 
satisfeito se nossa discusso do assunto, at aqui, de certa forma agitou suas opinies anteriores e os deixou um tanto mais preparados para aceitar outras, novas. 
Contento-me, de resto, com deix-los defrontando-se com uma situao no esclarecida. No podemos estabelecer nossas doutrinas a partir de um estudo das parapraxias, 
e no estamos obrigados a extrair nossas provas a partir apenas desse material. O grande valor das parapraxias para os objetivos que almejamos, consiste no fato 
de serem fenmenos muito comuns que, alm de tudo, podem ser observados com facilidade em cada um, e ocorrer sem absolutamente implicar em doena. Existe apenas 
uma das questes dos senhores, no respondida, a qual eu, antes de terminar, gostaria de verbalizar. Conforme verificamos em muitos exemplos, se as pessoas chegam 
to prximo de uma compreenso das parapraxias e to amide se comportam como se apreendessem seu sentido, de que modo lhes  possvel, no obstante, classificar 
esses fenmenos como sendo em geral eventos casuais, sem sentido nem significado, e poder opor-se to vigorosamente  elucidao psicanaltica dessas mesmas parapraxias?
         Os senhores tm razo. Esse  um fato notvel e exige uma explicao. No entanto, no lhes darei tal explicao. Em vez disso, eu os levarei gradualmente 
a reas de conhecimento a partir das quais a explicao ir se impor aos senhores, sem qualquer contribuio de minha parte. 
         
         
         
         
















PARTE II - SONHOS(1916 [1915-16])
         
         
         CONFERNCIA V - DIFICULDADES E ABORDAGENS INICIAIS
         
         SENHORAS E SENHORES:
         Um dia descobriu-se que os sintomas patolgicos de determinados pacientes neurticos tm um sentido. Nessa descoberta fundamentou-se o mtodo psicanaltico 
de tratamento. Acontecia que no decurso desse tratamento os pacientes, em vez de apresentar seus sintomas, apresentavam sonhos. Com isso, surgiu a suspeita de que 
tambm os sonhos teriam um sentido.
         No seguiremos, contudo, esse caminho histrico, e sim prosseguiremos na direo oposta. Demonstraremos o sentido dos sonhos como forma de preparao para 
o estudo das neuroses. Essa inverso se justifica, de vez que o estudo dos sonhos no apenas  a melhor preparao para o estudo nas neuroses, como tambm porque 
os sonhos, por si mesmos, so um sintoma neurtico que nos oferece, ademais, a inestimvel vantagem de ocorrer em todas as pessoas sadias. Na verdade, supondo-se 
que todos os seres humanos fossem normais contanto que sonhassem, ns, partindo de seus sonhos, poderamos chegar a quase todas as descobertas a que nos levou a 
investigao das neuroses.
         Os sonhos, portanto, se tornaram tema de pesquisa psicanaltica: mais uma vez fenmenos comuns aos quais se tem atribudo pouco valor, e aparentemente sem 
nenhum uso prtico - como as parapraxias, com as quais na realidade tm em comum o fato de ocorrerem em pessoas sadias. Afora isso, porm, as condies para nosso 
trabalho so aqui bem menos favorveis. As parapraxias simplesmente tinham sido negligenciadas pela cincia, pouca ateno lhes havia sido dada; contudo, pelo menos 
no havia nenhum prejuzo em algum se interessar por elas. 'Sem dvida', dir-se-ia, 'h coisas mais importantes. Alguma coisa no entanto talvez possa resultar da.' 
Ademais, algum se interessar por sonhos no  apenas pouco prtico e desnecessrio;  positivamente ignominioso. Traz consigo a reprovao geral de no ser cientfico 
e desperta a suspeita de uma inclinao pessoal pelo misticismo. Imaginem um profissional da medicina dedicando-se a sonhos, quando h tantas coisas mais srias, 
mesmo na neuropatologia e na psiquiatria: tumores da dimenso de mas comprimindo o rgo da mente, hemorragias, inflamao crnica, onde, em todos, as alteraes 
dos tecidos podem ser demonstrados ao microscpio! No, os sonhos so excessivamente triviais e indignos de ser objeto de pesquisa.
         E existe algo mais que, por sua prpria natureza, frustra os requisitos da pesquisa exata. Ao investigar os sonhos, nem mesmo se est seguro do objeto da 
pesquisa que se faz. Um delrio, por exemplo, apresenta-se de forma inequvoca e com seus contornos definidos. 'Eu sou o imperador da China', diz o paciente, sem 
qualquer dissimulao. Mas, sonhos? Via de regra, no se pode fazer nenhum relato de sonhos. Se algum faz um relato de um sonho, existe alguma garantia de que seu 
relato foi correto, ou, pelo contrrio, no poderia ter alterado seu relato  medida que o fazia e ter sido compelido a inventar algum acrscimo para compensar a 
obscuridade de suas recordaes? A maioria dos sonhos no pode absolutamente ser lembrada e  esquecida, salvo pequenos fragmentos. E de que modo a interpretao 
de material desse tipo pode servir como base de uma psicologia cientfica ou como mtodo de tratar pacientes?
         Um excesso de crticas pode despertar nossas suspeitas. Essas objees aos sonhos como objeto de pesquisa obviamente foram longe demais. J tratamos da 
questo da no-importncia em relao s parapraxias [ver [1] e seg.]. Dissemos que as grandes coisas podem ser reveladas atravs de pequenos indcios. No que concerne 
 sua indefinio - esta  uma caracterstica dos sonhos, como outra qualquer: no podemos estabelecer para as coisas quais as caractersticas que devem ter. Alis, 
tambm existem sonhos claros e distintos. Ademais, h outros assuntos de pesquisa psiquitrica que padecem da mesma caracterstica de indefinio - em muitos casos, 
por exemplo, as obsesses, e estas tm, em ltima anlise, sido abordadas por psiquiatras respeitveis e conceituados. Recordo-me do ltimo desses casos que encontrei 
em minha atividade mdica. Era uma paciente que se apresentou com estas palavras: 'Tenho uma espcie de sentimento como se eu tivesse ferido ou desejasse ferir uma 
criatura viva - uma criana? - no, mais como se fosse um cachorro -, como se a tivesse jogado de uma ponte, ou alguma outra coisa.' Podemos conseguir superar a 
deficincia da incerteza ao relembrar sonhos, se decidimos que deve ser considerado como sonho seu tudo aquilo que nos relata a pessoa que sonhou, sem levar em conta 
o que possa ter esquecido ou tenha alterado ao record-lo. E, finalmente, nem mesmo se pode continuar afirmando to indiscriminadamente que os sonhos so coisas 
sem importncia. Sabemos, por nossa prpria experincia, que o estado de nimo em que uma pessoa acorda de um sonho pode perdurar o dia inteiro; os mdicos tm observado 
casos nos quais uma doena mental comeou com um sonho e nos quais persistiu um delrio originrio de um sonho; tm sido relatados casos de personagens histricos 
que, em resposta a sonhos, se aventuraram a importantes empreendimentos. Podemos, pois, indagar qual deve ser a verdadeira origem do desprezo no qual so mantidos 
os sonhos nos crculos cientficos.
         Acredito que se trata de uma reao contra a supervalorizao dos sonhos em pocas antigas. A reconstruo do passado, como sabemos,  tarefa nada fcil, 
contudo podemos supor com certeza (se  que posso express-lo como brincadeira) que h trs mil anos ou mais nossos ancestrais j tinham sonhos como os nossos. At 
onde sabemos, todos os povos da Antigidade atriburam grande importncia aos sonhos e pensavam que estes podiam ser usados para fins prticos. Deduziram a partir 
deles sinais para ler o futuro e neles procuravam os augrios. Para os gregos e para outros povos orientais pode ter havido poca em que as campanhas militares sem 
interpretadores de sonhos pareciam to impossveis, como nos dias atuais pareceria impossvel uma campanha sem reconhecimento areo. Quando Alexandre Magno iniciou 
suas conquistas, seu squito inclua os mais famosos interpretadores de sonhos. A cidade de Tiro, que naquele tempo ainda se erguia sobre uma ilha, ofereceu ao rei 
to dura resistncia que ele pensou na possibilidade de levantar o cerco. Ento, uma noite, ele teve um sonho em que um sbio parecia danar em triunfo; e quando 
o relatou a seus interpretadores de sonhos, estes o informaram de que o sonho predizia sua conquista da cidade. Ordenou um assalto e capturou Tiro. Entre os etruscos 
e os romanos estavam em uso outros mtodos de prever o futuro; porm, durante todo o perodo helnico-romano, a interpretao de sonhos era praticada e altamente 
conceituada. Da literatura que trata do assunto, o principal trabalho pelo menos sobreviveu: o livro de Artemidoro de Daldis, que provavelmente viveu durante o perodo 
do imperador Adriano. No sei dizer-lhes como aconteceu que, depois disso, a arte de interpretar sonhos sofreu um declnio e os sonhos caram em descrdito. A difuso 
da instruo no pode ter tido muita coisa a ver com isso, porquanto muitas coisas mais absurdas do que a interpretao de sonhos da Antigidade foram ciosamente 
preservadas nas trevas da Idade Mdia. Resta o fato de que o interesse pelos sonhos caiu gradualmente ao nvel de superstio e pde sobreviver apenas entre as classes 
no instrudas. O abuso final da interpretao de sonhos foi atingido em nossos dias com tentativas de descobrir, a partir dos sonhos, os nmeros destinados a serem 
premiados no jogo do loto. Por outro lado, a cincia exata de hoje repetidamente se ocupou de sonhos, mas sempre com o nico objetivo de aplicar a eles suas teorias 
fisiolgicas. Os mdicos, naturalmente, consideraram os sonhos como atos no-psquicos, como a expresso, na vida mental, de estmulos somticos. Binz (1878, [35]) 
enunciou que os sonhos so 'processos somticos, que em todos os casos so inteis e, em muitos casos, positivamente patolgicos, em relao aos quais a alma do 
universo e a imortalidade so to excelsamente superiores como o cu azul sobre um areal plano infestado de ervas'. Maury [1878, 50] compara os sonhos aos desordenados 
movimentos da dana de So Vito, em contraste com os movimentos coordenados de um homem sadio. Consoante velha analogia, os contedos de um sonho so semelhantes 
aos sons produzidos quando 'os dez dedos de um homem que nada sabe de msica vagueiam sobre as teclas de um piano' [Strmpell, 1877, 84].
         Interpretar significa achar um sentido oculto em algo; naturalmente, no haver como faz-lo, se adotarmos essa ltima opinio sobre a funo dos sonhos. 
Reparem na descrio dos sonhos feita por Wundt [1874], Jodl [1896] e outros filsofos mais recentes. Eles se contentam com enumerar os aspectos em que a vida onrica 
difere do pensamento desperto, sempre num sentido que deprecia os sonhos - enfatizando o fato de que as associaes se rompem, que a faculdade de criticar deixa 
de funcionar, que todo o conhecimento  eliminado, bem como outros sinais de diminuio do funcionamento. A nica contribuio de valor aos conhecimentos sobre sonhos, 
que temos a agradecer s cincias exatas, refere-se ao efeito produzido no contedo dos sonhos pelo impacto de estmulos somticos durante o sono. Um autor noruegus, 
recentemente falecido, J. Mourly Vold, publicou dois alentados volumes de pesquisas experimentais sobre sonhos (edio alem, 1910 e 1912), que se dedicam quase 
que exclusivamente s conseqncias das alteraes na postura dos membros. Foram-nos recomendados como modelos de pesquisa exata sobre sonhos. Os senhores podem 
imaginar o que diria a cincia exata, se soubesse que desejamos fazer uma tentativa de descobrir o sentido dos sonhos? Talvez ela j o tenha dito. Porm no nos 
deixaremos atemorizar com isso. Se foi possvel s parapraxias ter um sentido, os sonhos podem ter algum, tambm; e, em muitos e muitos casos, as parapraxias tm 
um sentido que  cincia exata passou despercebido. Assim, abracemos o preconceito dos antigos e do povo e sigamos as pegadas dos interpretadores de sonhos da Antigidade.
         Devemos comear por encontrar nossos propsitos na tarefa  nossa frente e fazer um reconhecimento geral do campo dos sonhos. Ento, o que  um sonho?  
difcil responder em uma s frase. Porm no tentaremos uma definio, quando s basta que se chame a ateno para algo que  conhecido de todos. Devemos, entretanto, 
pr em evidncia o aspecto essencial dos sonhos. Este, onde  que se pode encontr-lo, porm? So to grandes as diferenas dentro do mbito em que se inscreve nosso 
assunto - diferenas em todas as direes. O aspecto essencial provavelmente ser algo que podemos apontar como sendo comum a todos os sonhos.
         A primeira coisa que  comum a todos os sonhos pareceria ser, naturalmente, o fato de que estamos dormindo durante os sonhos. O sonhar , evidentemente, 
vida mental durante o sono - algo que tem certas semelhanas com a vida mental desperta, mas que, por outro lado, se distingue dela por grandes diferenas. Essa 
era, h muito tempo, a definio de Aristteles. Talvez existam ainda conexes mais estreitas entre sonhos e sono. Podemos ser acordados por um sonho; muito freqentemente 
temos um sonho quando acordamos espontaneamente ou quando somos tirados,  fora, do sono. Assim, os sonhos parecem ser um estado intermedirio entre o sono e a 
viglia. De modo que nossa ateno se volta para o sono. Bem, ento, o que  o sono?
         Esse  um problema fisiolgico sobre o qual ainda existe muita controvrsia. Quanto a esse respeito no podemos chegar a qualquer concluso; penso, porm, 
que devemos tentar descrever as caractersticas psicolgicas do sono. O sono  um estado no qual no desejo saber de nada do mundo externo, um estado no qual retirei 
do mundo externo meu interesse. Ponho-me a dormir retraindo-me do mundo externo e mantendo afastados de mim seus estmulos. Tambm vou dormir quando estou fatigado 
dele. De modo que, quando vou dormir, digo ao mundo externo: 'Deixe-me em paz; quero dormir.' As crianas, ao contrrio, dizem: 'Eu no vou dormir agora; no estou 
cansado e quero ter mais algumas experincias.' A finalidade biolgica do sono parece ser, portanto, a recuperao, e sua caracterstica psicolgica a suspenso 
do interesse pelo mundo. Nossa relao com o mundo, ao qual viemos to a contragosto, parece incluir tambm nossa impossibilidade de toler-lo ininterruptamente. 
Assim, de tempos em tempos nos retiramos para o estado de pr-mundo, para a existncia dentro do tero. A todo custo conseguimos para ns mesmos condies muito 
parecidas com aquelas que ento possumos: calor, escurido e ausncia de estmulos. Alguns de ns se embrulham formando densa bola e, para dormir, assumem uma postura 
muito parecida com a que ocupavam no tero. Parece que o mundo no possui completamente sequer mesmo aqueles dentre ns que so adultos, mas apenas at os dois teros; 
um tero de ns ainda  como se no fora nascido. Cada vez que acordamos, pela manh,  como que um novo nascimento. Com efeito, ao falar em nosso estado, aps o 
sono, dizemos que nos sentimos como se tivssemos acabado de nascer. (Ao dizer isso, alis, estamos demonstrando o que provavelmente  uma suposio muito falsa 
acerca das sensaes gerais de uma criana recm-nascida, que parece, ao contrrio, se sentir provavelmente muito sem conforto.) Falamos tambm do nascer como 'ver 
pela primeira vez a luz do dia'.
         Se  isso o sono, os sonhos possivelmente no fazem parte do seu programa, parecendo, ao contrrio, ser um indesejvel acrscimo ao sono. Tambm, ao nosso 
ver, um sono sem sonhos  o melhor, o nico apropriado. No deveria existir qualquer atividade mental no sono; se este comea a ficar inquieto,  por que no conseguimos 
atingir o estado fetal de repouso: no fomos inteiramente capazes de evitar os remanescentes da atividade mental. Os sonhos consistiriam nesses remanescentes. Contudo, 
se fosse assim, realmente pareceria no haver necessidade de os sonhos terem algum sentido. Com as parapraxias era diferente; elas, afinal, eram atividades durante 
a vida desperta. Se, porm, estou dormindo e cessei minha atividade mental completamente, e simplesmente no consegui suprimir alguns resduos dessa atividade, ento 
no h necessidade alguma de esses resduos terem algum sentido. Nem sequer posso fazer uso de um tal sentido, de vez que o restante de minha vida mental est dormindo. 
Assim, realmente s pode tratar-se de uma questo de reaes,  maneira de 'repuxes', dos fenmenos mentais como resultado direto de um estmulo somtico. Por conseguinte, 
os sonhos seriam remanescentes da atividade mental desperta, perturbadores do sonho, e faramos bem em decidir abandonar de vez o assunto, por ser inadequado  psicanlise.
         No entanto, ainda que os sonhos fossem suprfluos, eles existem e podemos tentar explicar sua existncia. Por que a vida mental no consegue dormir? Provavelmente 
porque existe algo que no quer conceder paz  mente. Os estmulos incidem sobre a mente e ela deve reagir a eles. Um sonho, pois,  a maneira como a mente reage 
aos estmulos que a atingem no estado de sono. E nisso vemos uma via de acesso  compreenso dos sonhos. Podemos tomar diferentes sonhos e tentar descobrir qual 
o estmulo que procurou perturbar o sono, e contra o qual a reao foi um sonho. Nosso exame da primeira coisa que  comum a todos os sonhos, parece ter-nos levado 
at esse ponto.
         Existe algo mais que  comum a todos eles? Sim, algo que  inconfundvel, porm muito mais difcil de apreender e descrever. Os processos mentais no sono 
tm um carter bastante diferente daqueles que se realizam em viglia. Nos sonhos experimentamos toda sorte de coisas e acreditamos nelas, ao passo que, no obstante, 
nada experimentamos, exceto talvez o estmulo perturbador isolado. Ns o experimentamos predominantemente sob a forma de imagens visuais; sentimentos tambm podem 
estar presentes, assim como pensamentos que nisso se entrelaam. Os outros sentidos tambm podem experimentar algo; porm, mesmo assim, se trata principalmente de 
uma questo de imagens. Parte da dificuldade de fornecer uma descrio dos sonhos se deve ao fato de termos de traduzir essas imagens em palavras. 'Eu poderia desenh-lo', 
diz-nos muitas vezes uma pessoa que sonhou, 'mas no sei como diz-lo.' No se trata, porm, de uma atividade mental reduzida, como a de uma pessoa oligofrnica 
comparada com a de um gnio:  qualitativamente diferente, embora seja difcil dizer onde est a diferena. G. T. Fechner [1860] certa vez exprimiu a suspeita de 
que o cenrio da ao dos sonhos (na mente) fosse diferente daquele da vida ideativa desperta. Conquanto no o compreendamos e no saibamos o que fazer disso, na 
verdade reproduz a impresso de estranheza que a maioria dos sonhos nos causa. A comparao entre a atividade do sonho e os efeitos de uma mo no-musical no piano 
[ver em [1]] no nos auxilia nesse ponto. O piano, afinal de contas, responde com as mesmas notas, embora no com melodias, quando suas teclas so tocadas ao acaso. 
Guardemos cuidadosamente na memria essa segunda coisa comum a todos os sonhos, embora possamos no t-la compreendido.
         Existem mais outras coisas comuns a eles? No posso descobrir nenhuma; no posso ver seno diferenas, em todos os aspectos: em sua durao aparente, assim 
como em sua clareza; na quantidade de afeto que os acompanha, na possibilidade de ret-los na memria, e assim por diante. Essa variedade no  realmente o que poderamos 
esperar encontrar em uma simples reao defensiva a um estmulo, algo mecanicamente imposto, uma coisa vazia, como os repuxes da dana de So Vito. No que concerne 
s dimenses dos sonhos, alguns so muito curtos e compreendem apenas uma nica imagem, ou umas poucas imagens, um nico pensamento, ou mesmo uma nica palavra; 
outros so extraordinariamente ricos em seu contedo, apresentam novelas inteiras e parecem durar longo tempo. H sonhos to claros como a experincia vigil, to 
claros que, bastante tempo aps havermos acordado, no percebemos que eram sonhos; e outros existem que so indescritivelmente obscuros, vagos e borrados. Na realidade, 
em um mesmo sonho partes muito definidas podem se alternar com outras de uma vaguidade que mal se pode discernir. H sonhos inteiramente plenos de sentido ou, pelo 
menos, coerentes, humorsticos mesmo, ou fantasticamente belos; outros, ademais, so confusos, imbecis por assim dizer, absurdos, muitas vezes positivamente loucos. 
H sonhos que nos deixam praticamente frios e outros em que se manifestam afetos de todos os tipos - sofrimento a ponto de fazer chorar, ansiedade a ponto de nos 
acordar, surpresa, encantamento, etc. Os sonhos so, de hbito, esquecidos facilmente, aps o despertar, ou podem perdurar atravs do dia, lembrados mais e mais 
indistintamente at o fim do dia; outros, ainda - por exemplo, sonhos da infncia -, so to bem preservados que, trinta anos aps, permanecem na memria como se 
fossem experincia recente. Os sonhos,  semelhana de pessoas, podem aparecer somente em uma nica ocasio para nunca mais, ou retornar na mesma aparncia no modificada 
ou com pequenas dessemelhanas. Em suma, esse fragmento da vida mental durante a noite tem um imenso repertrio  sua disposio;  capaz, de fato, de tudo aquilo 
que a mente cria no perodo diurno - e, contudo, jamais  a mesma coisa.
         Poderamos tentar explicar essas muitas variaes dos sonhos supondo que correspondem a diferentes fases intermedirias entre o sono e a viglia, graus 
diferentes de sono incompleto. Est bem, mas se assim fosse, o valor, o contedo e a clareza de um produto onrico - e tambm a conscincia de se tratar de um sonho 
- teriam de crescer naqueles sonhos em que a mente estava prxima do despertar; e no seria possvel uma parte clara e racional de sonho ser seguida imediatamente 
de outra que  obscura e no tem sentido, e esta, por sua vez, ser acompanhada de outra parte de boa qualidade. A mente, por certo, no poderia modificar a profundidade 
de seu sono assim to rapidamente. Logo, essa explicao no nos auxilia; no h como sair da dificuldade.
         Por agora, deixaremos de lado o 'sentido' dos sonhos e tentaremos chegar a uma melhor compreenso dos mesmos a partir daquilo que verificamos terem eles 
em comum. Inferimos da relao entre os sonhos e o estado de sono que os sonhos so a reao a um estmulo que perturba o sono. Aprendemos que esse  tambm o nico 
ponto no qual a psicologia experimental exata pode vir em nosso auxlio: fornece-nos provas de que os estmulos que incidem durante o sono fazem seu aparecimento 
nos sonhos. Muitas investigaes desse tipo foram realizadas, sendo as mais recentes as de Mourly Vold, que j mencionei [ver em [1] e [2]]; e cada um de ns, sem 
dvida, tem estado em condies de confirmar estes achados, a partir de observaes pessoais. Selecionarei algumas das primeiras experincias. Maury [1878] realizou 
algumas experincias consigo prprio. Foi-lhe dado para cheirar um pouco de gua de colnia, durante o sono. Sonhou que estava no Cairo, na loja de Johann Maria 
Farina, e houve mais algumas aventuras absurdas. Em outra ocasio, deram-lhe um leve belisco no pescoo; sonhou que lhe era aplicado um cataplasma de mostarda e 
sonhou com um mdico que o havia tratado quando era criana. Ou ainda, pingaram uma gota d'gua em sua testa; estava na Itlia, transpirava violentamente e bebia 
vinho branco de Orvieto.
         O notvel nesses sonhos produzidos experimentalmente ser talvez mais visvel ainda em outra srie de sonhos produzidos por estmulos. So trs sonhos relatados 
por um observador inteligente, Hildebrandt [1875], todos eles reaes  campainha de um despertador:
         'Sonhei, ento, que certa manh de primavera eu saa a passeio e vagava pelos verdes campos at chegar a uma aldeia prxima, onde vi os aldees, em suas 
melhores roupas, com seus livros de cnticos debaixo do brao, reunindo-se na igreja. Evidente! Era domingo e o culto do incio da manh logo estaria comeando. 
Decidi assistir ao culto, mas, antes, eu estava um tanto acalorado de caminhar, entrei no cemitrio que circundava a igreja, para refrescar. Enquanto lia algumas 
das lpides dos tmulos, ouvi o sineiro subindo a torre da igreja e, l no alto, via agora o pequeno sino da aldeia, que logo daria o sinal para o incio das devoes. 
Por um momento eu o vi pendente ali, sem movimento, depois comeou a balanar, e subitamente seu repicar comeou a soar claro e penetrante - to claro e penetrante 
que ps fim ao meu sono. Porm, o que estava soando era o despertador.
         'Aqui est outro exemplo. Era um dia claro de inverno e as ruas estavam cobertas de espessa camada de neve. Eu tinha decidido comparecer a uma festa, em 
viagem de tren; contudo, tive de esperar por longo tempo at virem me dizer que o tren estava  porta. E ento se seguiram os preparativos para embarcar - a manta 
de pele estendida, o abrigo para os ps j colocado - e, por fim, estava sentado em meu lugar. Ainda assim, o momento da partida foi retardado, at que um puxo 
nas rdeas deu o sinal aos cavalos. De imediato partiram e, em sacudidas violentas, os cincerros do tren romperam seu tilintar conhecido - deveras com tal violncia 
que, num momento, a teia do meu sonho se havia rompido. E, uma vez mais, era apenas o som estridente do despertador.
         'E agora, um terceiro exemplo. Via uma empregada domstica, com vrias dzias de pratos empilhados uns sobre os outros, andando pelo corredor que dava para 
a sala de jantar. A pilha de loua em seus braos me pareceu estar prestes a perder o equilbrio. "Cuidado", exclamei eu, "seno voc vai deixar cair tudo." Seguiu-se 
devidamente a inevitvel resposta: ela estava acostumada quela espcie de tarefa, e assim por diante. E, entrementes, meu olhar ansioso seguia a figura que avanava. 
Ento - justamente como eu esperava - ela tropeou na soleira e a frgil loua escapuliu e, numa verdadeira sinfonia de rudos, espatifou-se em mil pedaos no cho. 
Mas, o barulho prosseguiu sem cessar, e logo no pareceu mais o rudo caracterstico do espatifar de louas, transformando-se no som de uma campainha - e este som, 
como o meu eu (self) desperto agora percebia, era apenas o despertador desempenhando sua tarefa.'
         Esses so sonhos muito bonitos, inteiramente plenos de sentido e pelo menos no to incoerentes como costumam ser os sonhos. No estou fazendo objeo a 
eles, a esse respeito. O que eles tm em comum  a situao, em cada caso, terminar com um barulho que, quando o sonhador acorda,  reconhecido como sendo causado 
pelo despertador. Assim, vemos aqui como se produz um sonho; aprendemos, porm, algo mais que isso. O sonho no reconhece o despertador - e sequer este aparece no 
sonho - mas substitui o rudo do despertador por outro; interpreta o estmulo que est pondo fim ao sono, contudo o interpreta de forma diferente em cada uma das 
vezes. Por que faz isso? No h resposta; parece questo de capricho. Compreender o sonho significaria poder dizer por que esse determinado rudo, e no outro, foi 
escolhido para interpretar o estmulo proveniente do despertador. Objeo anloga podemos fazer s experincias de Maury: podemos verificar bem claramente que o 
estmulo incidente aparece no sonho: porm, por que teve de tomar essa forma particular, isso no nos  dito, e no parece em absoluto ser devido  natureza do estmulo 
que perturbou o sono. Nas experincias de Maury geralmente aparece tambm uma srie de outros materiais dos sonhos, que se juntam ao efeito direto do estmulo - 
por exemplo, as aventuras absurdas no sonho da gua de colnia -, que no podem encontrar explicao.
         E agora considerem que os sonhos do despertar oferecem a melhor oportunidade de estabelecer a influncia dos estmulos externos perturbadores do sono. Em 
muitos outros casos ser mais difcil. Nem todos os sonhos nos levam a acordar, e se na manh seguinte nos lembramos de um sonho da noite anterior, como iremos descobrir 
um estmulo perturbador que talvez possa ter-nos causado um impacto durante a noite? Certa vez consegui identificar um estmulo sonoro desse tipo, de modo retrospectivo, 
naturalmente, porm, apenas devido a circunstncias especiais. Acordei, certa manh, em uma localidade das montanhas do Tirol, sabendo que havia tido um sonho em 
que o papa havia morrido. No pude explicar a mim mesmo o sonho; entretanto, mais tarde minha esposa me perguntou se eu tinha ouvido o tremendo barulho do repicar 
dos sinos, pela manh, que irrompera de todas as igrejas e capelas. No, eu nada tinha ouvido, meu sono  mais resistente que o dela; mas, graas  sua informao, 
eu compreendi meu sonho. Quantas vezes estmulos dessa espcie podem provocar sonhos em uma pessoa que dorme, sem que esta venha a saber deles depois? Talvez muito 
freqentemente, mas talvez no. Se os estmulos no podem mais ser identificados, no podemos nos convencer de sua existncia. E, em todo caso, mudamos nossa opinio 
com relao  importncia dos estmulos externos que perturbam o sono, pois aprendemos que podem explicar apenas uma pequena parte do sonho e no o total da reao 
onrica.
         No h necessidade para, em virtude disso, abandonar de todo essa teoria. Ademais, ela pode ser ampliada. Obviamente no importa saber o que  que perturba 
o sono ou leva a mente a sonhar. Como no pode, invariavelmente, tratar-se de estmulo sensorial vindo de fora, pode haver, em substituio, o que se chama de estmulo 
somtico, que surge dos rgos internos. Essa  uma idia muito plausvel e concorda com a muito popular opinio sobre a origem dos sonhos: 'os sonhos vm da indigesto', 
dizem as pessoas freqentemente. Infelizmente, aqui tambm devemos suspeitar muitas vezes que existem casos em que um estmulo somtico atuado sobre uma pessoa em 
sono, durante a noite, no mais se manifesta aps o despertar e, portanto, no se pode provar que tenha ocorrido. No desprezaremos, porm, o sem nmeros de claras 
experincias que apiam a origem dos sonhos em estmulos somticos. Em geral, no pode haver dvida de que as condies dos rgos internos possam influenciar os 
sonhos. A relao entre o contedo de alguns sonhos e uma bexiga muito cheia ou um estado de excitao dos rgos genitais  to simples que no pode causar mal-entendidos. 
Esses casos evidentes levam a outros, nos quais o contedo dos sonhos d origem  justificada suspeita de que houve um impacto causado por estmulos somticos, porque 
no contedo existe algo que pode ser visto como uma superelaborao atuante, uma representao ou interpretao de tais estmulos. Scherner (1861), que realizou 
pesquisas com sonhos, argumentava com vigor especial a favor da derivao dos sonhos a partir de estmulos orgnicos e apresentava alguns bons exemplos pertinentes. 
Por exemplo, em um sonho ele viu 'duas fileiras de rapazes elegantes, com lindos cabelos e pele delicada, enfrentando-se em formao de combate, fazendo uma investida, 
atacando uma  outra e, aps, retirando-se e voltando novamente  posio anterior, em seguida comeando toda a manobra mais uma vez'. Sua interpretao dessas duas 
fileiras de rapazes como sendo dentes  plausvel em si mesma e parece inteiramente confirmada quando sabemos que, aps essa cena do sonho, a pessoa arrancou de 
sua mandbula um comprido dente. Identicamente a interpretao de 'corredores longos, estreitos e ventosos', como derivados de um estmulo intestinal, parece vlida 
e confirma a assero de Scherner de que os sonhos procuram sobretudo representar o rgo que emite o estmulo por objetos que se lhes assemelham.
         Por conseguinte, devemos estar preparados para admitir que os estmulos internos podem desempenhar nos sonhos o mesmo papel que os externos. Qualquer estimativa 
acerca de sua importncia infelizmente  passvel das mesmas objees. Em numerosos casos uma interpretao que aponte para um estmulo somtico  incerta e improvvel. 
No so todos os sonhos, mas apenas determinado nmero deles, que do lugar a uma suspeita de que os estmulos orgnicos internos tivessem parte na origem deles. 
E, por fim, os estmulos somticos internos so, como os estmulos sensoriais externos, to pouco capazes de explicar mais aspectos de um sonho do que aquilo que 
neste corresponde a uma reao direta ao estmulo. Continua obscuro saber de onde vem o restante do sonho.
         Observemos, no entanto, uma peculiaridade da vida onrica que vem  luz neste estudo dos efeitos dos estmulos. Os sonhos no fazem simplesmente reproduzir 
o estmulo; eles o vertem, fazem aluses a ele, o incluem em algum contexto, o substituem por alguma outra coisa. Esse  um aspecto da elaborao onrica que no 
pode deixar de nos interessar, porque pode, talvez, nos aproximar mais da essncia dos sonhos. Quando uma pessoa constri algo em conseqncia de um estmulo, o 
estmulo no necessita, por isso, levar a cabo todo o trabalho. O Macbeth de Shakespeare, por exemplo, foi uma pice d'occasion composta para celebrar a elevao 
ao trono do rei que foi o primeiro a unir as coroas dos trs reinos. Essa ocasio histrica imediata, porm, abrangeria todo o contedo da tragdia? Explica todas 
as suas grandezas e os seus enigmas? Pode ser que os estmulos externos e internos, tambm, atingindo a pessoa em sono, sejam apenas provocadores do sonho e, por 
conseguinte, nada nos revelem de sua essncia.
         A segunda coisa comum aos sonhos, sua peculiaridade psquica [ver em [1] e seg.], , por um lado, difcil de compreender e, por outro, no nos oferece ponto 
de partida para ulterior investigao. Nos sonhos, via de regra, experimentamos coisas sob formas visuais. Podem os estmulos esclarecer algo a esse respeito? O 
que experimentamos  realmente o estmulo? Nesse caso, porm, por que a experincia  visual, se  apenas em casos muito raros que a estimulao ptica provoca o 
sonho? Ou, se sonhamos palavras faladas, poder ser demonstrado que durante o sonho uma conversao, ou algum rudo que lhe seja semelhante, teve acesso aos nossos 
ouvidos? Eu me aventuraria a desprezar essa possibilidade, decisivamente.
         Se no podemos progredir com aquilo que  comum aos sonhos, vejamos se nos  possvel valer-nos das diferenas. Naturalmente os sonhos muitas vezes so 
sem sentido, confusos e absurdos; contudo, tambm existem os sonhos plenos de sentido, prticos e sensatos. Verifiquemos se os ltimos, os que so plenos de sentido, 
podem elucidar aqueles carentes de sentido. Aqui est o ltimo sonho sensato que me foi relatado. Foi sonhado por um jovem: 'Fui dar um passeio pela Krntnerstrasse, 
encontrei ali Herr X. e estive com ele por certo tempo. Depois, entrei num restaurante. Duas senhoras e um cavalheiro chegaram e se sentaram  minha mesa. Aborreci-me 
com isso, inicialmente, e no queria olhar para eles. Ento, olhei realmente e constatei que eram muito amveis.' A pessoa que teve esse sonho comentou, a propsito, 
que na tarde anterior ao sonho de fato passara pela Krntnerstrasse, que  o caminho que geralmente segue, e que ali encontrara Herr X. A outra parte do sonho no 
era uma recordao direta e apenas tinha alguma semelhana com determinada experincia de uma poca consideravelmente anterior. E aqui est outro sonho trivial, 
desta vez o sonho de uma senhora: 'O marido dela lhe perguntou: "Voc no acha que devemos mandar afinar o piano?" E ela replicou: "No vale a pena; de qualquer 
maneira, os martelos precisam de recondicionamento." Este sonho repetia, sem muita modificao, uma conversao mantida entre ela e seu marido no dia anterior ao 
sonho. O que entendemos desses dois sonhos sensatos? Nada, seno que contm repeties extradas da vida diria, ou coisas a esta vinculadas. J seria alguma coisa 
se dos sonhos em geral se pudesse dizer algo semelhante. Esse, porm, no  o caso; aplica-se apenas a uma minoria e, na maioria dos sonhos, no existe sinal de 
uma conexo com o dia anterior; com isso, se elucidam os sonhos sem sentido e absurdos. Apenas mostra que encontramos, sem esperar, uma nova tarefa. Desejamos no 
apenas saber o que um sonho diz, mas, se ele fala claramente, como o faz nesses exemplos, tambm queremos saber por que e com que finalidade esse material corriqueiro, 
experimentado to recentemente, foi repetido no sonho.
         Penso que, como eu, os senhores devem estar cansados de prosseguir com investigaes como as que estivemos fazendo at aqui. Todo o interesse por um problema 
 evidentemente insuficiente, a menos que se conhea bem uma via de abordagem que leve  sua soluo. Ainda no encontramos um tal caminho. A psicologia experimental 
nada nos proporciona, salvo algumas informaes muito valiosas sobre a importncia dos estmulos como incentivadores do sonhar. Da filosofia nada podemos esperar, 
exceto que uma vez mais nos salientar orgulhosamente a inferioridade intelectual do objeto de nosso estudo. Tambm no temos desejo algum de tomar qualquer coisa 
emprestada das cincias ocultas. A histria e a opinio popular nos dizem que os sonhos tm um sentido e um significado: que eles perscrutam o futuro - o que  difcil 
de aceitar e certamente impossvel de provar. Assim, nosso esforo inicial nos deixa em completa incerteza.
         Inesperadamente nos chega a indicao de uma direo em que at agora no havamos olhado: O uso idiomtico, que no  algo casual, porm constitui o precipitado 
de antigas descobertas, embora, para estarmos seguros, no deva ser empregado descuidadamente - portanto nossa linguagem est familiarizada com coisas que levam 
o estranho nome de 'devaneios'. Os devaneios so fantasias (produtos da imaginao): so fenmenos muito generalizados, observveis mais uma vez tanto nas pessoas 
sadias como nas doentes, e so facilmente acessveis ao estudo em nossa prpria mente. A coisa mais notvel a respeito dessas estruturas imaginrias  que lhes foi 
dado o nome de 'devaneios', de vez que nelas no h qualquer trao dos dois elementos comuns aos sonhos [ver em [1] e segs.]. Sua relao com o sono j  negada 
em seu prprio nome; e no concernente  segunda coisa comum aos sonhos, nelas no experimentamos nem alucinamos algo, mas imaginamos alguma coisa, sabemos que estamos 
tendo uma fantasia, no vemos, mas pensamos. Esses devaneios surgem no perodo pr-pbere, freqentemente ainda na parte final da infncia; persistem at a maturidade 
ser alcanada e, ento, ou so abandonados ou mantidos at o fim da vida. O contedo dessas fantasias  dominado por um motivo muito inteligvel. So cenas e eventos 
em que as necessidades egosticas de ambio e poder da pessoa, ou seus desejos erticos, encontram satisfao. Em homens jovens as fantasias ambiciosas so as mais 
proeminentes; nas mulheres, cuja ambio se dirige ao xito no amor, as fantasias  que o so. Tambm nos homens, contudo, as necessidades erticas esto muito freqentemente 
presentes nos bastidores: todos os seus feitos hericos e seus xitos parecem ter como nico alvo a admirao e o favor das mulheres. Em outros aspectos esses devaneios 
so de tipos muito diferentes e passam por vicissitudes modificadoras. Todos eles, cada qual por sua vez, ou so abandonados aps pouco tempo e substitudos por 
outros novos, ou mantidos, tecidos em longas histrias e adaptados s modificaes que surgem nas circunstncias da vida da pessoa. Eles se acomodam aos tempos, 
por assim dizer, e recebem uma 'marca da poca' que testemunha a influncia da nova situao. So a matria-prima da produo potica, pois o escritor criativo usa 
seus devaneios com determinadas remodelaes, disfarces e omisses, para construir as situaes que introduz em seus contos, novelas ou peas. O heri dos devaneios 
 sempre a prpria pessoa, seja diretamente, seja por uma bvia identificao com alguma outra pessoa.
         Talvez os devaneios atribuam seu nome ao fato de terem a mesma relao com a realidade - para indicar que seu contedo  para ser considerado no menos 
irreal do que o dos sonhos. No entanto, talvez partilhem esse nome por causa de alguma caracterstica psquica dos sonhos que ainda nos  desconhecida, alguma caracterstica 
que estamos investigando. Tambm  possvel que estejamos laborando em considervel erro ao tentarmos fazer uso dessa semelhana de nome como algo significativo. 
Somente mais tarde ser possvel elucidar esse aspecto.
         
         CONFERNCIA VI - PREMISSAS E TCNICA DE INTERPRETAO
         
         SENHORAS E SENHORES:
         Aquilo de que necessitamos, ento,  um novo caminho, um mtodo que nos possibilitar estabelecer um incio na investigao dos sonhos. Apresento-lhes uma 
hiptese razovel. Consideremos como premissa, desse ponto em diante, que os sonhos no so fenmenos somticos mas psquicos. Os senhores sabem o que isso significa; 
contudo, o que justifica que faamos essa hiptese? Nada: mas tambm nada h a impedir-nos de faz-lo. Esta  a situao: se os sonhos so fenmenos somticos, no 
tm interesse para ns, podem apenas nos interessar na hiptese de serem fenmenos mentais. Trabalharemos com a hiptese de que realmente o so, para ver o que da 
se origina. O resultado de nosso trabalho decidir se devemos manter essa hiptese e se podemos trat-la, por sua vez, como dado comprovado. Entretanto, a que realmente 
queremos chegar? Que objetivo nosso trabalho est buscando? Desejamos algo que  buscado em todo trabalho cientfico - compreender os fenmenos, estabelecer uma 
correlao entre os mesmos e, como fim ltimo, aumentar, se possvel, nosso poder sobre esses fenmenos.Nesse consenso, prosseguimos com nosso trabalho baseados 
na hiptese de que os sonhos so fenmenos psquicos. Nesse caso, so produtos e comunicaes da pessoa que sonha, porm comunicaes que nada nos dizem, que no 
entendemos. Pois bem, o que fazem os senhores se Ihes comunico algo ininteligvel? Os senhores me faro perguntas, no  mesmo? Por que no faramos a mesma coisa 
com a pessoa que sonhou - question-la sobre o que seu sonho significa?
         Como se recordam, certa vez nos encontramos na mesma situao, anteriormente. Quando estvamos investigando determinadas parapraxias - um caso de lapso 
de lngua. Algum havia dito [ver em [1]]: 'Ento os fatos vieram a Vorschwein' e logo lhe perguntamos - no, felizmente no ramos ns, e sim outras pessoas, que 
no tinham absolutamente qualquer conexo com a psicanlise - essas outras pessoas ento lhe perguntaram o que quis dizer com esse comentrio ininteligvel. E ele 
prontamente replicou que tinha pretendido dizer 'estes fatos eram Schweinereien [repugnantes]', porm repelira essa inteno em troca da verso mais suave 'ento 
os fatos vieram a Vorschein [luz]'. Naquela ocasio [ver em [1] e [2]] assinalei aos senhores que essa amostra de informao constitua um modelo para toda investigao 
psicanaltica e agora compreendero que a psicanlise segue a tcnica de fazer com que as prprias pessoas que esto sendo examinadas, tanto quanto possvel proporcionem 
a soluo de seus enigmas [ver em [1]]. Assim, tambm  o prprio sonhador quem deve nos dizer o que seu sonho significa.
         No entanto, como sabemos, com os sonhos as coisas no so to simples. Com as parapraxias funcionou tudo bem, em numerosos casos; houve, porm, outros em 
que a pessoa, indagada, nada quis dizer e at mesmo recusou, indignada, a resposta que lhe propusemos. Com os sonhos os casos do primeiro tipo so muito escassos; 
o sonhador sempre diz que nada sabe. No pode rejeitar nossa interpretao, de vez que no temos nenhuma para lhe apresentar. Devemos, ento, desistir de nossa tentativa? 
Como ele nada sabe e ns nada sabemos, e uma terceira pessoa poderia saber menos ainda, parece no haver perspectiva de descobrir a soluo. Nesse caso, se os senhores 
esto propensos a desistir, desistam da tentativa. Porm, se pensam de forma diferente, podem continuar acompanhando-me. Porque posso lhes assegurar ser completamente 
possvel e, na realidade, altamente provvel que o sonhador sabe, sim, o que seu sonho significa: apenas no sabe que sabe, e, por esse motivo, pensa que no sabe.
         Os senhores me assinalaro que, mais uma vez, estou introduzindo uma suposio, j a segunda nesse breve raciocnio, e que, assim fazendo, estou reduzindo 
enormemente o direito  credibilidade de meu procedimento: 'Devido  premissa de que os sonhos so fenmenos psquicos, e devido a uma nova premissa de que h coisas 
mentais em uma pessoa que sabe sem saber que sabe da existncia deles...' e assim por diante. Sendo assim, basta que se considere a improbabilidade intrnseca de 
cada uma dessas duas premissas para se poder tranqilamente desviar o interesse de qualquer concluso que se possa basear nelas.
         Eu no os trouxe at aqui, senhoras e senhores, para iludi-los ou para ocultar-lhes determinadas coisas. Em meu programa,  verdade, anunciei uma srie 
de 'Conferncias Elementares para Servir como Introduo  Psicanlise', contudo, aquilo que eu tinha em mente no era nada nos moldes de uma apresentao in usum 
Delphini, que lhes daria uma verso agradvel, com todas as dificuldades cuidadosamente escamoteadas, com as lacunas preenchidas e as dvidas explicadas favoravelmente, 
de forma que os senhores pudessem crer, com a mente despreocupada, que tinham aprendido algo novo. No, justamente pelo motivo de os senhores serem principiantes, 
quis mostrar-lhes a nossa cincia como ela , com suas asperezas e dificuldades, suas exigncias e hesitaes. Pois sei que o mesmo se passa com todas as cincias 
e possivelmente no pode ser de outra forma, especialmente em seus comeos. Sei tambm que, em geral, o ensino se d ao trabalho de se notabilizar pelo fato de encobrir, 
de quem aprende, essas dificuldades e imperfeies. Com a psicanlise, porm, isso no vai acontecer. De modo que formulei duas premissas, uma dentro da outra; e 
se algum acha tudo isso muito laborioso e muito inseguro, ou se algum est habituado a certezas mais garantidas e a dedues mais elegantes, no deve prosseguir 
conosco. Penso, no entanto, que absolutamente no deveria se meter com os problemas psicolgicos, porquanto  de se temer que em breve achar intransitveis os caminhos 
precisos e seguros que escolheu para seguir. E uma cincia que tem algo a oferecer, no tem necessidade de cortejar ouvintes e adeptos. Suas descobertas no podem 
deixar de angariar adeses; e ela pode esperar at que essas descobertas tenham feito com que as atenes se voltassem para ela.
         Para aqueles que gostariam de prosseguir com esse tema, porm, posso afianar que minhas duas hipteses no so equivalentes. A primeira, a de que os sonhos 
so fenmenos psquicos,  a premissa que procuramos demonstrar pelo resultado de nosso trabalho; a segunda j foi demonstrada em outra rea de conhecimento, e eu 
simplesmente estou me aventurando a transport-la dessa rea para nossos prprios problemas.
         Onde, pois, em que campo, se pde encontrar a prova de que existe algum conhecimento do qual a pessoa interessada, apesar de tudo, nada sabe, conforme estamos 
propondo supor a respeito dos sonhos? Em ltima anlise, este seria um fato estranho, surpreendente, um fato que viria alterar nossa viso da vida mental e que no 
teria por que se manter escondido: um fato, alis, que se neutraliza na sua prpria denominao e que, no obstante, pretende ser algo de real - uma contradio 
em termos. Pois bem, ele no se esconde. No  falta sua se as pessoas nada sabem a seu respeito ou no lhe prestam suficiente ateno. Tambm no somos ns que 
devemos ser acusados de permitir que esses problemas psicolgicos sejam deixados a cargo de pessoas que se mantm distanciadas de todas as observaes e experincias 
decisivas para a questo.
         A comprovao foi encontrada no campo dos fenmenos hipnticos. Quando, em 1889, tomei parte nas demonstraes extraordinariamente impressionantes feitas 
por Libault e Bernheim, em Nancy,
         testemunhei a seguinte experincia, entre outras. Quando um homem era colocado em estado de sonambulismo, era levado a experimentar toda espcie de coisas, 
em forma alucinatria, e, depois, era despertado; de incio parecia nada saber do que acontecera durante seu sono hipntico. Bernheim ento lhe pedia, sem rodeios, 
para relatar o que lhe havia acontecido sob hipnose. O homem afirmava que no conseguia lembrar-se de nada. Bernheim, porm, se mantinha firme, pressionava-o para 
falar, insistia em que o homem sabia e devia recordar. E eis que o homem era tomado de incerteza, comeava a refletir e recordava de forma indistinta uma das experincias 
que lhe tinham sido sugeridas, e depois outra parte, e a memria se tornava cada vez mais clara e mais completa e finalmente vinha  luz, sem falha. Como, no entanto, 
posteriormente o homem sabia o que lhe acontecera durante a experincia, e como ningum lhe havia comunicado nada nesse meio tempo, achamos acertado concluir que 
ele tambm antes sabia. Simplesmente lhe era inacessvel; ele no sabia que sabia, e pensava que no sabia. Ou seja, a situao era exatamente igual quela que suspeitamos 
existir naquele nosso sonhador.
         Suponho que os senhores se surpreendam com que esse fato tenha sido estabelecido, e me perguntaro: 'Por que o senhor deixou de apresentar essa prova anteriormente, 
em conexo com as parapraxias, quando terminamos por atribuir a um homem que cometera um lapso de lngua uma inteno de dizer coisas das quais nada sabia e que 
negava? Se uma pessoa pensa que no sabe nada sobre experincias cuja lembrana, ainda assim, est dentro dela, j no  mais to improvvel ela no saber nada de 
outros processos mentais dentro de si. Esse certamente seria para ns um argumento de peso, e nos teria auxiliado a compreender as parapraxias.' Naturalmente eu 
poderia t-lo apresentado antes, porm reservei-o para outro lugar onde  mais necessrio. As parapraxias, em parte, se explicavam por si mesmas, e, em parte, nos 
deixavam a impresso de que, para preservar a continuidade dos fenmenos em questo, seria prudente supor a existncia de processos mentais dos quais a pessoa nada 
sabe. No caso dos sonhos, somos compelidos a introduzir explicaes provenientes de outro lugar e, ademais disso, espero que, no caso dos mesmos, os senhores acharo 
mais fcil aceitar que eu transporte para c explicaes provenientes da hipnose. O estado no qual uma parapraxia ocorre, no pode deixar de se lhes afigurar normal; 
no possui qualquer semelhana com o estado hipntico. Por outro lado, existe um parentesco evidente entre o estado hipntico e o estado de sonho, que constitui 
uma condio necessria do sonho. A hipnose, na verdade,  descrita como um sono artificial.  pessoa que estamos hipnotizando pedimos que durma, e as sugestes 
que fazemos so comparveis aos sonhos do sono natural. As situaes psquicas nos dois casos so realmente anlogas. No sono natural retiramos nosso interesse de 
todo o mundo externo; e no sono hipntico tambm o retiramos do mundo inteiro, porm com exceo apenas da pessoa que nos hipnotizou e com a qual permanecemos em 
contato. Diga-se de passagem, o sono de uma me cuidando de seu filho, permanecendo em contato com o mesmo e podendo ser acordada apenas por ele,  um equivalente 
normal do sono hipntico. Assim, no seria to fora de propsito transpor a situao da hipnose para a do sono natural. No  inteiramente absurda a suposio de 
que tambm no sonhador esteja presente algum conhecimento a respeito de seus sonhos, embora esse conhecimento lhe seja inacessvel a ponto de no acreditar no mesmo. 
Observe-se que, nesse ponto, se abre uma terceira frente de abordagem ao estudo dos sonhos: vimos a dos estmulos que perturbam o sono, a dos devaneios e, agora, 
temos a dos sonhos sugeridos do estado hipntico.
         Talvez possamos agora retornar  nossa tarefa com renovada confiana. , pois, provvel que o sonhador tenha noo do que sonhou; a nica questo  saber 
como tornar-lhe possvel descobrir o conhecimento que tem e o comunicar a ns. No lhe exigimos dizer-nos abertamente o sentido de seu sonho, porm ser capaz de 
encontrar a origem, o crculo de pensamentos e de interesses do qual surgiu tal sonho. Os senhores se recordam de que, no caso das parapraxias, perguntou-se ao homem 
como ele havia chegado  palavra equivocada 'Vorschwein', e a primeira coisa que lhe ocorreu deu-nos a explicao. Nossa tcnica, no que se refere aos sonhos, portanto 
 muito simples e copiada desse exemplo. Tambm aqui perguntaremos a quem sonhou de que modo chegou ao sonho e, da mesma forma, seu primeiro comentrio pode ser 
considerado uma explicao. Com isso deixamos de lado o problema da distino entre o fato de o sonhador pensar e o de no pensar que sabe algo, e tratamos ambos 
os casos como um s e mesmo caso.
         Essa tcnica certamente  muito simples, porm temo que desencadear a mais viva oposio dos senhores. Havero de dizer: 'Mais uma hiptese! a terceira! 
E a mais improvvel de todas! Se pergunto  pessoa que sonhou o que  que lhe ocorre em relao ao sonho, de que modo precisamente a primeira coisa que lhe ocorre 
pode nos dar a explicao que esperamos? Ora, pode no lhe ocorrer absolutamente nada, ou sabe l o que lhe pode ocorrer. No consigo ver em que se baseia uma expectativa 
desse tipo. Isso realmente  mostrar demasiada confiana na divina providncia, em um ponto em que seria apropriado, isto sim, um maior exerccio da faculdade crtica. 
Ademais, um sonho no  somente uma palavra errada; consiste em numerosos elementos. Assim sendo, que associao de idias devemos seguir?'Os senhores esto corretos 
em todos os pontos de menor importncia. Um sonho difere de um lapso de lngua, entre outras coisas, pela multiplicidade de seus elementos. Nossa tcnica deve levar 
isso em considerao. Portanto lhes sugiro dividirmos o sonho em seus elementos e iniciarmos uma pesquisa  parte, de cada elemento; ao fazermos isso, a analogia 
com um lapso de lngua se estabelece. Os senhores tambm tm razo ao pensar que aquele que sonhou, quando interrogado sobre os diversos elementos do sonho separados 
uns dos outros, pode responder que nada lhe ocorre. H alguns exemplos nos quais deixamos passar essa resposta, e mais adiante os senhores sabero que exemplos so 
esses [ver em [1]]; coisa muito estranha, so exemplos nos quais idias definidas podem ocorrer em ns mesmos. Porm, em geral, se quem sonhou afirma que nada lhe 
ocorre, contestamos; ns o pressionamos, insistimos em que algo deve ocorrer-lhe - e tornamos a ter razo. Produzir uma idia - qualquer idia, -nos indiferente 
qual seja. O sonhador nos dar determinadas informaes, que podem ser descritas como 'histricas' com especial facilidade. Ele pode dizer: 'Isso  algo que aconteceu 
ontem' (como foi o caso em nossos dois sonhos 'de verdade' [ver em [1] e [2]], ou: 'Isso me lembra algo que aconteceu h pouco tempo' - e dessa maneira descobriremos 
que os sonhos se referem a impresses do dia anterior, ou dos dois ltimos dias, muito mais freqentemente do que de incio imaginvamos [loc. cit.]. E, finalmente, 
tambm recordar, a partir do sonho, acontecimentos de pocas ainda mais anteriores, e at mesmo, talvez, de um passado muito remoto.
         No seu ponto principal, contudo, os senhores se enganam. Se pensam ser arbitrrio supor que a primeira coisa que ocorre ao sonhador forosamente deva nos 
revelar aquilo que estamos procurando, nos levar at a meta de nossa procura; se pensam que aquilo que lhe vem  mente poderia ser qualquer outra coisa deste mundo 
e poderia no ter qualquer relao com o que procuramos; e que ao esperar alguma coisa diferente estou apenas exibindo minha confiana na providncia divina - ento 
os senhores esto cometendo um grande equvoco. Uma vez, anteriormente [ver em [1]], arrisquei-me a dizer-lhes que os senhores acalentam uma f, profundamente arraigada, 
em acontecimentos psquicos no-determinados e no livre-arbtrio; que isso, porm,  bastante anticientfico e deve ceder lugar  necessidade de um determinismo 
cujo princpio se estende  vida mental. Peo que respeitem o fato de que aquilo foi o que veio  mente do homem, e no outra coisa. No entanto, no estou opondo 
uma f a outra. Pode-se demonstrar que a idia referida pelo homem no era arbitrria, nem indeterminvel, nem isenta de relao com aquilo que procurvamos. Na 
realidade, h no muito tempo constatei - posso dizer que sem atribuir muita importncia ao fato - que a psicologia experimental tambm havia obtido provas nesse 
sentido.
         Tendo em vista a importncia do assunto, solicitarei dos senhores especial ateno. Ao pedir a algum dizer-me o que lhe vem  mente em resposta a um determinado 
elemento do sonho, estou lhe pedindo que se entregue  associao livre, enquanto mantm na mente uma idia como ponto de partida. Isso exige uma atitude especial 
da ateno, bastante diferente da reflexo, e que exclui esta. Algumas pessoas conseguem essa atitude com facilidade; outras, quando tentam consegui-la, mostram 
um grau de inabilidade incrivelmente elevado. Existe, no entanto, um grau maior de liberdade de associao: quer dizer, posso eliminar a exigncia de manter na memria 
uma idia inicial e to-somente estabelecer a modalidade ou tipo de associao que quero - posso, por exemplo, exigir da pessoa em experincia que deixe vir  mente 
um nome prprio ou um nmero, livremente. Aquilo que ento lhe ocorre presumivelmente seria ainda mais casual e mais imprevisvel do que com nossa tcnica anterior. 
Pode ser demonstrado, porm, que  sempre algo estritamente determinado por importantes atitudes internas da mente, desconhecidas de ns no momento em que atuam 
- to pouco conhecidas como as intenes perturbadoras das parapraxias e as intenes causadoras das aes casuais [ver em [1]].
         Eu e muitos outros depois de mim fizemos repetidamente essas experincias com nomes e com nmeros pensados ao acaso, e alguns desses experimentos foram 
publicados. Nessas experincias o procedimento consiste em fornecer uma srie de associaes ao nome que emergiu; essas associaes subseqentes, em decorrncia, 
no so mais inteiramente livres, porm possuem um vnculo, assim como existe vnculo entre as associaes e os elementos dos sonhos. Continua-se com esse procedimento 
at que se considere esgotado o estmulo para associar. Entretanto, com isso j ter sido esclarecido tanto o motivo como o significado da escolha casual do nome. 
Essas experincias sempre conduzem ao mesmo resultado; relatos referentes a elas freqentemente abrangem copioso material e exigem amplas elucidaes. As associaes 
com nmeros escolhidos ao acaso so, talvez, as mais convincentes; elas fluem to rapidamente e avanam com to incrvel certeza em direo a um objetivo oculto, 
que o efeito  realmente surpreendente. Apresentarei aos senhores um exemplo de uma dessas anlises de um nome, de vez que lidar com isso exige uma quantidade de 
material convenientemente pequena.No decurso do tratamento de um jovem tive ocasio de discutir esse assunto e mencionei a tese de que, apesar de uma escolha aparentemente 
casual,  impossvel pensar em um nome ao acaso que no venha a se revelar como rigorosamente determinado pelas circunstncias imediatas, pelas caractersticas da 
pessoa em experincia e por sua situao no momento. De vez que ele se encontrava ctico, sugeri-lhe que deveria fazer consigo mesmo uma experincia desse tipo, 
na hora. Eu sabia que ele mantinha relaes particularmente numerosas, de todo tipo, com mulheres casadas e com moas, e assim pensei que ele teria  sua disposio 
uma escolha especialmente ampla se fosse o caso de lhe pedir que escolhesse o nome de uma mulher. Concordou em fazer a experincia. Para minha surpresa, ou melhor, 
talvez, para sua surpresa, no fui assoberbado por nenhuma avalanche de nomes femininos; permaneceu calado por um momento e ento admitiu que apenas um nome lhe 
tinha vindo  cabea e nenhum outro alm deste: 'Albina'. - Que coisa curiosa! Mas o que significa esse nome para o senhor? Quantas 'Albinas' o senhor conhece? - 
 estranho diz-lo, ele no conhecia nenhuma mulher chamada 'Albina', e nada mais lhe ocorreu junto com o nome. Dessa forma, podia-se pensar que a anlise havia 
fracassado. Mas no, absolutamente: j estava completa e outras associaes no eram necessrias. O homem tinha uma pele excepcionalmente alva e, em conversao 
durante o tratamento, muitas vezes eu o chamara de albino, por brincadeira. Por essa poca estvamos tratando de determinar os componentes femininos de sua constituio. 
Assim, era ele mesmo essa 'Albina', a mulher que mais lhe interessava no momento.
         Do mesmo modo, pode-se constatar que as melodias que acodem  mente de uma pessoa de modo inesperado so determinadas por uma seqncia de idias  qual 
pertencem, e tm o direito de atarefar a mente, sem que haja conscincia de sua atividade.  fcil, nesses casos, demonstrar que a relao com a melodia  baseada 
em sua letra ou em sua origem. Contudo, devo ter o cuidado de no estender essa assero a pessoas realmente ligadas  msica; sucede que com elas no tive qualquer 
experincia. Pode ser que para essas pessoas o contedo musical da melodia  que decide seu surgimento. O primeiro caso  certamente o mais comum. Por exemplo, conheo 
um jovem que se sentiu durante algum tempo realmente perseguido pela melodia (alis, uma melodia maravilhosa ) da cano de Pris [de Offenbach] La belle Hlne, 
at que, em sua anlise, ele teve sua ateno voltada para uma rivalidade em torno de sua pessoa e em benefcio seu, uma rivalidade entre uma 'Ida' e uma 'Helena'.Se 
ento as coisas que vm  mente de uma pessoa assim to livremente, so de tal maneira determinadas e formam parte de um todo inter-relacionado, sem dvida estamos 
agindo acertadamente ao concluir que no podem ser menos determinadas aquelas coisas que Ihe acodem  mente com apenas um vnculo - ou seja, o vnculo delas com 
a idia que serve como seu ponto de partida. A investigao realmente mostra que, afora o vnculo que lhe fornecemos com a idia inicial, essas associaes so dependentes 
tambm de grupos de idias e de interesses intensamente emocionais, os 'complexos', cuja participao no  conhecida no momento - ou seja,  inconsciente.A ocorrncia 
de idias com vnculos dessa espcie tem sido objeto de pesquisas experimentais muito elucidativas que desempenharam um papel notvel na histria da psicanlise. 
A escola de Wundt introduziu o que conhecemos como experincias de associao, nas quais se diz  pessoa uma palavra-estmulo e a pessoa tem de responder a ela to 
rapidamente quanto lhe  possvel, com qualquer reao que lhe ocorra. Nesse caso,  possvel estudar o intervalo de tempo que se passa entre o estmulo e a reao, 
a natureza das respostas dadas como reao, os possveis erros quando a experincia  repetida mais tarde, e assim por diante. A escola de Zurique, liderada por 
Bleuler e Jung, encontrou explicao para as reaes que se sucediam na experincia de associao, fazendo as pessoas em experincia elucidarem suas reaes por 
meio de associaes subseqentes, no caso de essas reaes terem mostrado aspectos marcantes. Constatou-se ento que essas reaes marcantes eram determinadas de 
forma muito definida pelos complexos da pessoa. Assim, Bleuler e Jung estabeleceram a primeira ponte entre a psicologia experimental e a psicanlise.Tendo aprendido 
tantas coisas, os senhores podero dizer: 'Agora reconhecemos que os pensamentos que livremente acodem  mente de uma pessoa so determinados, e no arbitrrios, 
como supunhamos. Admitimos que isso seja verdadeiro tambm para os pensamentos que ocorrem como resposta aos elementos dos sonhos. No  nisso, porm, que estamos 
interessados. O senhor assevera que aquilo que vem  mente do sonhador, como resposta ao elemento onrico,  determinado pelo fundamento psquico (desconhecido para 
ns) daquele elemento em particular. Isso no nos parece estar provado. Esperamos, isto sim, que o que ocorre ao sonhador como resposta ao elemento onrico, venha 
a se revelar como sendo determinado por um dos complexos de quem sonhou; contudo, de que nos serve isso? No nos leva a uma compreenso dos sonhos e sim, tal como 
a experincia de associao, ao conhecimento desses ditos complexos. Mas, o que tm eles a ver com os sonhos?'
         Os senhores tm razo, porm esto negligenciando um fator. Ademais,  precisamente devido a esse fator que no escolhi a experincia de associao como 
ponto de partida desta exposio. Nessa experincia, o nico determinante da reao, isto , a palavra-estmulo,  arbitrariamente escolhida por ns. Aqui, a reao 
 intermediria entre a palavra-estmulo e o complexo despertado na pessoa. Nos sonhos, a palavra-estmulo  substituda por algo que propriamente deriva da vida 
mental da pessoa, de fontes que lhe so desconhecidas, podendo este algo, por conseguinte, ser facilmente um verdadeiro 'derivado de um complexo'. Logo, no  exatamente 
fantstico supor que as demais associaes vinculadas aos elementos onricos sero determinadas pelo mesmo complexo que o do prprio elemento, e supor que conduziro 
 sua descoberta.
         Permitam-me mostrar-lhes com outro exemplo que os fatos so como esperamos. O esquecimento de nomes prprios  realmente um excelente modelo do que acontece 
na anlise de sonhos; a diferena est apenas em que os eventos compartilhados entre duas pessoas na anlise de sonhos esto combinados em uma s pessoa nas parapraxias. 
Se esqueo temporariamente um nome, mesmo assim sinto em mim alguma certeza de o saber - uma certeza a que, no caso da pessoa que sonhou, somente chegamos pelo caminho 
indireto da experincia de Bernheim [ver em [1]]. O nome que esqueci, embora o saiba, no  acessvel para mim. A experincia em breve me ensina que nada adianta 
pensar nele, por mais que me esforce. Em lugar do nome esquecido, porm, sempre posso recordar um ou vrios nomes substitutos.  somente depois de espontaneamente 
ter-me ocorrido um nome substituto desse tipo, que se torna bvio a semelhana dessa situao com a da interpretao do sonho. Como esse nome substituto, tambm 
o elemento onrico no  a verdadeira coisa em si, porm to-somente est em lugar de alguma outra coisa - da coisa original que desconheo e devo descobrir mediante 
a anlise do sonho. Mais uma vez, a nica diferena  que, no caso do esquecimento de um nome, reconheo sem hesitao o substituto como algo no-original, ao passo 
que, no caso do elemento onrico, chegamos a essa constatao com mais dificuldade. Pois bem, no caso do esquecimento de um nome existe tambm um mtodo pelo qual 
podemos partir do substituto e chegar  coisa inconsciente original, o nome esquecido. Dirigindo minha ateno para os nomes substitutos e permitindo que, em resposta 
a estes, outras idias me advenham, obtenho o nome esquecido atravs de rodeios mais ou menos longos; ao ocorrer isso, verifico que tanto o nome substituto espontneo 
como os nomes que recordei, esto correlacionados com o nome esquecido e foram por ele determinados.Descreverei para os senhores uma anlise desse tipo. Certo dia 
verifiquei que no conseguia recordar o nome do pequeno pas da Riviera cuja capital  Monte Carlo. Foi muito cansativo, porm a coisa se passou assim. Concentrei 
tudo quanto sabia a respeito desse pas. Pensei no Prncipe Alberto, da Casa de Lusignan, nos seus casamentos, em sua dedicao s pesquisas em alto-mar, e tudo 
o mais que pude reunir; mas foi intil. Desisti, assim, da reflexo e deixei que me ocorressem nomes substitutos em vez do nome esquecido. Vieram rapidamente: a 
prpria Monte Carlo, Piemonte, Albnia, Montevidu, Colico. Nessa srie chamou-me a ateno primeiramente Albnia, logo substituda por Montenegro, sem dvida por 
causa do contraste entre branco e negro. Ento constatei que quatro desses nomes substitutos continham a mesma slaba 'mon' e com isso, subitamente, eu tinha a palavra 
esquecida e exclamei em voz alta: 'Mnaco!' Os nomes substitutos, assim, realmente haviam surgido do nome esquecido: os quatro primeiros provinham de sua primeira 
slaba, ao passo que o ltimo reproduzia sua estrutura silbica e sua ltima slaba inteira. Ademais, consegui descobrir com bastante facilidade o que me privara 
temporariamente desse nome. Mnaco  tambm a palavra italiana para Munique; e foi essa cidade que exerceu a influncia inibitria.
         No h dvida de que esse  um bom exemplo, porm  simples demais. Em outros casos, teria sido necessrio recordar extensas seqncias de idias em resposta 
ao primeiro nome substituto, e ento a analogia com a anlise de sonhos teria sido mais clara. Tive experincias tambm desse tipo. Certa ocasio, um estrangeiro 
convidou-me para tomar vinho italiano em sua companhia; porm, quando estvamos no restaurante, sucedeu no lembrar-se ele do nome do vinho que desejava pedir em 
virtude das recordaes muito agradveis que tinha desse vinho. A partir de numerosas idias substitutas de diferentes espcies que acudiam  sua memria, em lugar 
do nome esquecido, pude concluir que pensamentos a respeito de algo com o nome Hedwig o tinham feito esquecer o nome. E ele no apenas confirmou o fato de que provara 
desse vinho, pela primeira vez, quando estava em companhia de algum com esse nome, como tambm, auxiliado pela descoberta, se lembrou do nome do vinho. Presentemente 
ele estava sendo feliz no casamento e aquele nome, Hedwig, pertencia a uma poca anterior que no desejava recordar.
         Sendo possvel no caso de esquecimento de um nome, tambm na interpretao de sonhos deve ser possvel prosseguir, a partir do substituto, ao longo da cadeia 
de associaes ligada a ele e dessa forma obter acesso  coisa original que est sendo mantida oculta. Do exemplo do nome esquecido podemos concluir que as associaes 
com o elemento onrico sero determinadas tanto pelo elemento onrico como pela coisa original inconsciente que est por trs deste. Sendo assim, parece que aduzimos 
alguma fundamentao para nossa tcnica.
         
         
         
         
         
         
         CONFERNCIA VII - O CONTEDO MANIFESTO DOS SONHOS E OSPENSAMENTOS ONRICOS LATENTES
         
         
         SENHORAS E SENHORES:
         Como vem, nosso estudo das parapraxias no foi improfcuo. Graas a nossos esforos com elas, sujeitos a duas premissas que lhes expliquei, conseguimos 
duas coisas: uma concepo da natureza dos elementos onricos e uma tcnica para interpretar sonhos. A concepo dos elementos onricos nos diz serem eles coisas 
no-originais [ver em [1]], substitutos de alguma outra coisa desconhecida do sonhador (como a inteno de uma parapraxia), substitutos de algo cujo conhecimento 
est presente em quem sonhou, que lhe , porm, inacessvel. Temos a esperana de que ser possvel aplicar a mesma concepo a sonhos inteiros constitudos de tais 
elementos. Nossa tcnica baseia-se em usar a associao livre para esses elementos, a fim de suscitar a emergncia de outras estruturas substitutivas que nos possibilitaro 
atingir aquilo que se oculta de nossos olhos.Proponho, agora, que devemos introduzir uma modificao em nossa nomenclatura, o que nos dar maior liberdade de movimentos. 
Em vez de falar em 'oculto', 'inacessvel' ou 'no-genuno', adotemos a descrio correta e digamos 'inacessvel para a conscincia do sonhador' ou 'inconsciente'. 
Com isso quero dizer to-somente aquilo que pode acudir ao esprito dos senhores quando pensam em uma palavra que lhes escapou, ou na inteno perturbadora de uma 
parapraxia - ou seja, quero dizer apenas 'inconsciente no momento'. Contrastando com esse aspecto, naturalmente podemos referir como 'conscientes' os elementos onricos 
propriamente ditos e as idias substitutivas que, atravs das associaes com estes elementos, so de surgimento recente. At aqui essa nomenclatura no envolve 
qualquer formulao terica. No se pode estabelecer objeo alguma ao uso da palavra 'inconsciente' como descrio adequada e de fcil compreenso. 
         Se estendemos ao sonho total nossa concepo a respeito de seus elementos isolados, procede que o sonho como um todo constitui um substituto deformado de 
alguma. outra coisa, algo inconsciente, e que a tarefa de interpretar um sonho  descobrir esse material inconsciente. Disso logo resultam, entretanto, trs regras 
importantes que devemos observar durante o trabalho de interpretao de sonhos.
         (1) No devemos nos preocupar com aquilo que o sonho parece dizer-nos, seja compreensvel ou absurdo, claro ou confuso, de vez que pode no ser o material 
inconsciente que estamos procurando. (Uma evidente limitao desta regra forosamente ir impor-se  nossa considerao, mais adiante [ver em [1]].) (2) Devemos 
restringir nosso trabalho  recordao das idias substitutivas de cada elemento, no devemos refletir sobre elas, nem considerar se contm algo importante; e no 
devemos nos perturbar com o grau de divergncia que elas apresentam em relao ao elemento onrico. (3) Precisamos aguardar at que o material inconsciente oculto, 
o qual procuramos, surja com espontaneidade, exatamente como a palavra esquecida 'Mnaco' adveio na experincia que descrevi [ver em [1]].
         Agora, tambm, podemos compreender em que grau  indiferente o fato de muita ou pouca coisa do sonho ser lembrada, sobretudo se lembrada com preciso ou 
impreciso. Pois o sonho recordado no  o material original e sim um seu substituto deformado, o qual, mediante a rememorao de outras imagens substitutivas, deve 
auxiliar-nos a nos aproximarmos do material original, a tornar consciente aquilo que no sonho  inconsciente. Se nossa lembrana foi imprecisa, portanto, causou 
simplesmente uma deformao a mais desse substituto - uma deformao que, porm, no se efetuou sem motivo.
         O trabalho de interpretar pode ser executado nos sonhos de cada um, ou nos sonhos de outras pessoas. Na realidade, aprende-se mais consigo mesmo; o processo 
impe maior convico. Se ento fizermos uma tentativa, observaremos que algo se ope ao nosso trabalho.  verdade que as idias nos ocorrem; porm, no permitimos 
que todas elas sejam levadas em considerao; influncias de julgamentos e de escolhas se fazem sentir. No caso de uma idia, podemos dizer a ns mesmos: 'No, isso 
no  importante, no tem cabimento aqui.' No caso de outra idia: 'isso  demasiadamente sem sentido'; e no caso de uma terceira: 'isso  totalmente sem importncia'. 
E depois, somos capazes de observar como, com objees dessa espcie, podemos encobrir idias e finalmente recha-las todas juntas, sem exceo, antes mesmo de 
se haverem tornado bastante claras. Assim, por um lado nos aferramos muito quela idia que constituiu nosso ponto de partida, o prprio elemento onrico; e, por 
outro lado, interferimos no resultado das associaes livres ao fazer a escolha. Se no somos ns mesmos enquanto interpretamos o sonho, se tomamos outra pessoa 
para que o interprete, adquirimos conscincia muito ntida de mais um motivo que alegamos ao fazer essa seleo indevida, porque s vezes dizemos para ns: 'No, 
essa idia  excessivamente desagradvel; no quero ou no posso referi-la.'
         Essas objees constituem evidente ameaa ao xito de nosso trabalho. Delas devemos nos resguardar, e em nosso prprio caso o fazemos resolvendo no ceder 
a elas. Estando analisando o sonho de uma outra pessoa, estabelecemos como regra inviolvel a pessoa no ocultar de ns idia alguma, ainda que d origem a uma das 
quatro objees - de ser demasiado sem importncia, ou sem sentido; ou de ser irrelevante, ou muito desagradvel para ser referida. O sonhador promete obedecer  
regra, e a seguir podemos ter o aborrecimento de verificar como ele cumpre mal o prometido, quando lhe surge a ocasio. Podemos explicar a ns mesmos o que se passa, 
de incio, supondo que, malgrado a garantia peremptria, ele ainda no se compenetrou da razo de ser da associao livre; e talvez possamos ter a idia de primeiro 
convenc-lo teoricamente, dando-lhe livros para que leia, ou enviando-o a conferncias que o possam converter em adepto de nossos pontos de vista sobre a associao 
livre. Contudo, de um erro assim nos manteremos  distncia, basta considerarmos nosso prprio caso; do vigor de nossas convices dificilmente se pode duvidar, 
afinal de contas as mesmas objees se apresentam a determinadas idias, e so afastadas apenas posteriormente - digamos, em segunda instncia.Em vez de nos aborrecermos 
com a desobedincia do sonhador, podemos lucrar com essas experincias aprendendo algo novo a partir delas - algo tanto mais importante quanto menos esperamos. Percebemos 
que o trabalho de interpretar sonhos  executado em presena de uma resistncia que a ele se ope e da qual as objees crticas constituem manifestaes. A resistncia 
independe da convico terica daquele que sonhou. Com efeito, aprendemos ainda mais. Descobrimos que uma objeo crtica desse tipo jamais chega a mostrar-se justificada. 
Ao contrrio, as idias que as pessoas tentam suprimir dessa maneira invariavelmente se revelam as mais importantes e decisivas em nossa busca de material inconsciente. 
Na realidade equivale a uma marca distintiva uma idia acompanhar-se de uma objeo desse tipo.
         A referida resistncia  algo inteiramente novo: um fenmeno que encontramos calmamente em relao a nossas premissas [ver em [1] e seg.]; porm, um fenmeno 
que no se inclua entre as mesmas. O aparecimento desse novo fator em nossos clculos nos alcana como determinada surpresa no de todo agradvel. Logo suspeitamos 
que ela no ir tornar mais fcil nosso trabalho. Poderia desorientar-nos a ponto de abandonarmos nosso completo interesse pelos sonhos: algo to sem importncia 
como um sonho e, como se no bastasse, todas essas dificuldades, em lugar de uma nica tcnica simples, sem rodeios! Em compensao, porm, as dificuldades podem 
precisamente agir como estmulo e fazer-nos suspeitar que o trabalho valer a pena. Regularmente deparamos com a resistncia ao tentarmos abrir caminho desde o substituto, 
que  o elemento onrico, at o material inconsciente oculto por trs dele. Podemos, assim, concluir que deve haver algo importante escondido por trs do substituto. 
Se no, para que servem as dificuldades que tentam manter em vigor o ocultamento? Se uma criana recusa abrir sua mo fechada, para mostrar o que tem escondido, 
podemos nos sentir seguros de que se trata de algo equvoco - algo que ela no devia ter.
         No momento em que introduzimos nos fatos em questo a idia dinmica de uma resistncia, devemos simultaneamente refletir ser esse fator algo que varia 
em quantidade. Podem existir resistncias maiores e menores, e estamos preparados para encontrar essas diferenas revelando-se tambm durante nosso trabalho. Talvez 
sejamos capazes de vincular essa experincia com outra que tambm encontramos durante o trabalho da interpretao de sonhos: s vezes, apenas uma nica resposta, 
ou no mais do que algumas, so requeridas para nos conduzirem desde o elemento onrico at o material inconsciente que nele se oculta, ao passo que em outras ocasies, 
para se realizar isso, so necessrias longas cadeias de associaes e a superao de muitas objees crticas. Concluiremos que essas diferenas correspondem  
varivel magnitude da resistncia, e certamente se ver que temos razo. Se a resistncia  pequena, o substituto no pode estar muito distante do material inconsciente; 
contudo, uma resistncia maior significa que o material inconsciente est muito distorcido e que ser longo o caminho que se estende desde o substituto ao material 
inconsciente.
         Talvez, agora, seja o momento de tomarmos um sonho e tentar aplicar-lhe nossa tcnica, a fim de verificar se nossas expectativas se confirmam. Sim; no entanto, 
que sonho devemos escolher para essa finalidade? Os senhores no podem imaginar como julgo difcil decidir; nem sequer posso esclarecer a natureza de minhas dificuldades. 
Evidentemente deve haver sonhos que, em seu conjunto, foram sujeitos apenas a uma pequena deformao, e o melhor plano seria comear por eles. Entretanto, que sonhos 
foram menos deformados? Os inteligveis e no confusos, dos quais j lhes apresentei dois exemplos [ver em [1] e [2]]? Isso nos faria perder o rumo. A investigao 
mostra que tais sonhos foram sujeitos a um extraordinrio grau de deformao. Se, entretanto, eu devesse no levar em conta exigncias especiais e selecionasse um 
sonho a esmo, os senhores provavelmente ficariam muito desapontados. Talvez tivssemos de observar ou gravar tamanha profuso de idias, em resposta aos elementos 
onricos isolados, que seramos incapazes de estabelecer uma viso de conjunto do trabalho. Se tomamos nota por escrito de um sonho e ento anotamos todas as idias 
que emergem como resposta a ele, podemos verificar que essas idias so muitas vezes mais longas do que o texto do sonho. O melhor plano, portanto, pareceria ser 
o de escolher alguns sonhos curtos para anlise, quando cada um dos quais pelo menos nos dir algo ou confirmar algum ponto. Decidiremos, assim, seguir esse rumo, 
a menos que a experincia talvez nos mostre onde realmente podemos encontrar sonhos que foram apenas ligeiramente deformados. No entanto, posso pensar em alguma 
outra coisa que nos tornar as coisas mais fceis: algo, ademais, que est em nossa trajetria. Em vez de comearmos por interpretar sonhos completos, nos restringiremos 
a alguns elementos onricos e descobriremos, em determinado nmero de exemplos, como esses podem ser explicados mediante aplicao de nossa tcnica.
         (a) Uma senhora referiu que, quando criana, sonhava muito freqentemente que Deus usava na cabea um chapu de trs bicos feito de papel. O que os senhores 
podem fazer com esse caso, sem o auxlio daquela que sonhou? Parece totalmente disparatado. Deixa, porm, de ser absurdo quando ouvirmos da senhora que ela costumava 
usar na cabea um chapu desse tipo, s refeies, quando era criana, porque nunca podia resistir ao desejo de dar olhadas furtivas aos pratos dos irmos e irms 
para ver se eles no tinham ganho pores maiores que a sua. Assim, o chapu se destinava a funcionar como um par de culos de proteo. Isso, alis, era uma parte 
das informaes referentes  sua histria [ver em [1] e [2] e seg.], e foi fornecida sem qualquer dificuldade. A interpretao desse elemento e, ao mesmo tempo, 
de todo esse breve sonho foi feita com o auxlio de mais uma idia que lhe ocorreu: 'Quando ouvi dizer que Deus era onisciente e via tudo', disse, 'o sonho s pode 
significar que eu sabia tudo e via tudo, mesmo que procurassem me impedir.' Parece que este exemplo  simples demais.(b) Uma paciente, que se mostrava ctica neste 
respeito, teve um longo sonho, no decorrer do qual algumas pessoas Ihe falavam acerca de meu livro sobre chistes [1905c] e o elogiavam muito. Ento surgiu algo referente 
a um 'canal', talvez um outro livro que mencionava um canal, ou ento alguma coisa com canal... ela no sabia ... era tudo to indistinto.Sem dvida os senhores 
tendero a esperar que o elemento 'canal', de vez que j era to indistinto, seria inacessvel  interpretao. Tm razo em suspeitar de uma dificuldade; porm 
a dificuldade no resulta da indistino: tanto a dificuldade como a indistino se originam de outra causa. Nada ocorreu a essa paciente em relao a 'canal', e 
eu obviamente no pude elucid-lo. Pouco tempo depois - para dizer a verdade, no dia seguinte - disse-me que havia pensado em alguma coisa que podia ter algo a ver 
com o fato. Era, sim, um chiste - um chiste que tinha ouvido. No vapor entre Dover e Calais, um conhecido autor entabulou conversao com um ingls. Este aproveitou 
a ocasio para citar a frase: 'Du sublime au ridicule il n'y a qu'un pas. [Do sublime ao ridculo no vai mais que um passo.]' 'Sim', respondeu o autor, 'le Pas 
de Calais' - querendo dizer que havia pensado que a Frana era sublime e a Inglaterra, ridcula. Porm o Pas de Calais  um canal - o Canal Ingls [Na verdade, os 
Estreitos de Dover.]. Os senhores me perguntaro se penso que isso tinha algo a ver com o sonho. Penso que sim, certamente; e d a soluo do elemento enigmtico 
do sonho. Podero duvidar de que esse chiste, j antes de ocorrer o sonho, estava presente na qualidade de pensamento inconsciente, oculto por trs do elemento 'canal'? 
Podem os senhores supor que foi introduzido como inveno subseqente? A associao revelou o ceticismo que jaz oculto na admirao ostensiva da paciente; e sua 
resistncia contra a revelao desse fato era sem dvida a causa comum tanto de sua demora em fornecer a associao, como da indistino do elemento onrico em referncia. 
Considerem a relao entre o elemento onrico e seu terreno inconsciente: era como se fosse um fragmento desse terreno, uma aluso ao mesmo, tendo-se tornado ininteligvel 
ao ser isolado.(c) Como parte de um sonho um tanto longo, um paciente sonhou que diversos membros de sua famlia estavam sentados em volta de uma mesa de formato 
especial, etc. Ocorreu-lhe, em relao  mesa, que ele tinha visto um mvel desse tipo quando visitava determinada famlia. Seus pensamentos continuaram revelando 
que havia um relacionamento peculiar entre pai e filho, nessa famlia; e logo acrescentou que o mesmo se passava, de fato, nas relaes entre ele prprio e seu pai. 
Assim, a mesa passou a fazer parte do sonho a fim de assinalar esse paralelo.O sonhador h muito se havia familiarizado com os requisitos da interpretao de sonhos. 
Outras pessoas talvez pudessem fazer objees a que detalhes to triviais, como o formato de uma mesa, se tornassem objeto de investigao. Na realidade, porm, 
no consideramos que algo seja casual ou indiferente em um sonho, e esperamos obter informaes precisamente a partir da explicao desses detalhes triviais e despropositados. 
Os senhores talvez tambm se sintam surpresos com o fato de que o pensamento de que 'a mesma coisa era verdadeira para ns e para eles' deveria ter sido expresso, 
em especial, pela escolha da forma da mesa [Tisch]. Isso, contudo, tambm se aclara quando os senhores se do conta de que o nome da famlia em questo era Tischler 
[literalmente, 'marceneiro']. Ao fazer seus parentes se sentarem a essa Tisch, ele estava dizendo que tambm eles eram Tischlers. Alis, os senhores observaro quo 
inevitavelmente se  levado a ser indiscreto ao referir essas interpretaes de sonhos. E percebero que essa  uma das dificuldades a que aludi na escolha dos exemplos. 
Poderia facilmente ter escolhido um outro exemplo em lugar deste, provavelmente; porm, eu apenas teria evitado tal indiscrio e iria cometer uma outra.Parece haver 
chegado o momento para eu introduzir dois termos que poderamos ter empregado h muito tempo. Descreveremos como contedo manifesto do sonho aquilo que a pessoa 
que sonhou realmente nos conta; e o material oculto, que esperamos encontrar acompanhando idias que lhe acodem  mente, chamaremos de pensamentos onricos latentes. 
Desse modo, consideramos aqui as relaes entre o contedo manifesto do sonho e os pensamentos onricos latentes conforme se mostrou nesses exemplos. Essas relaes 
podem ser de muitas espcies diferentes. Nos exemplos (a) e (b) o elemento manifesto tambm  um constituinte dos pensamentos latentes, embora sendo apenas uma pequena 
parte deles. Uma pequena poro da grande e complexa estrutura psquica dos pensamentos onricos inconscientes tambm conseguiu ter acesso ao sonho manifesto - um 
fragmento desses pensamentos ou, em outros casos, uma aluso aos mesmos, uma manchete, por assim dizer, ou uma abreviao em estilo telegrfico.  atribuio do 
trabalho de interpretao reunir esses fragmentos ou essa aluso para completar um todo - o que foi conseguido de modo especialmente preciso no caso do exemplo (b). 
Assim, uma forma da deformao que constitui a elaborao onrica  a substituio por um fragmento ou uma aluso. No exemplo (c) pode-se observar outro tipo de 
relao, alm deste; e a encontramos expressa em forma ainda mais pura e clara nos exemplos que se seguem.
         (d) O sonhador estava puxando uma mulher (determinada mulher, conhecida sua) de detrs de uma cama. Ele mesmo encontrou o significado desse elemento onrico, 
partindo da primeira idia que lhe ocorreu. Significava que estava manifestando sua preferncia por essa mulher.(e) Outro homem sonhou que seu irmo estava numa 
caixa [Kasten]. Em sua primeira resposta, 'Kasten' foi substituda por 'Schrank' [armrio], e a segunda deu a interpretao: seu irmo estava se restringindo ['schrnkt 
sich ein'].(f) O sonhador subia ao cume de uma montanha de onde se descortinava uma paisagem extraordinariamente ampla. Este sonho parece bastante racional e os 
senhores poderiam supor que no h o que interpretar nele, e que tudo quanto temos a fazer  interrogar sobre qual lembrana deu origem ao sonho e a razo de essa 
lembrana ter sido despertada. Enganar-se-iam porm. Verificou-se que este sonho estava carecendo de uma interpretao, tanto quanto qualquer outro mais confuso. 
Pois no foi de nenhuma escalada de montanha que o homem se recordou; na realidade, pensou em um conhecido seu, editor de uma 'Rundschau'. que tratava de nossas 
relaes com as mais distantes regies da Terra. Assim, o pensamento onrico latente era uma identificao desse homem com o 'Rundschauer'.Aqui temos um novo tipo 
de relao entre os elementos onricos manifesto e latente. O primeiro no  bem uma deformao do ltimo, e sim uma representao deste, um retrato plstico, e 
seu ponto de partida se localiza nas palavras. Contudo, precisamente por esse motivo ele , mais uma vez, uma deformao, porquanto de h muito temos esquecido de 
que imagem concreta a palavra se originou e, por conseguinte, deixamos de reconhec-la quando substituda pela imagem. Quando os senhores consideram que o sonho 
manifesto  constitudo predominantemente de imagens visuais e, mais raramente, de pensamentos e palavras, podem imaginar que importncia se atribui a esse tipo 
de relao na construo dos sonhos. Os senhores tambm vero que assim, em face de um grande nmero de pensamentos abstratos, se torna possvel criar quadros que 
funcionem como substitutos desses pensamentos no sonho manifesto, ao passo que simultaneamente se ajustam  finalidade de ocultar. Essa  a tcnica das conhecidas 
figuras enigmticas. Por que possuem essas figuras aparncia de serem brincadeiras,  um problema especial com o qual no precisamos nos envolver, por enquanto.Existe 
um quarto tipo de relao entre os elementos manifesto e latente, que devo continuar mantendo em segredo dos senhores at que cheguemos  sua palavra-chave ao tecermos 
consideraes sobre a tcnica. Mesmo assim no terei apresentado uma lista completa; porm, serve s nossas finalidades. Os senhores se sentem agora com coragem 
suficiente para se aventurarem a interpretar um sonho inteiro? Faamos a experincia, para verificar se estamos bem equipados para a tarefa. Naturalmente no selecionarei 
um dos mais obscuros; mesmo assim, ser um sonho que fornecer um quadro muito aproximado dos atributos de um sonho.Pois bem, vamos ao caso. Uma senhora que, embora 
ainda jovem, estava casada h muitos anos, teve o seguinte sonho: Ela estava no teatro com seu marido. Um lado da primeira fila de cadeiras estava completamente 
vazio. Seu marido lhe disse que Elise L. e seu noivo tambm tinham pretendido ir, porm s poderiam conseguir lugares ruins - trs por 1 florim e 50 kreuzers - e 
naturalmente no poderiam adquiri-los. Ela pensou que no teria sido realmente nenhum prejuzo se tivessem conseguido.A primeira coisa que essa senhora nos referiu 
foi que a causa precipitante do sonho residia em uma aluso do seu contedo manifesto. Seu marido realmente lhe havia falado que Elise L., que era aproximadamente 
da mesma idade dela, h pouco havia contratado casamento. O sonho era uma resposta a essa informao. J sabemos [ver em [1]] ser fcil, no caso de muitos sonhos, 
assinalar uma causa desencadeante como essa do dia anterior, e que a pessoa que sonhou muitas vezes  capaz de estabelec-la para ns sem qualquer dificuldade. Essa 
senhora, no presente caso, colocou  nossa disposio informaes semelhantes para outros elementos do sonho manifesto, tambm. - De onde veio o detalhe referente 
a estar vazio um dos lados das cadeiras? Era aluso a um evento real da semana anterior. Ela havia planejado ir assistir a determinada pea e por isso havia comprado 
seus ingressos com antecedncia - com tanta antecedncia, que teve de pagar uma taxa de reserva. Quando foram ao teatro, acabaram verificando que a pressa dela era 
bastante desnecessria, de vez que uma parte das cadeiras da primeira fila estava quase vazia. Teria sido suficiente a antecipao de comprar os ingressos se os 
tivesse adquirido no dia em que realmente se realizava a representao. Seu marido no deixou de gracejar com ela por ter tido tanta pressa. - Qual era a origem 
do 1 florim e 50 kreuzers? Surgiu de uma relao bem diferente, que nada tinha a ver com a anterior, mas que tambm aludia a algumas informaes do dia anterior. 
Sua cunhada recebera de presente 150 florins de seu marido e tinha tido muita pressa - a tola - de correr a uma joalheria e trocar o dinheiro por uma pea de bijuteria. 
- De onde veio o 'trs'? Ela no conseguia pensar em nada referente a isso, at que levamos em conta a idia de que Elise L., sua amiga, que noivara recentemente, 
era s trs meses mais nova que ela, embora ela prpria estivesse casada h dez anos, aproximadamente. - E a idia absurda de adquirir trs ingressos para apenas 
duas pessoas? Ela nada tinha a dizer quanto a isso, e no quis referir mais nenhuma idia ou informao.
         De qualquer modo, porm, ela nos havia fornecido tanto material nessas poucas associaes, que foi possvel, a partir destas, entrever os pensamentos onricos 
latentes. No pode deixar de chamar-nos a ateno o fato de ocorrerem perodos de tempo em diversos pontos das informaes que nos deu sobre o sonho, e esses pontos 
proporcionam um denominador comum das diferentes partes do material. Ela adquiriu os ingressos para o teatro cedo demais, comprou-os superapressadamente, tendo de 
pagar mais do que o necessrio; assim, tambm sua cunhada estivera com pressa de levar seu dinheiro  joalheria e com ele comprar bijuteria, como se, de outra maneira, 
fosse perd-lo. Se, alm do 'cedo demais' e do 'com pressa' que nos chamaram a ateno, tomamos em considerao a causa desencadeante do sonho - a notcia de que 
sua amiga, embora somente trs meses mais nova do que ela, tinha, no obstante, conseguido um excelente marido - e a crtica a sua cunhada, expressa na idia de 
que era absurdo ela estar com tanta pressa, ento se nos apresenta quase espontaneamente a seguinte construo dos pensamentos onricos latentes, dos quais o sonho 
manifesto  um substituto acentuadamente deformado:
         'Realmente, foi absurdo de minha parte ter tanta pressa de casar! Posso ver, pelo exemplo de Elise, que tambm eu podia arranjar um marido, mais tarde.' 
(Estar com pressa demais foi representado por sua prpria conduta de comprar os ingressos e pela conduta de sua cunhada, de comprar a bijuteria. Ir ver a pea pareceu 
um substituto de casar.) Pareceria ser esse o pensamento principal. Talvez possamos ir adiante, embora com menos certeza, pois a anlise no deveria prescindir dos 
comentrios da pessoa que sonhou, nos seguintes pontos: 'E eu poderia ter conseguido um, cem vezes melhor, com o dinheiro!' (150 florins  cem vezes mais do que 
1,50 florim.) No caso de colocarmos seu dote em lugar do dinheiro, significaria que seu marido foi comprado com o dote dela: a pea de bijuteria, assim como os ingressos 
ruins, seriam substitutos de seu marido. Seria ainda mais satisfatrio se o elemento real 'trs ingressos' tivesse algo a ver com seu marido. [ver adiante, em [1] 
e [2].] No entanto, at esse ponto ainda no chegamos, por enquanto, em nossa compreenso do sonho. Descobrimos apenas que o sonho expressa o reduzido valor atribudo 
por ela a seu marido e seu pesar por ter casado to cedo.
         Imagino que ficaremos mais surpresos e confusos do que satisfeitos com o resultado dessa primeira interpretao de sonho. Foi-nos dado demais numa primeira 
dose - mais do que somos capazes de enfrentar. J podemos ver que no esgotaremos as lies dessa interpretao de um sonho. Apressemo-nos a separar aquilo que podemos 
reconhecer como novas descobertas firmadas:
         Em primeiro lugar,  algo notvel a nfase principal dos pensamentos latentes residir no elemento 'estar com pressa demais'; nada disso se pode encontrar 
no sonho manifesto. Sem a anlise, no suspeitaramos de que esse fator desempenhasse algum papel. Parece, portanto, que no sonho manifesto  possvel estar ausente 
aquilo que de fato constitui coisa principal, o centro dos pensamentos inconscientes. Isso significa que deve ser fundamentalmente modificada a concepo que tivemos 
do sonho inteiro. Em segundo lugar, no sonho existe uma combinao absurda: trs por 1,50 florim. Detectamos nos pensamentos onricos a afirmao de que 'foi absurdo 
(casar to cedo)'. Pode haver dvida de que idia 'foi absurdo'  representada pela incluso de um elemento absurdo no sonho manifesto? E, em terceiro lugar, uma 
rpida comparao nos mostra que a relao entre os elementos manifesto e latente no  uma relao simples; est longe de ser o caso o fato de um elemento manifesto 
sempre estar no lugar de um elemento latente. Antes, o que existe  uma relao de conjunto entre as duas camadas, dentro da qual um elemento manifesto pode substituir 
diversos elementos latentes, ou um elemento latente pode ser substitudo por diversos elementos manifestos. [ver adiante em [1].]
         No que concerne ao significado do sonho e  atitude da sonhadora para com este, bem poderamos classific-lo de igualmente surpreendente. Realmente, ela 
concordou com a interpretao, porm estava assombrada com ela. No tinha conscincia de como era reduzido o valor que atribua a seu marido; e nem sabia por que 
tinha de desvaloriz-lo tanto. Assim, a este respeito muita coisa ainda existe por compreender. Com efeito, parece-me que ainda no estamos aparelhados para interpretar 
um sonho, e que primeiro necessitamos receber mais alguns conhecimentos e preparao.
         
         CONFERNCIA VIII - SONHOS DE CRIANAS
         
         SENHORAS E SENHORES:
         Tenho a impresso de que progredimos depressa demais. Retrocedamos um pouco. Antes de empreendermos a anterior tentativa de vencer a dificuldade da deformao 
em sonhos com o auxlio de nossa tcnica, dissemos [ver em [1]] que a melhor forma de proceder nesse caso seria contornar a dificuldade, atendo-nos a sonhos em que 
no havia deformao, ou apenas pouca deformao - caso existam tais sonhos. Uma vez mais isso significar um desvio em relao  evoluo histrica de nossas descobertas 
[ver em [1]]; porque, na verdade, s aps a tcnica de interpretao ter sido coerentemente aplicada e os sonhos deformados terem sido completamente analisados, 
 que percebemos haver sonhos livres de deformao.Os sonhos que estamos buscando ocorrem em crianas. So breves, claros, coerentes, fceis de entender, sem ambigidade; 
no obstante, so sonhos indubitavelmente. Os senhores, porm, no devem supor que todos os sonhos de crianas sejam desse tipo. A deformao onrica j inicia bem 
no incio da infncia, e tm sido relatados sonhos sonhados por crianas entre 5 e 8 anos que possuem todas as caractersticas de sonhos de idade maior. Entretanto, 
se os senhores se limitarem  faixa etria entre o incio da atividade mental observvel e o quarto ou quinto ano, encontraro numerosos sonhos portadores das caractersticas 
que se podem descrever como 'infantis', e alguns outros do mesmo tipo em anos posteriores da infncia. Na verdade, sob certas condies, os prprios adultos tm 
sonhos que em muito se assemelham aos sonhos tipicamente infantis.Desses sonhos de crianas podemos tirar concluses, com grande facilidade e certeza, a respeito 
do carter essencial dos sonhos em geral, e podemos esperar que essas concluses sejam comprovadas como decisivas e universalmente vlidas.(1) Nenhuma anlise, nenhuma 
aplicao de qualquer tcnica  necessria para compreender esses sonhos. No h necessidade de indagar a uma criana que nos conta seu sonho. No entanto, h que 
acrescentar ao sonho alguma parcela de informao proveniente de eventos da vida da criana. Invariavelmente existe alguma vivncia do dia anterior que nos explica 
o sonho. O sonho  a reao, durante o sono, da vida mental da criana  experincia que teve no dia precedente.
         Tomaremos alguns exemplos, nos quais basearemos nossas demais concluses.
         (a) Um menino de 2 anos foi solicitado a entregar a algum uma cesta de cerejas como presente de aniversrio Obviamente, ele estava muito relutante em faz-lo, 
embora lhe houvessem prometido que ganharia algumas das cerejas. Na manh seguinte, contou que havia sonhado: 'O Hermann comeu todas as cerejas!'
         (b) Uma menina de 3 anos e 3 meses fez a travessia de um lago, pela primeira vez. No local de desembarque, no queria deixar o barco e chorava desconsoladamente. 
A travessia tinha sido curta demais para ela. Na manh seguinte anunciou: 'Noite passada, eu andei no lago.' Seguramente podemos acrescentar que essa travessia tinha 
durado mais tempo.
         (c) Um menino de 5 anos e 3 meses foi levado a uma excurso ao Echerntal, perto de Hallstatt. Tinha-lhe sido dito que Hallstatt ficava no sop do Dachstein. 
Tinha mostrado grande interesse por essa montanha. De onde ele estava, em Aussee, havia uma linda vista da montanha e o Simony Hut, que a encimava, podia ser reconhecido 
atravs de um telescpio. A criana muitas vezes procurava v-lo atravs do telescpio - se o conseguiu, no se sabe. A excurso comeou em clima de alegre expectativa. 
Sempre que uma nova montanha surgia aos seus olhos, a criana perguntava: ' aquele o Dachstein?' e foi ficando mais e mais deprimida cada vez que lhe diziam que 
no. Por fim, ficou completamente calado e se recusou a prosseguir com o resto do grupo na curta subida da cachoeira; acharam que devia estar exausto. Na manh seguinte, 
porm, com a fisionomia radiante, falou assim: 'Na noite passada sonhei que ns estvamos no Simony Hut.' Assim, fora isso que esperava obter da excurso. No deu 
outros detalhes, salvo algo que tinha ouvido antes: 'Voc tem que subir a p, durante seis horas.'Estes trs sonhos nos fornecero todas as informaes de que necessitamos.(2) 
Como podemos ver, esses sonhos de crianas no so absurdos. So atos mentais inteligveis, completamente vlidos. Os senhores recordaro o que eu lhes disse da 
opinio mdica a respeito de sonhos e da analogia com dedos sem experincia musical passeando sobre as teclas de um piano [ver em [1]]. No podem deixar de observar 
quo nitidamente esses sonhos de crianas contradizem tal opinio. De fato, seria por demais estranho se as crianas pudessem executar atos mentais completos, em 
seu sono, enquanto os adultos se contentassem, sob as mesmas condies, com reaes que no fossem nada mais que 'repuxes'. Ademais, temos toda a razo ao pensar 
que o sono das crianas  mais eficaz e profundo.
         (3) Esses sonhos no apresentam qualquer deformao onrica e, por conseguinte, no exigem nenhuma atividade interpretativa. Neles, o sonho manifesto e 
o latente coincidem. Assim, a deformao onrica no faz parte das caractersticas essenciais do sonho. Espero que isso alivie os senhores. Porm, quando examinarmos 
esses sonhos mais detidamente, reconheceremos, mesmo neles, uma pequena parcela de deformao onrica, determinada diferena entre o contedo manifesto do sonho 
e os pensamentos onricos latentes.
         (4) Um sonho de uma criana  uma reao a uma experincia do dia precedente, a qual deixou atrs de si uma mgoa, um anelo, um desejo que no foi satisfeito. 
O sonho proporciona uma satisfao direta, indisfarada, desse desejo. Recordemos, agora, nossas discusses sobre o papel que desempenham os estmulos somticos 
de fora e de dentro como perturbadores do sono e provocadores dos sonhos [ver em [1] e segs.]. Nessa conexo vimos a conhecer alguns fatos incontestes, mas, por 
meio destes, apenas nos capacitamos a explicar um reduzido nmero de sonhos. Nesses sonhos de crianas, entretanto, no h nada que assinale a atuao de estmulos 
somticos dessa espcie; nisso no poderamos estar equivocados, pois os sonhos so completamente inteligveis e fceis de apreender. Porm, isso no significa que 
devemos abandonar a questo do estmulo na etiologia do sonho. Podemos apenas nos perguntar como pde acontecer que, desde o incio, esquecessemos que, alm dos 
estmulos somticos, existem estmulos mentais que perturbam o sono. Afinal de contas, sabemos que excitaes dessa natureza so os principais responsveis pela 
perturbao do sono em um adulto, impedindo-o de estabelecer o estado de esprito requerido para o adormecer - o interesse em ser retirado do mundo. Ele no deseja 
interromper a vida; de preferncia, continuaria seu trabalho com as coisas nas quais est interessado, e por essa razo no adormece. No caso de crianas, portanto, 
o estmulo mental - o desejo que no foi satisfeito - e  a isso que reagem com o sonho.
         (5) Isso nos abre o caminho mais direto para a compreenso da funo do sonho. Na medida em que um sonho  uma reao a um estmulo psquico, deve equivaler 
a um manejo do estmulo de maneira tal que este seja eliminado e o sono possa continuar. Ainda no sabemos como esse manejo do estmulo pelo sonho se torna possvel, 
dinamicamente; porm, j estamos verificando que os sonhos no so perturbadores do sono, como erroneamente so denominados, mas guardies do sono que eliminam as 
perturbaes do sono. Pensamos que deveramos dormir melhor se no houvesse sonho, porm nos equivocamos; de fato, sem o auxlio do sonho, no poderamos, absolutamente, 
ter dormido.  devido a isso que dormimos bem ou mal. O sonho no pode evitar de nos perturbar um pouco, da mesma maneira como um vigia noturno muitas vezes no 
pode evitar de fazer um pequeno rudo quando persegue os perturbadores do sossego que procuram acordar-nos com seu barulho.
         (6) O que origina um sonho  um desejo, e a satisfao deste desejo constitui o contedo do sonho - esta  uma das caractersticas principais dos sonhos. 
A outra, igualmente constante,  que um sonho no apenas confere expresso a um pensamento, mas tambm representa o desejo sendo satisfeito sob a forma de uma experincia 
alucinatria. 'Gostaria de ir ao lago'  o desejo que origina o sonho. O contedo do sonho propriamente dito : 'Estou indo ao lago.' Portanto, mesmo nesses simples 
sonhos de crianas, h uma diferena entre o sonho latente e sonho manifesto, h uma distoro do pensamento onrico latente: a transformao de um pensamento em 
uma vivncia. No processo de interpretar um sonho, essa alterao necessita, primeiro, ser desfeita. Se tal vier a revelar-se como a caracterstica mais universal 
dos sonhos, a parte de sonho que lhes referi anteriormente [ver em [1]] 'Vi meu irmo em uma caixa [Kasten]' no deve ser traduzida como 'meu irmo est se restringindo 
[schrnkt sich ein]', e sim como 'Eu gostaria que meu irmo se restringisse: meu irmo deve restringir-se.' Das duas caractersticas gerais dos sonhos, que agora 
apresentei, a segunda tem melhor perspectiva de ser aceita sem oposio, do que a primeira.  apenas por meio de exaustivas investigaes que podemos estabelecer 
o fato de que a origem dos sonhos deve ser sempre um desejo, no uma preocupao, uma inteno ou uma censura; isso, porm, no afetar a outra caracterstica: a 
de que o sonho no faz simplesmente reproduzir esse estmulo, mas remove-o, elimina-o, maneja-o, atravs de um tipo de vivncia. 
         (7) Com base nestas caractersticas dos sonhos podemos voltar, mais uma vez, a uma comparao entre sonho e parapraxia. Nesta, distinguimos entre uma inteno 
perturbadora e uma inteno perturbada [ver em [1] e segs.], sendo a parapraxia uma conciliao das duas. Um sonho pode se ajustar ao mesmo modelo. A inteno perturbada 
s pode ser a de dormir. Podemos substituir a inteno perturbadora pelo estmulo psquico, quer dizer, pelo desejo que pressiona por ser manejado, de vez que at 
o momento no tomamos conhecimento de nenhum outro estmulo psquico que perturbe o sono. Tambm aqui, o sonho  o resultado de uma conciliao. Dorme-se, e, no 
obstante, se vivencia a remoo de um desejo, satisfaz-se um desejo, porm, ao mesmo tempo, continua-se a dormir. Ambas as intenes so em parte realizadas e em 
parte abandonadas.
         (8) Os senhores estaro lembrados de que, em certa passagem [ver em [1] e [2]], tnhamos a esperana de nos aproximarmos da compreenso dos problemas dos 
sonhos a partir de determinadas estruturas imaginativas, muito simples de examinar, conhecidas como 'devaneios'. Ora, esses devaneios so, na realidade, satisfaes 
de desejos, satisfaes de ambies e de desejos erticos que nos so bem conhecidos; porm constituem pensamento, ainda que vividamente imaginado, e jamais so 
experimentados sob a forma de alucinaes. Das duas principais caractersticas dos sonhos, ento, a menos constante  aqui preservada, ao passo que a outra est 
totalmente ausente, visto depender do estado de sono e no poder realizar-se no estado de viglia. O uso idiomtico, por conseguinte, encerra uma noo do fato de 
que a satisfao de desejos  uma caracterstica principal dos sonhos. Diga-se de passagem, se nossa vivncia nos sonhos  apenas um tipo modificado de imaginao 
que se tornou possvel devido s condies do estado de sono - isto , um 'devanear noturno' - j podemos compreender como o processo de construo de um sonho pode 
utilizar o estmulo noturno e proporcionar satisfao, visto que o devaneio tambm  uma atividade vinculada  satisfao, e, na verdade, somente  exercido por 
esse motivo.
         Outros usos idiomticos, contudo, expressam o mesmo sentido. Existem provrbios conhecidos, como 'Os porcos sonham com bolotas de carvalho e os gansos sonham 
com milho' ou 'Com que sonham as galinhas? - Com milho.' Assim, os provrbios descem mais ainda do que ns - abaixo das crianas, at os animais - e afirmam que 
o contedo dos sonhos  a satisfao de uma necessidade. Numerosas expresses idiomticas parecem apontar na mesma direo: 'lindo como um sonho', 'eu nem sonharia 
uma coisa dessas', 'no imaginei isso nem nos meus sonhos mais ousados'. Neste ponto, o uso idiomtico est tomando partido, evidentemente. Tanto que existem tambm 
sonhos de ansiedade, e sonhos de contedo penoso ou indiferente; porm o uso idiomtico permaneceu indiferente a eles.  verdade que se conhece o que se chama de 
'sonhos maus', mas um sonho , pura e simplesmente, apenas a doce realizao de um desejo. E no existe nenhum provrbio que nos afirme que os porcos e os gansos 
sonham com sua matana.
          naturalmente inconcebvel que a realizao de desejos, caracterstica dos sonhos, no tivesse sido percebida por pessoas que escreveram sobre o assunto. 
Pelo contrrio, muitas vezes foi percebida; contudo, a ningum ocorreu a idia de reconhecer esta caracterstica como sendo universal e transform-la em ponto capital 
da explicao dos sonhos. Bem podemos imaginar o que impediu de faz-lo; entraremos no assunto mais adiante.
         Mas vejam quantos esclarecimentos obtivemos ao examinarmos sonhos de crianas, e com to pouco esforo o conseguimos: as funes dos sonhos, na qualidade 
de guardies do sono; sua origem situada em duas intenes concorrentes, uma das quais, o desejo de dormir, permanece inalterada, ao passo que a outra luta por satisfazer 
um estmulo psquico; a evidncia de que os sonhos so atos psquicos com um sentido; suas duas principais caractersticas: realizao de desejos e vivncia alucinatria. 
E, ao descobrir tudo isso, quase seramos capazes de esquecer que estvamos comprometidos com a psicanlise.  parte a relao com as parapraxias, nosso trabalho 
no leva nenhum sinal especial. Qualquer psiclogo, nada conhecendo dos postulados da psicanlise, teria conseguido dar-nos essa explicao dos sonhos de crianas. 
Por que no o fez?
         Se os sonhos do tipo infantil fossem os nicos, o problema estaria resolvido e nossa tarefa terminada; e isso sem termos de fazer perguntas quele que sonhou, 
sem tocarmos no inconsciente ou recorrermos  associao livre.  a, evidentemente, que se situa a continuao de nossa tarefa. J verificamos repetidamente que 
as caractersticas que se afirmava serem de validade geral, terminaram aplicando-se apenas a um determinado tipo e a um determinado nmero de sonhos. A questo que 
se nos apresenta, portanto,  saber se as caractersticas gerais que inferimos dos sonhos de crianas possuem uma base mais firme, se elas so vlidas tambm para 
sonhos que no so to transparentemente ntidos e cujo contedo manifesto no apresenta qualquer sinal de estar relacionado a algum desejo, remanescente do dia 
anterior.  nossa opinio que esses outros sonhos sofreram uma deformao em profundidade e, por este motivo, no podem ser avaliados  primeira vista. Tambm suspeitamos 
que, para explicar essa deformao, necessitaremos da tcnica psicanaltica, da qual pudemos prescindir quando tratvamos de entender, ainda h pouco, os sonhos 
de crianas.
         Em todo caso, ainda h uma outra classe de sonhos que se apresentam no-deformados e que, como os sonhos de crianas, facilmente podem ser reconhecidos 
como realizaes de desejos. Estes so os sonhos que, em qualquer poca da vida, so suscitados por necessidades corporais imperiosas - fome, sede, necessidade sexual 
-, isto , so realizaes de desejos sob a forma de reaes a estmulos somticos internos. Assim, tenho anotado um sonho de uma menina de dezenove meses, que consistia 
em um cardpio ao qual se ligava seu prprio nome. 'Anna F.' morangos, morangos silvestres, omelete, pudim!' Isso era uma reao a um dia sem comida, devido a um 
distrbio digestivo; este realmente se tinha originado na ingesto da fruta que apareceu por duas vezes no sonho. A av da criana - suas idades somadas perfaziam 
setenta anos - simultaneamente foi obrigada a privar-se de alimentos por um dia inteiro, devido um distrbio ocasionado por um rim flutuante. Ela sonhou, na mesma 
noite, que havia sido 'convidada para comer fora' e que fora regalada com as mais apetitosas iguarias.
         Observaes levadas a cabo com prisioneiros que foram forados a jejuar e com pessoas que estiveram sujeitas a privaes em viagens e exploraes, nos ensinam 
que, sob essas condies, os sonhos regularmente se centram na satisfao de tais necessidades. Assim, Otto Nordenskjld (1904, 1, 336 e seg.) escreve, da seguinte 
maneira, a respeito dos membros de sua expedio, enquanto atravessavam o inverno na Antrtida: 'A direo tomada por nossos pensamentos mais ntimos mostrava-se 
claramente em nossos sonhos, que nunca foram mais vvidos nem mais numerosos do que nesta poca. Mesmo aqueles de ns, que de outro modo sonhavam apenas de vez em 
quando, tinham longas histrias para contar, quando chegava a manh, ocasio em que trocvamos experincias desse mundo da imaginao. Todos diziam respeito ao mundo 
exterior, agora to distante de ns, embora todas elas muitas vezes estivessem adaptadas a nossas circunstncias reais... No entanto, comer e beber eram o ponto 
central ao redor do qual giravam, no mais das vezes, os nossos sonhos. Um de ns, que tinha um dom especial para participar de grandes banquetes durante a noite, 
se sentia orgulhoso de poder contar, de manh, que tinha "devorado um jantar de trs pratos". Um outro sonhava com fumo, com montanhas inteiras de fumo; enquanto 
isso, um terceiro sonhava com um navio que se aproximava, de velas enfunadas, em mar aberto. Mas, esse outro sonho, vale a pena repeti-lo. Um carteiro trazia a correspondncia 
e dava uma longa explicao do motivo pelo qual tivramos que esperar tanto tempo pela correspondncia: ele a havia despachado para o endereo errado e s pudera 
recuper-la com grande dificuldade. Naturalmente, sonhvamos com coisas ainda mais impossveis. Mas havia uma falta muito grande de imaginao, evidenciada por quase 
todos os sonhos que eu prprio sonhei, ou de que ouvi falar. Certamente seria de grande interesse psicolgico se todos esses sonhos pudessem ser registrados. E facilmente 
se pode compreender quanto desejvamos o sono, pois este podia oferecer a cada um de ns tudo o que mais ardentemente era desejado.' Assim tambm, de acordo com 
Du Prel [1885, 231], 'Mungo Park, quando estava a ponto de morrer de sede, em uma de suas viagens pela frica, sonhava incessantemente com os vales ricamente irrigados 
e com as campinas de sua terra natal. Em forma semelhante, o baro Trenck, sofrendo os tormentos da fome,  poca em que esteve encarcerado na fortaleza de Magdeburg, 
sonhava que se via rodeado de refeies abundantes; e George Back, que tomou parte na primeira expedio de Franklin, quando estava quase morrendo de inanio em 
conseqncia de suas terrveis privaes, sonhava constante e regularmente com lautas refeies.'
         Todo aquele que come algum prato altamente condimentado no jantar e sente sede durante a noite, provavelmente sonha que est bebendo. Naturalmente,  impossvel 
desfazer-se de uma necessidade muito premente de comer e beber, por meio de um sonho. Acorda-se de um sonho dessa natureza ainda com a sensao de sede e tem-se 
de tomar gua, realmente. O efeito produzido pelo sonho  insignificante, neste caso, sob o ponto de vista prtico; no obstante,  evidente que ele aconteceu com 
o objetivo de despertar e fazer agir. Quando a necessidade no  to intensa, os sonhos de satisfao de necessidades amide ajudam a super-las.
         Da mesma forma, proporcionam satisfao os sonhos sob a influncia de estmulos sexuais; contudo, estes mostram particularidades que convm mencionar. Como 
constitui caracterstica do instinto sexual ser um pouco menos dependente do seu objeto do que a fome e a sede, pode constituir uma satisfao real aquela que advm 
de sonhos de ejaculao; e, como conseqncia de determinadas dificuldades (que terei de mencionar mais adiante) em sua relao com o objeto, acontece, com especial 
freqncia, que a satisfao real , ainda assim, vinculada a um obscuro ou distorcido contedo do sonho. Essa caracterstica dos sonhos de ejaculao (como foi 
assinalado por Otto Rank [1912a]) faz deles assunto especialmente favorvel ao estudo da deformao onrica. Ademais, todos os sonhos de adultos, originrios em 
necessidades corporais, geralmente contm junto com a satisfao um outro material; este deriva de fontes de estimulao puramente psquicas e exige interpretao 
para que possa ser compreendido.Alm disso, no desejo afirmar que os sonhos de realizao de desejos, em adultos, construdos segundo padres infantis, somente 
aparecem como reaes a necessidades imperiosas, que mencionei. Conhecemos tambm sonhos breves, claros, do tipo que, sob a influncia de alguma situao dominante, 
inquestionavelmente se originam em fontes psquicas de estimulao. Existem, por exemplo, sonhos de impacincia: se algum fez preparativos para uma viagem, para 
uma representao teatral importante para ele, para ir a uma conferncia, ou fazer uma visita, pode sonhar com uma satisfao antecipada de sua expectativa; durante 
a noite anterior ao evento, poder ver-se a si mesmo chegando ao seu destino, presente no teatro, em conversao com a pessoa que vai visitar. Existem, ainda, aqueles 
que so apropriadamente chamados de sonhos de convenincia, nos quais uma pessoa que deseja dormir mais, sonha que j est de p e se lavando, ou que j est na 
escola, ao passo que, na realidade, ainda est dormindo e preferiria levantar-se num sonho a faz-lo na realidade. O desejo de dormir, que temos reconhecido como 
um dos constantes componentes da construo dos sonhos, aparece abertamente nesses sonhos e se revela como o principal construtor onrico. Existem bons motivos para 
situar a necessidade de dormir em condies de igualdade com as outras grandes necessidades corporais.Aqui est uma reproduo de um quadro de Schwind, exposto na 
Galeria Schack, de Munique [ver frontispcio], que mostra com que perfeio o artista captou a maneira como os sonhos surgem da situao dominante. Seu ttulo  
'O Sonho do Prisioneiro', um sonho cujo contedo s pode ser sua fuga. Constitui uma soluo feliz dar-se sua fuga atravs da janela, porque  o estmulo da luz 
entrando pela janela que pe fim ao sono do prisioneiro. Os gnomos, que esto subindo um em cima do outro, sem dvida representam as posies sucessivas que ele 
prprio teria de tomar,  medida que subisse at o nvel da janela. E, se no me engano, e se no estou atribuindo demasiada deliberao ao artista, o gnomo que 
se situa mais em cima, que est serrando as grades - isto , que est fazendo o que o prisioneiro gostaria de fazer - tem semblante igual ao deste.Em todos os sonhos 
que no sejam os de crianas nem os de tipo infantil, nosso caminho, como disse, est obstrudo pela deformao onrica. De incio, no podemos dizer se esses outros 
sonhos tambm so realizaes de desejos conforme suspeitamos, no podemos determinar, a partir do seu contedo manifesto, a que estmulo psquico devem sua origem, 
e no podemos provar que tambm eles se esforam por eliminar esse estmulo, ou, de algum modo, manej-lo. Devem ser interpretados - isto , traduzidos -, sua deformao 
deve ser desfeita, e seu contedo manifesto substitudo pelo contedo latente antes de podermos julgar se aquilo que encontramos nos sonhos infantis pode ser considerado 
vlido para todos os sonhos.
         
         CONFERNCIA IX - A CENSURA DOS SONHOS
         
         SENHORAS E SENHORES:
         O estudo dos sonhos de crianas nos ensinou a origem, a natureza essencial e a funo dos sonhos. Os sonhos so coisas que eliminam, pelo mtodo da satisfao 
alucinatria, estmulos (psquicos) perturbadores do sono. No entanto, conseguimos explicar apenas um grupo dos sonhos de adultos - aqueles que descrevemos como 
sonhos de tipo infantil. O que se passa com os demais, ainda no sabemos dizer, contudo tambm no os entendemos. Assim mesmo, chegamos a um dado provisrio cuja 
importncia no devemos subestimar. Sempre que um sonho se nos tornou inteiramente inteligvel, veio a se revelar como realizao de um desejo em forma alucinatria. 
Essa coincidncia no pode ter surgido do acaso, deve ter um significado.Com base em consideraes diversas e na analogia com nossa opinio acerca das parapraxias, 
supusemos, a propsito de sonhos de uma outra espcie [ver em [1] e seg.], que eles seriam um substituto deformado de um contedo desconhecido, e que a primeira 
coisa seria correlacion-los com esse contedo. Nossa tarefa imediata, portanto, consiste em uma investigao que nos leva a compreender essa deformao nos sonhos.Deformao 
onrica  aquilo que faz com que um sonho nos parea estranho e ininteligvel. A respeito dela queremos saber diversas coisas: primeiro, de onde vem - sua dinmica 
- ; segundo, o que faz; e, por ltimo, como faz. Tambm podemos dizer que a deformao onrica  obra da elaborao onrica;  necessrio descrevermos a elaborao 
onrica e explicarmos as foras que nela operam.E agora, ouam este sonho. Foi registrado por uma senhora pertencente ao nosso grupo, e, conforme ela nos conta, 
provm de uma senhora de idade avanada, altamente conceituada e instruda. No foi feita nenhuma anlise do sonho; nossa informante observa que para um analista 
ele no requer interpretao. E a pessoa que o sonhou tambm no o interpretou, porm o julgou e o condenou como se compreendesse a maneira de interpret-lo; pois, 
a respeito do mesmo, ela disse: 'E uma coisa chocante e estpida como esta foi sonhada por uma mulher de cinqenta anos, que dia e noite no tem outros pensamentos 
seno os de se preocupar com seu filho!'Aqui, pois, est o sonho - que trata de 'servios de amor' em poca de guerra. 'A paciente dirigiu-se ao Hospital da Guarnio 
N 1 e informou ao sentinela do porto que precisava falar com o Chefe do Servio Mdico (mencionando um nome que lhe era desconhecido) visto desejar oferecer seus 
servios como voluntria no hospital. Ela pronunciou a palavra "servio" de tal forma, que o sub-oficial imediatamente compreendeu que ela queria dizer "servio 
de amor". Como se tratava de uma senhora idosa, aps alguma hesitao, permitiu que ela passasse. Em vez de encontrar o Chefe do Servio Mdico, contudo, chegou 
ela a um aposento grande e sombrio no qual estava grande nmero de oficiais e mdicos do exrcito, alguns de p e outros sentados em torno de uma longa mesa. Aproximou-se 
de um cirurgio da equipe com o seu pedido, e ele compreendeu o que ela queria dizer depois de ter esta pronunciado apenas algumas palavras. O fraseado real de seu 
discurso no sonho foi: "Eu e muitas outras mulheres e moas de Viena estamos prontas para..." nesta altura do sonho, suas palavras se transformaram num sussurro 
ininteligvel "...para as tropas - oficiais e outras patentes, sem distino." Ela pde compreender pela expresso do rosto dos oficiais em parte com uma expresso 
de constrangimento e em parte de malcia que todos haviam compreendido suas palavras corretamente. Prosseguiu a senhora: "Estou cnscia de que nossa deciso pode 
parecer surpreendente, mas nossa inteno  realmente sria. Ningum pergunta a um soldado no campo de batalha se ele deseja morrer ou no." Seguiu-se um incmodo 
silncio de alguns minutos. O mdico ps ento um brao em torno de sua cintura e disse: 'Suponha, madame, que isso realmente viesse a... (murmrio)." Ela afastou-se 
dele dizendo com os seus botes: "Ele  como todos os demais", e retrucou: "Deus do Cu, sou uma velha e nunca poderia chegar a esse ponto. Alm disso, h uma condio 
que deve ser observada: idade deve ser respeitada. Jamais deve acontecer que uma mulher idosa... (murmrio) ... um mero garoto. Isso seria terrvel." "Compreendo 
perfeitamente", respondeu o mdico. Alguns dos oficiais, e entre eles um que tinha sido pretendente  sua mo quando ela era jovem, riram alto. A seguir, a senhora 
pediu para ser levada  presena do Chefe do Servio Mdico, pessoa do seu conhecimento, de modo que todo o assunto pudesse ser deslindado, mas verificou, para sua 
consternao que no podia recordar-lhe o nome. No obstante, o mdico, com o mximo de cortesia e respeito, indicou-lhe o caminho at o segundo andar por uma escada 
de ferro em caracol muito estreita, que conduzia diretamente da sala at aos andares superiores do edifcio. Quando subia, ouviu um oficial dizer: "Essa  uma tremenda 
deciso a tomar - no importa que uma mulher seja moa ou velha! Belo gesto o dela!" Sentindo simplesmente que estava cumprindo com seu dever ela subiu por uma interminvel 
escada.''O sonho se repetiu por duas vezes no decurso de poucas semanas, conforme comentou a senhora, com apenas algumas modificaes sem importncia e carentes 
de sentido.'Por sua continuidade, este sonho se assemelha a uma fantasia diurna: nele h poucas interrupes, e alguns dos detalhes de seu contedo poderiam ter 
sido explicados se tivessem sido investigados; porm, como sabem, isto no foi feito. Do nosso ponto de vista, contudo, o que  notvel e interessante  que o sonho 
apresenta diversas lacunas - lacunas no na memria da mulher que o sonhou, mas no contedo do prprio sonho. Em trs pontos o contedo do sonho foi, por assim dizer, 
extinto; onde ocorrerem essas lacunas o falar foi interrompido por um murmrio. Como no foi realizada nenhuma anlise, estritamente falando, no temos o direito 
de dizer algo sobre o sentido do sonho. No obstante, h indcios nos quais podem se fundamentar determinadas concluses (por exemplo, na expresso 'servio de amor'); 
porm, acima de tudo, as partes do discurso imediatamente anteriores aos murmrios exigem que sejam preenchidas as lacunas, e de forma nada ambgua. Ao fazermos 
as inseres, o contedo da fantasia se revela como sendo o seguinte: a mulher que teve o sonho, atendendo a uma obrigao patritica, est apta a colocar-se  disposio 
das tropas, tanto de oficiais como de outras categorias, para satisfao das necessidades erticas dos mesmos. Naturalmente, isso  muito censurvel,  o modelo 
de uma fantasia libidinal desavergonhada - tal, porm, absolutamente no aparece no sonho. Precisamente nos pontos onde o contexto exigiria que isso fosse admitido, 
o sonho manifesto contm um murmrio indistinto: algo se perdeu ou foi suprimido.
         Os senhores pensaro, assim espero, que seja plausvel supor que foi justamente a natureza censurvel dessas passagens que constituiu o motivo de sua supresso. 
Onde encontraremos um paralelo de tal evento? Nos dias atuais, no  preciso ir longe. Tomem qualquer jornal poltico e verificaro que aqui e ali o texto est ausente 
e, em seu lugar, no se v nada mais que papel em branco. Isto, como sabem,  obra da censura da imprensa. Nos espaos vazios havia algo que s agradou s autoridades 
superiores da censura, e por este motivo foi removido -  uma pena, como vem, pois sem dvida era o que de mais interessante havia no jornal - o 'melhor pedao'.
         Noutras ocasies a censura no funcionou em uma passagem depois de esta j estar pronta. O autor viu com antecedncia quais as passagens que se podia esperar 
suscitassem objees da censura e, por esta causa, antecipadamente moderou o tom das mesmas, modificou-as ligeiramente ou se contentou com aproximaes ou aluses 
quilo que originalmente teria fluido de sua pena. Neste caso, no h espaos em branco no papel, contudo as circunlocues e obscuridades de expresso que aparecem 
em certos pontos, possibilitaro aos senhores perceber onde houve prvio acatamento  censura.
         Pois bem, podemos manter esta comparao. Pensamos que as partes omitidas do discurso do sonho, que foram ocultadas por um murmrio, de forma semelhante 
foram sacrificadas a uma censura. Queremos nos referir a uma 'censura de sonhos',  qual se deve atribuir uma parcela da deformao onrica. Em qualquer parte onde 
existem lacunas no sonho manifesto, a censura  responsvel por elas. Devemos ir mais adiante e considerar como manifestao da censura toda passagem em que um elemento 
onrico  recordado de maneira especialmente indistinta, indefinida, duvidosa, em meio a outros elementos construdos mais claramente. No entanto, apenas muito raramente 
essa censura se manifesta to indisfaradamente - to ingenuamente, se poderia dizer - como nesse exemplo do sonho dos 'servios de amor'. A censura age muito mais 
freqentemente de acordo com o segundo mtodo, produzindo atenuaes, aproximaes e aluses, em vez da coisa original. Nas atuaes da censura de imprensa no conheo 
nada semelhante  terceira forma de funcionamento da censura de sonhos; posso, porm, demonstr-la justamente com o exemplo de um sonho que antes j analisamos. 
Os senhores se recordam do sonho dos 'trs bilhetes de entrada ruins por 1,50 florim' [ver em [1]]. Nos pensamentos latentes desse sonho, o elemento 'superapressadamente, 
cedo demais' estava em primeiro plano. Portanto: foi absurdo casar to cedo - tambm foi absurdo adquirir os bilhetes de ingresso to cedo - foi ridculo a cunhada 
sair to apressada com o dinheiro para comprar jias. Nada desse elemento central dos pensamentos onricos transpareceu no sonho manifesto; neste, a posio central 
 ocupada por 'ir ao teatro' e 'comprar os ingressos'. Como conseqncia desse deslocamento da nfase, com esse novo agrupamento dos elementos de contedo, o sonho 
manifesto ficou to diferente dos pensamentos onricos latentes, que ningum suspeitaria da presena destes atrs daquele. Esse deslocamento da tnica  um dos principais 
instrumentos da deformao onrica e  o que confere ao sonho sua estranheza, que faz com que a prpria pessoa que teve o sonho no se mostre inclinada a reconhec-lo 
como obra sua.
         Omisso, modificao, novo agrupamento do material - so estas, pois, as atividades da censura de sonhos e os instrumentos da deformao onrica. A censura 
de sonhos, por si mesma,  o agente ou um dos agentes da deformao onrica que agora estamos examinando. Estamos habituados a combinar os conceitos de modificao 
e reajuste sob o termo 'deslocamento'.
         Aps estes comentrios sobre as atividades da censura de sonhos, passemos agora  sua dinmica. Espero que os senhores no tomem o termo antropomorficamente 
demais e no imaginem o 'censor dos sonhos' como um severo homnculo; contudo, tambm espero que no assumam muito o termo num sentido de 'localizao', e no pensem 
em um centro cerebral do qual proceda uma influncia censora dessa ordem, uma influncia que chegaria ao fim se esse 'centro' fosse lesado ou removido. Por agora, 
no  nada mais que um termo til para descrever a relao dinmica. A palavra no nos impede de perguntarmos por quais intenes  exercida essa influncia censora 
e contra que intenes ela  exercida. E no nos surpreenderemos ao constatar que mais uma vez nos defrontamos com a censura de sonhos, embora, talvez, sem reconhec-la.Pois 
 este realmente o caso. Os senhores se recordam de que, ao comearmos a usar nossa tcnica de associao livre, fizemos uma descoberta surpreendente. Apercebemo-nos 
de que nossos esforos de abrir caminho desde o elemento onrico at o elemento inconsciente, do qual aquele  um substituto, encontravam uma resistncia [ver em 
[1] e [2]]. Essa resistncia, dissemos, poderia ser de diferentes magnitudes, s vezes enorme, s vezes quase insignificante. Nesse ltimo caso, temos de passar 
atravs de apenas alguns elos intermedirios em nosso trabalho de interpretao. No entanto, quando a resistncia  grande, temos de percorrer longas cadeias de 
associaes a partir do elemento onrico, somos conduzidos para longe deste, e, em nosso caminho, temos de vencer todas as dificuldades representadas pelas objees 
crticas s idias que ocorrem. O que encontramos sob a forma de resistncia, em nosso trabalho de interpretao, deve agora ser introduzido na elaborao onrica 
como censura de sonhos. A resistncia  interpretao  apenas a efetivao da censura do sonho. Tambm nos prova que a fora da censura no se esgota com a deformao 
do sonho e nem se extingue depois disso; que a censura, contudo, persiste como instituio permanente que tem como seu objetivo manter a deformao. Ademais, assim 
como a fora da resistncia varia na interpretao de cada elemento do sonho, tambm a magnitude da deformao engendrada pela censura varia para cada elemento do 
mesmo sonho. Se compararmos o sonho manifesto com o latente, constataremos que determinados elementos latentes foram totalmente eliminados, outros, modificados em 
grau maior ou menor, enquanto outros, ainda, foram transportados para o contedo manifesto do sonho, inalterados, ou mesmo, talvez, reforados.Desejvamos, no entanto, 
perguntar quais so os propsitos que exercem a censura e contra que propsitos ela  exercida. Ora, esta questo, fundamental para o entendimento dos sonhos e talvez, 
na realidade, da vida humana,  fcil de responder se examinarmos a srie de sonhos que foram interpretados. Os propsitos que exercem a censura so aqueles reconhecidos 
pelo julgamento vigil da pessoa que sonhou, aqueles com o quais o sonhador est de acordo. Os senhores podem ter a certeza de que, se rejeitarem uma interpretao 
de um de seus prprios sonhos, que tenha sido efetuada corretamente, assim estaro agindo pelos mesmos motivos pelos quais a censura do sonho foi exercida, a deformao 
do sonho foi ocasionada e a interpretao do sonho se tornou necessria. Vejam o sonho da senhora de cinqenta anos de idade [ver em [1] e [2]]. Ela achou seu sonho 
repugnante, sem t-lo analisado, e se teria indignado mais ainda se Dr. von Hug-Hellmuth lhe houvesse dito algo acerca de sua inevitvel interpretao; foi precisamente 
porque essa senhora condenou o sonho que as passagens censurveis do mesmo foram substitudas por um murmrio.As tendncias contra as quais se dirige a censura de 
sonhos devem ser descritas, em primeiro lugar, do ponto de vista dessa instncia mesma. Assim sendo, apenas pode-se dizer que invariavelmente so de natureza repreensvel, 
repulsiva do ponto de vista tico, esttico e social - assuntos nos quais a pessoa absolutamente no se aventura a pensar, ou somente pensa com averso. Esses desejos, 
que so censurados e recebem uma expresso deformada nos sonhos, so, primeiro e acima de tudo, manifestaes de um egosmo desenfreado e impiedoso. E, vejam s, 
o prprio ego do sonhador surge e desempenha o papel principal no sonho, apesar de muito bem saber esconder-se, para o que muito contribui o contedo manifesto. 
Este 'sacro egosmo' dos sonhos certamente no  desprovido de alguma relao com a atitude que adotamos quando dormimos, que consiste em retirarmos nosso interesse 
de todo o mundo externo.O ego, liberto de todos os compromissos ticos, tambm se sente  vontade com todas as exigncias do sexo, mesmo aquelas que por muito tempo 
tm sido condenadas pela nossa educao esttica e aquelas que contrariam todos os requisitos das barreiras morais. O desejo de prazer - a 'libido', conforme o denominamos 
- escolhe sem inibio seus objetos e, de preferncia, os proibidos: no somente as mulheres de outros homens, mas, acima de tudo, objetos incestuosos, objetos sagrados 
segundo o consenso da humanidade, me e irm de um homem, pai e irmo de uma mulher. (O sonho dessa senhora de cinqenta anos tambm era incestuoso; sua libido estava 
inequivocamente voltada para seu filho. (ver em [1] e [2].) Desejos sensuais, que imaginamos distantes da natureza humana, mostram-se suficientemente fortes para 
provocar o surgimento de sonhos. Tambm surgem dios rancorosos, sem constrangimento. Desejos de vingana e de morte, dirigidos contra aqueles que nos so mais prximos 
e mais caros na vida desperta, contra os pais, irmos e irms, marido ou esposa, e contra os prprios filhos, no so nada raros. Esses desejos censurados parecem 
nascer de um verdadeiro inferno; depois que so interpretados, quando estamos acordados, nenhuma censura a eles nos parece to rigorosa.
         Porm, os senhores no devem acusar o prprio sonho por causa de seu contedo mau. No se esqueam de que ele executa a funo inocente, e, na verdade, 
til, de preservar o sono de qualquer perturbao. Essa ruindade no faz parte da natureza essencial dos sonhos. Com efeito, os senhores tambm sabem que h sonhos 
que podem ser reconhecidos como satisfao de desejos justificados e de necessidades corporais prementes. Estes,  verdade, no apresentam deformao; mas tambm 
no precisam de deformao, porque podem preencher sua funo sem insultar os propsitos ticos e estticos do ego. Atentem tambm para o fato de que a deformao 
do sonho  proporcional a dois fatores. Por um lado, ela  to maior quanto pior  o desejo a ser censurado; mas, por outro lado, tambm se torna maior  medida 
que mais severas forem as exigncias da censura no momento. Assim, uma moa, educada rigorosamente, pudica, com uma censura implacvel, ir distorcer impulsos onricos 
que ns, mdicos, por exemplo, teramos de considerar desejos libidinais permissveis, inofensivos e acerca dos quais, dentro de dez anos, ela mesma far julgamento 
igual.Ademais, ainda no fomos to suficientemente longe a ponto de sentirmos indignao com esse resultado de nosso trabalho de interpretao. Penso que ainda no 
o compreendemos acertadamente; porm, nossa primeira obrigao  defend-lo contra certas calnias. No h dificuldade em encontrar nele um ponto fraco. Nossas interpretaes 
de sonhos so feitas com fundamento nas premissas que j aceitamos [ver em [1] e seg.]: que os sonhos em geral possuem um sentido, que  correto transportar do sono 
hipntico para o normal o fato de existirem processos mentais que, na poca considerada, so inconscientes, e que tudo o que ocorre  mente  determinado. Se, com 
base nessas premissas, tivssemos chegado a achados plausveis originados da interpretao de sonhos, deveramos ter encontrado justificativa para concluir pela 
validade das premissas. Mas como conseguir isso, se esses achados parecem ser como lhes mostrei? Estaramos, ento, tentados a dizer: 'Esses achados so impossveis, 
carecem de sentido ou, pelo menos, so muito improvveis; portanto, havia algo de errado nas premissas. Ou os sonhos no so fenmenos psquicos, ou no existe nada 
inconsciente no estado normal, ou nossa tcnica apresenta em si uma falha. No  mais simples e mais satisfatrio supor assim, de preferncia a aceitar todas as 
abominaes que se supe tenhamos descoberto baseados em nossas premissas?'Sim, com efeito! Mais simples e mais satisfatrio, no entanto nem por isso necessariamente 
mais correto. Concedamo-nos tempo: o tema ainda no est maduro para julgamento. E em primeiro lugar, podemos reforar ainda mais as crticas  nossa interpretao 
de sonhos. O fato de os achados provenientes dos sonhos serem to desagradveis e repulsivos talvez no devesse ter tanto peso. Um argumento mais forte  que as 
pessoas que tm os sonhos, a quem somos levados a atribuir essas intenes plenas de desejos mediante a interpretao de seus sonhos, as rejeitem muito enfaticamente, 
e por boas razes o fazem. 'O qu?' diz uma delas, 'o senhor quer me convencer, com este sonho, de que eu lamento ter gasto dinheiro com o dote de minha irm e com 
a instruo de meus irmos? Mas no pode ser assim. Trabalho exclusivamente para meus irmos e irms; no tenho nenhum outro interesse na vida seno cumprir minhas 
obrigaes para com eles, o que, como o mais velho da famlia, prometera a minha falecida me fazer.' Ou, ento, uma mulher poder dizer a propsito de seu sonho: 
'Pensa que eu desejaria ver meu marido morto? Isso  chocante disparate!  que no somente estamos vivendo um casamento muito feliz - o senhor provavelmente no 
acreditaria em mim se eu dissesse isso - mas a morte dele me roubaria tudo o que eu tenho neste mundo.' Um outro homem nos respondeu: 'O senhor diz que tenho desejos 
sensuais por minha irm? Isso  ridculo! Ela no significa absolutamente nada para mim. Estamos brigados, e com ela no tenho trocado uma palavra h anos.' Poderamos, 
talvez, no dar maior importncia se tais pessoas no confirmassem nem negassem as intenes que lhes atribumos; poderamos dizer que essas eram justamente coisas 
que elas desconheciam a respeito de si prprias. Porm, quando sentem em si mesmas justamente o contrrio do desejo que lhes interpretamos, e quando conseguem provar-nos, 
atravs da vida que levaram, estarem dominadas por esse desejo contrrio, seguramente somos tomados de surpresa. No teria chegado a hora de abandonar todo o trabalho 
que executamos acerca da interpretao de sonhos, como algo cujos achados se reduziram ad absurdum?No, ainda no. At mesmo este argumento mais forte desmorona 
se o examinarmos criticamente. Tendo como certo que na vida mental existem intenes inconscientes, nada se prova ao mostrar que intenes opostas s intenes inconscientes 
dominam a vida consciente. Quem sabe, na mente h lugar para existirem lado a lado intenes opostas, contradies. Possivelmente, na verdade, a dominncia de um 
impulso seja precisamente a condio necessria para que seu contrrio seja inconsciente. Afinal, restam-nos ento as primeiras objees levantadas: as descobertas 
da interpretao de sonhos no so simples e so muito desagradveis.  primeira delas podemos responder que toda a paixo dos senhores pelo que  simples no conseguir 
solucionar um s dos problemas dos sonhos. Aqui, os senhores precisam se acostumar a enfrentar um complexo estado de coisas. E  segunda objeo podemos responder 
que os senhores se enganam redondamente quando usam um gostar ou no-gostar daquilo que sentem como fundamento de um julgamento cientfico. Que diferena faz se 
as descobertas da interpretao de sonhos lhes parecem desagradveis ou, na realidade, embaraosas e repulsivas? 'a n'empche pas d'exister', conforme ouvi meu 
mestre Charcot dizer, em situao semelhante, quando eu era um jovem mdico. Deve-se ter humildade e refrear as simpatias e antipatias quando se deseja descobrir 
o que  real neste mundo. Se um fsico pudesse provar-lhes que, em certo espao de tempo, a vida orgnica neste planeta chegaria ao fim por meio do congelamento, 
os senhores se arriscariam a dar-lhe a mesma resposta: 'No pode ser assim, a perspectiva  to desagradvel assim?' Penso que os senhores se calariam at que outro 
fsico viesse e mostrasse ao primeiro um erro em suas premissas ou em seus clculos. Quando os senhores rejeitam alguma coisa que lhes desagrada, o que fazem  repetir 
o mecanismo de construo dos sonhos, em vez de entend-lo e super-lo.Ora, os senhores podero prometer no levar em conta o carter desagradvel dos sonhos de 
realizao de desejo censurados, e se apoiaro no argumento de que, afinal,  improvvel que seja dado espao to grande ao mal na constituio dos seres humanos. 
A experincia dos senhores, porm, ratifica o que dizem? No irei discutir o que cada um possa aparentar a si mesmo; mas tm os senhores encontrado tanta benevolncia 
entre os seus superiores e competidores, tanto cavalheirismo entre os seus inimigos e to pouca inveja em seu meio social, que se sentem na obrigao de protestar 
contra o fato de a maldade egosta fazer parte da natureza humana? No tm os senhores plena conscincia de como a mdia das pessoas tem descontroles e deslealdades 
em tudo o que diz respeito  vida sexual? Ou no sabem que todas as transgresses e excessos com que sonhamos durante a noite so diariamente cometidos, na vida 
real, pelas pessoas em sua vida desperta? O que faz aqui a psicanlise seno confirmar a velha sentena de Plato, de que os bons so aqueles que se contentam em 
sonhar com aquilo que os outros, os maus, realmente fazem?E agora, abstraiam-se dos indivduos e considerem a grande guerra que ainda devasta a Europa. Pensem na 
avassaladora brutalidade, na crueldade e nas mentiras que conseguem se alastrar pelo mundo civilizado. Os senhores acreditam realmente que um punhado de homens ambiciosos, 
trapaceiros, sem conscincia, poderiam ter tido xito em desatrelar todos esses maus espritos se seus milhes de seguidores no partilhassem de seu crime? Os senhores 
se arriscariam, nessas circunstncias, a quebrar lanas em defesa da inexistncia do mal na constituio mental da humanidade?Os senhores me faro ver que estou 
fazendo um julgamento unilateral da guerra: que esta tambm faz manifestar-se o que h de mais belo e nobre nos homens, seu herosmo, seu auto-sacrifcio, seu senso 
social. Sem dvida; mas os senhores no se estaro revelando cmplices da injustia que tem sido feita  psicanlise, de reprov-la, negando uma coisa s porque 
ela afirmou outra? No  nossa inteno questionar os nobres reforos da natureza humana, e nunca fitemos algo que lhe diminusse o valor. Pelo contrrio; estou 
mostrando aos senhores no apenas os maus sonhos de realizao de desejo que so censurados, mas tambm a censura que os suprime e os torna irreconhecveis. Damos 
nfase maior quilo que nos homens  mau to-somente porque outras pessoas o rejeitam e, com isso, tornam a mente humana no melhor, mas incompreensvel. Se agora 
deixamos de lado essa avaliao tica unilateral, sem dvida encontraremos uma frmula mais correta para a relao entre o bem e o mal na natureza humana.A est. 
No temos por que abandonar as descobertas de nosso trabalho sobre interpretao dos sonhos, ainda que no consigamos v-las seno como estranhas. Talvez mais adiante 
sejamos capazes de nos aproximarmos da compreenso delas a partir de outro enfoque. Por agora, fixemo-nos nisso: a deformao onrica  conseqncia da censura exercida 
por intenes reconhecidas do ego contra impulsos plenos de desejos de qualquer modo censurveis, que perturbam nosso interior,  noite, durante nosso sono. Por 
que isso tem de acontecer especialmente  noite, e de onde procedem esses desejos repreensveis - ambos constituem um assunto sobre o qual, sem dvida, ainda h 
muito a questionar e pesquisar.
         Seria injusto, porm, se a esta altura deixssemos de enfatizar suficientemente um outro resultado de nossas investigaes. Os sonhos de realizao de desejo 
que procuram nos perturbar o sono, nos so desconhecidos e, na verdade, deles somente tomamos conhecimento atravs da interpretao de sonhos. Portanto, eles devem 
ser descritos, segundo o sentido de nossa exposio, como inconscientes no momento atual. Devemos, contudo, refletir que so inconscientes tambm por durao mais 
longa do que no momento atual. O sonhador, como temos verificado em tantos casos, tambm os rejeita depois de chegar a conhec-los pela interpretao do seu sonho. 
Aqui nos defrontamos novamente com a situao que, pela primeira vez, encontramos no lapso de lngua do 'arroto' [ver em [1]], onde o proponente do brinde protestou, 
indignado, que nem naquela poca, nem em qualquer outra poca anterior, estivera cnscio de qualquer impulso desrespeitoso em relao a seu chefe. J naquela ocasio 
nos assaltaram algumas dvidas a respeito da validade de uma convico dessa espcie, e, em vez disso, sugerimos a hiptese de que o orador tinha permanente desconhecimento 
da presena de semelhante impulso em si prprio. Essa situao se repete, agora, com toda interpretao de um sonho acentuadamente deformado e, conseqentemente, 
adquire redobrada importncia pelo apoio que confere  nossa opinio. Agora estamos preparados para supor existirem na mente processos e intenes dos quais a pessoa 
pode no saber absolutamente nada, nada soube durante longo tempo, e at mesmo, talvez, jamais tenha sabido de alguma coisa. Com isso, o inconsciente adquire um 
novo sentido para ns; a caracterstica de 'no momento atual' ou 'temporrio' desaparece de sua natureza essencial. Pode significar permanentemente inconsciente 
e no meramente 'latente em certa poca'. Naturalmente, haveremos de ouvir mais a este respeito, em outra ocasio. 
         
         CONFERNCIA X - SlMBOLISMO NOS SONHOS
         
         SENHORAS E SENHORES:
         Verificamos que a deformao que ocorre nos sonhos e interfere em nossa possibilidade de compreend-los, resulta de uma atividade censora dirigida contra 
inaceitveis impulsos plenos de desejo inconscientes. No temos afirmado, naturalmente, ser a censura o nico fator responsvel pela deformao nos sonhos, e, de 
fato, ao estud-los mais detidamente podemos descobrir que outros fatores desempenham sua parte na consecuo desse resultado. Isso importa em dizermos que, mesmo 
estando fora de ao a censura onrica, ainda assim no estaramos em condies de entender os sonhos, o sonho manifesto ainda no seria idntico aos pensamentos 
onricos latentes.Descobrimos esse outro fator que evita que os sonhos sejam ntidos, essa nova contribuio  deformao onrica, ao constatarmos uma lacuna em 
nossa tcnica. J fiz ver aos senhores [ver em [1]] que, s vezes, realmente acontece no ocorrer  pessoa em anlise nenhuma idia em resposta a determinados elementos 
de seus sonhos.  verdade que isso no acontece to seguidamente como a pessoa afirma; em muitssimos casos, com persistncia, brota-lhe uma idia. No obstante, 
restam casos nos quais deixa de surgir uma associao, ou, se essa  obtida, no nos d o que dela espervamos. Acontecendo durante um tratamento analtico, isso 
tem um significado especial que no nos interessa aqui. Contudo, tambm acontece na interpretao de sonhos de pessoas normais e em nossos prprios sonhos. Se nos 
convencemos de que, em tais casos, no h presso que possa nos ser de utilidade, terminamos por descobrir que esse evento indesejado ocorre regularmente em conexo 
com determinados elementos onricos, e comeamos a reconhecer que um novo princpio geral est em vigor ali onde comevamos a pensar que apenas se nos antepunha 
uma excepcional falha de tcnica.
         Assim sendo, somos tentados a interpretar esses elementos onricos 'mudos' em si mesmos, a nos pr a traduzi-los com nossos prprios recursos. Somos ento 
compelidos a reconhecer que, sempre que nos aventuramos a efetuar uma substituio dessa espcie, encontramos um sentido adequado para o sonho, ao passo que este 
permanece carente de sentido; e a cadeia de pensamentos se mantm interrompida enquanto nos abstivermos de intervir dessa maneira. A acumulao de muitos casos semelhantes 
proporciona, por fim, a necessria certeza quilo que comeou como tmida experincia.
         Estou expondo tudo isso de modo bastante esquemtico. Tal, porm, afinal se permite por motivos didticos, e nada foi adulterado, mas apenas simplificado. 
Conseguimos, assim, tradues uniformes para numerosos elementos onricos - assim como os 'livros de sonhos' populares do tradues para tudo o que aparece nos 
sonhos. Os senhores naturalmente no se tero esquecido de que, quando usamos tcnica associativa, nunca se torna claro por que ocorrem determinadas substituies 
constantes de alguns elementos onricos.
         Os senhores prontamente faro a objeo de que esse mtodo de interpretao lhes parece muito mais inseguro e passvel de ataque do que o anterior, baseado 
na associao livre. Porm, existe algo mais. Pois, quando, com a experincia, tivermos coligido nmero suficiente de tais verses constantes, chega a hora em que 
percebemos que deveramos ser capazes de lidar com essa parte da interpretao de sonhos por meio de nossos prprios conhecimentos, e que elas poderiam realmente 
ser compreendidas sem as associaes do sonhador. O modo como devemos conhecer necessariamente seu significado se tornar claro na segunda metade desta nossa exposio.Uma 
relao constante desse tipo entre um elemento onrico e sua verso, ns a descrevemos como 'relao simblica', e ao elemento onrico propriamente dito, como um 
'smbolo' do pensamento onrico inconsciente. Os senhores esto lembrando de que, anteriormente, quando investigvamos as relaes entre elementos onricos e a coisa 
'original' situada por trs deles, diferenciei trs relaes desse tipo - a da parte com o todo, a da aluso e a da representao plstica. Na ocasio eu os adverti 
de que havia uma quarta relao, porm no citei seu nome [ver em [1]]. Essa quarta relao  a relao simblica que estou apresentando agora. Ela enseja oportunidade 
para algumas discusses interessantes, e eu passarei a estas antes de lhes demonstrar os resultados detalhados de nossas observaes sobre o simbolismo.
         O simbolismo , talvez, o mais notvel captulo da teoria dos sonhos. Em primeiro lugar, como os smbolos so verses constantes, realizam at certo ponto 
o ideal da antiga, tanto como da popular, interpretao dos sonhos, do qual, com nossa tcnica, nos afastamos muito. Permitem-nos em certas circunstncias interpretar 
um sonho sem fazer perguntas ao sonhador que, de qualquer modo, realmente nada teria a nos dizer acerca do smbolo. Se estivermos familiarizados com os smbolos 
onricos comuns, e, ademais disso, com a personalidade do sonhador, as circunstncias em que ele vive e as impresses que precederam a ocorrncia do sonho, freqentemente 
estaremos em situao de interpretar um sonho com segurana - de traduzi-lo  vista, por assim dizer. Um virtuosismo dessa espcie lisonjeia a quem interpreta o 
sonho e impressiona aquele que teve o sonho; forma um agradvel contraste com a laboriosa tarefa de interrogar o sonhador. Contudo, no se deixem perder-se com isso. 
No  de nosso feitio executar atos de virtuosismo. A interpretao baseada no conhecimento dos smbolos no  uma tcnica que possa substituir a tcnica associativa, 
nem competir com esta. A tcnica dos smbolos suplementa a tcnica associativa e produz resultados que apenas possuem utilidade, quando subordinada a esta. E, no 
que concerne ao conhecimento que se tenha da situao psquica da pessoa que nos relata seu sonho, devem ter em mente que os sonhos das pessoas que os senhores bem 
conhecem, no so os nicos que os senhores tm para analisar; ter em mente que, via de regra, os senhores no esto familiarizados com os eventos do dia anterior, 
que foram aqueles que provocaram o sonho, mas que as associaes de idias da pessoa que os senhores esto analisando lhes proporcionaro um conhecimento preciso 
daquilo que chamamos situao psquica.
         Ademais, constitui aspecto muito notvel - tendo em conta, tambm, algumas consideraes que mencionaremos mais adiante [cf. pg. 169-70] - o fato de se 
terem manifestado, mais uma vez, as mais violentas resistncias contra uma relao simblica entre os sonhos e o inconsciente. Mesmo pessoas de discernimento e reputao, 
que, afora isso, tm concordado em muito com a psicanlise, nesse ponto retiraram seu apoio. Esse comportamento se afigura muito estranho; primeiro, em vista do 
fato de que o simbolismo no constitui peculiaridade exclusiva dos sonhos e no  caracterstico dos mesmos; e, em segundo lugar, o simbolismo nos sonhos no , 
de forma alguma, descoberta da psicanlise, embora esta tenha feito muitas outras descobertas surpreendentes. O filsofo K. A. Scherner (1861) deve ser apontado 
como o descobridor do simbolismo onrico, se  que absolutamente se possam situar seus incios nos tempos atuais. A psicanlise confirmou os achados de Scherner, 
embora tenha feito substanciais modificaes nos mesmos.
         Agora, certamente, os senhores desejam ouvir algo sobre a natureza do simbolismo dos sonhos e ter alguns exemplos. Com satisfao lhes direi o que sei, 
embora deva confessar que nossa compreenso deste tema no  to completa como desejaramos.
         A essncia desta relao simblica constitui em ela ser uma comparao, embora no uma comparao de tipo qualquer. Limitaes especiais parecem estar vinculadas 
 comparao, porm  difcil dizer quais sejam elas. Nem tudo aquilo com que podemos comparar um objeto ou um processo aparece nos sonhos como smbolo dessa comparao. 
E, por outro lado, um sonho no simboliza cada elemento possvel dos pensamentos onricos latentes, mas somente alguns pensamentos determinados. Assim, existem limitaes 
em ambos os sentidos. Devemos admitir, tambm, que o conceito de smbolo, no momento atual, no pode ser definido com preciso: esse conceito se transfigura gradualmente 
em noes tais como as de substituio ou representao, e mesmo se aproxima do que entendemos por aluso. Em numerosos smbolos, a comparao que subjaz  bvia. 
Entretanto, tambm a existem outros smbolos em relao aos quais devemos nos perguntar onde buscaremos o elemento comum, o tertium comparationis, da suposta comparao. 
Com outras reflexes, podemos posteriormente descobri-lo, ou ento ele pode permanecer definitivamente oculto.  ademais estranho que, sendo o smbolo uma comparao, 
no seja elucidado por uma associao, e que o sonhador no conhea, mas faa uso dele sem saber nada a seu respeito: mais ainda, na verdade, que o sonhador no 
se sinta disposto a reconhecer a comparao, mesmo depois de esta lhe ter sido mostrada. Os senhores observam, pois, que uma relao simblica  uma comparao de 
tipo muito especial, cuja base at agora ainda no apreendemos, embora possamos, posteriormente, chegar a alguma indicao sobre a mesma.
         A gama de coisas s quais se confere uma representao simblica nos sonhos, no  ampla: o corpo humano como um todo, os pais, os filhos, irmos e irms, 
nascimento, morte, nudez - e algumas outras coisas mais. A representao tpica - isto , regular - da figura humana como um todo  uma casa, conforme foi reconhecido 
por Scherner, que at mesmo quis atribuir a este smbolo uma importncia transcendental que no tem. Em um sonho, pode acontecer algum sentir-se descendo pela fachada 
de uma casa, num momento deliciando-se com isso, depois atemorizando-se. As casas com paredes lisas representam homens, e aquelas com salincias e sacadas, em que 
 possvel segurar-se, representam mulheres (ver em [1], adiante). Os pais aparecem nos sonhos como imperador e imperatriz, rei e rainha [loc. cit.] ou outras personagens 
respeitadas; com isso, os sonhos evidenciam muito respeito filial. Tratam, porm, com muito menos ternura os filhos, os irmos e as irms: estes so simbolizados 
como pequenos animais ou bichinhos. O nascimento  quase que invariavelmente representado por algo que tem uma conexo com gua: ou a pessoa cai dentro da gua ou 
sai da gua, a pessoa salva algum da gua ou  resgatada da gua por algum - ou seja,  uma relao me-filho [ver em [1]]. Morrer  substitudo, nos sonhos, por 
partir, por viajar de trem ver em [1] e [2]], estar morto  representado por indcios diversos, por assim dizer, obscuros; a nudez, por meio de roupas e uniformes. 
Os senhores vem quo indistintos so os limites, aqui, entre a representao simblica e a alusiva.
          surpreendente que, em comparao com essa reduzida numerao, existe uma outra rea em que os objetos e assuntos so representados por um simbolismo extraordinariamente 
rico. Essa rea  a da vida sexual - os genitais, os processos sexuais, a relao sexual. Nos sonhos, a grande maioria dos smbolos so smbolos sexuais. E aqui 
se revela uma estranha desproporo. Os temas que mencionei so poucos, os smbolos que os representam so, porm, extremamente numerosos, de forma que cada uma 
dessas coisas pode ser expressa por numerosos smbolos quase equivalentes. Quando interpretados, o resultado origina objees generalizadas. Pois, em contraste com 
a multiplicidade das representaes no sonho, as interpretaes dos smbolos variam muito pouco, o que enfada qualquer pessoa que ouve falar nisso; mas, o que podemos 
fazer quanto a isto?
         Como esta  a primeira vez que falo no tema da vida sexual, em uma destas conferncias, devo-lhes uma explanao sobre a maneira pela qual me proponho a 
tratar do assunto. A psicanlise no tem necessidade de ocultamentos nem de palpites, no pensa que seja necessrio envergonhar-se de lidar com esse importante material, 
acredita que  correto e apropriado nomear cada coisa pelo seu nome certo e espera que esta seja a melhor maneira de manter  distncia idias inadequadas, de natureza 
desorientadora. O fato de estas conferncias estarem sendo proferidas perante um auditrio misto de ambos os sexos, no faz qualquer diferena com relao a esse 
aspecto. Assim como no pode haver cincia in usum Delphini, tambm no pode hav-la para meninas de colgio; e as senhoras aqui presentes j evidenciaram, por sua 
prpria presena nesta sala de conferncias, que desejam ser tratadas em condies de igualdade com os homens.Os genitais masculinos ento so representados nos 
sonhos por numerosas formas que devem ser chamadas simblicas, nas quais o elemento comum da comparao  em geral muito evidente. Primeiramente, para os genitais 
masculinos como um todo, o sagrado nmero 3 tem significao simblica [ver em [1] e segs.]. O mais notvel e, para ambos os sexos, mais interessante componente 
dos genitais, o rgo masculino, encontra substitutos simblicos primordialmente em coisas que a ele se assemelham pela sua forma - coisas, portanto, que so alongadas 
e retas, tais como: bengalas, guarda-chuvas, postes, rvores, e assim por diante; e tambm objetos que compartilham, com a coisa que representam, da caracterstica 
de penetrar no corpo e ferir - ou seja, armas pontiagudas de toda espcie, facas, punhais, lanas, sabres e tambm armas de fogo, rifles, pistolas e revlveres (especialmente 
adequados por causa de sua forma). Nos sonhos de ansiedade de uma menina, ser seguida por um homem com uma faca ou com arma de fogo desempenha importante papel. 
Esse talvez seja o caso mais comum de simbolismo onrico, e agora os senhores esto aptos a traduzi-lo com facilidade. E no  difcil compreender de que modo o 
rgo masculino pode ser substitudo por objetos dos quais flui gua - torneira, regador, chafariz -, ou, ainda, por outros objetos capazes de se distenderem, tais 
como lmpadas suspensas, lpis extensveis, etc. Um aspecto no menos bvio do rgo explica o fato de que lpis, canetas, limas, martelos e outros instrumentos 
so indubitveis smbolos sexuais masculinos.A extraordinria caracterstica do rgo masculino de ser capaz de erguer-se em desafio s leis da gravidade, um dos 
fenmenos da ereo, faz com que seja representado simbolicamente por bales, mquinas voadoras e, mais recentemente, pelas aeronaves Zeppelin. Os sonhos, porm, 
podem simbolizar a ereo de outra maneira, muito mais expressiva. Podem tratar o rgo sexual como sendo a essncia da pessoa inteira daquele que sonha e faz-lo 
voar. No se melindrem com a idia de que os sonhos com voar, to comuns e freqentemente to agradveis, devam ser interpretados como sonhos de excitao sexual 
geral, como sonhos de ereo. Entre alunos de psicanlise, Paul Federn [1914] colocou essa interpretao fora de dvida; contudo, atravs de suas investigaes chegou 
 mesma concluso Mourly Vold [1910-12, 2, 791], que tem sido to elogiado por sua seriedade, quem levou a cabo as experincias com sonhos a que me referi [ver em 
[1] e [2]] com posies artificialmente assumidas dos braos e pernas, e estava muito distanciado da psicanlise e possivelmente nada sabia a respeito dela. E no 
faam, a partir da, a objeo ao fato de as mulheres poderem ter os mesmos sonhos de voar, como os homens. Lembrem-se, antes, de que nossos sonhos objetivam ser 
realizaes de desejos e que o desejo de ser homem com muita freqncia  encontrado, consciente ou inconscientemente, em mulheres. E ningum que conhea anatomia 
se espantar com o fato de que  possvel s mulheres realizar esse desejo atravs das mesmas sensaes do homem. As mulheres possuem, como parte de seus genitais, 
um pequeno rgo semelhante ao rgo masculino; e esse pequeno rgo, o clitris, realmente desempenha na infncia e durante os anos anteriores s relaes sexuais 
o mesmo papel que desempenha o grande rgo dos homens.Entre smbolos sexuais masculinos menos inteligveis situam-se certos rpteis e peixes e, acima de tudo, o 
famoso smbolo da cobra. Certamente no  fcil adivinhar por que chapus e sobretudos ou capas so empregados da mesma maneira; contudo, seu significado simblico 
 bastante inquestionvel [ver em [1]]. Finalmente, podemos nos perguntar se a substituio do membro masculino por outro membro, o p ou a mo, deveria ser descrita 
como simblica. Penso que somos compelidos a tambm faz-lo, em face ao contexto e aos equivalentes, no caso das mulheres.Os genitais femininos so simbolicamente 
representados por todos esses objetos que compartilham da caracterstica de possurem um espao oco que pode conter algo dentro de si: buracos, cavidades e concavidades, 
por exemplo; vasos e garrafas, recipientes, caixas, malas, estojos, cofres, bolsas, e assim por diante. Barcos tambm se incluem nesta categoria. Alguns smbolos 
tm mais conexo com o tero do que com os genitais femininos: assim, armrios, foges e, mais especialmente, aposentos. Aqui o simbolismo de aposento se aproxima 
do simbolismo de casa. Portas e portes tambm so smbolos do orifcio genital. Os materiais tambm so smbolos femininos [ver em [1]]: madeira, papel e objetos 
feitos desses materiais como mesas e livros. Dentre os animais, caramujos e conchas, pelo menos, so inegveis smbolos femininos: entre as partes do corpo, a boca 
(como substituto do orifcio genital); entre as construes, igrejas e capelas; como podem observar, nem todos os smbolos so igualmente inteligveis.Os seios devem 
ser includos nos genitais; sendo hemisfrios volumosos do corpo feminino, so representados por mas, pras e frutas, em geral. Os plos pubianos de ambos os sexos 
so representados nos sonhos por florestas e moitas. A complexa topografia das partes genitais femininas torna compreensvel o fato de elas serem freqentemente 
representadas por paisagens com rochedos, floresta e gua, ao passo que o imponente mecanismo do aparelho genital feminino explica por que todo tipo de mquinas, 
difceis de descrever, lhe serve de smbolo.Outro smbolo dos genitais femininos, que merece ser mencionado,  o porta-jias. Jia e tesouro so usados nos sonhos, 
assim como na vida desperta, para mencionar algum que  amado. Doces freqentemente representam satisfao sexual. A satisfao que uma pessoa obtm com seus prprios 
genitais  indicada por toda espcie de tocar, inclusive tocar piano. Constituem representao simblica par excellence da masturbao o deslizar ou escorregar, 
o arrancar um ramo [ver em [1]]. A queda de um dente, ou a extrao de um dente so smbolos onricos particularmente dignos de reparo. Sua significao primeira 
 indubitavelmente a castrao como castigo pela masturbao [loc. cit.]. Encontramos representaes especiais do ato sexual com menos freqncia do que se poderia 
esperar com base naquilo que se disse at aqui. Atividades rtmicas como danar, cavalgar e subir devem ser mencionadas aqui, bem como ocorrncias violentas, como 
ser atropelado; e ainda da mesma forma, certas atividades manuais e naturalmente ameaas com armas.Os senhores no devem imaginar que seja muito simples o emprego 
ou a traduo desses smbolos. No decurso deles, acontecem todos os tipos de coisas que so contrrias s nossas expectativas. Parece quase inacreditvel, por exemplo, 
que nessas representaes simblicas as diferenas entre os sexos amide no so nitidamente observadas. Alguns smbolos significam em geral, independentemente de 
serem masculinos ou femininos, por exemplo: uma criana pequena, um filho pequeno, uma filha pequena. Ou ainda, um smbolo predominantemente masculino pode ser empregado 
para representar genitais femininos e vice-versa. No podemos compreender esse fato enquanto no tivermos obtido determinada compreenso interna (insight) da evoluo 
das idias sexuais nos seres humanos. Em alguns casos, a ambigidade dos smbolos pode ser apenas aparente; e os smbolos mais marcados, como armas, bolsas e cofres, 
se excluem desse uso bissexual.
         Agora, partindo no da coisa representada, mas sim do smbolo, prosseguirei fazendo um exame de conjunto das reas das quais geralmente derivam os smbolos 
sexuais, e farei algumas observaes adicionais, com especial referncia aos smbolos em que o elemento comum da comparao no est entendido. O chapu  um smbolo 
obscuro deste tipo - talvez, tambm, tudo o que se usa para cobrir a cabea, em geral - e tem, via de regra, significao masculina, mas  tambm capaz de ter significao 
feminina. Da mesma forma, um sobretudo ou uma capa significam um homem, talvez nem sempre se referindo ao aspecto genital; compete aos senhores perguntarem por qu. 
Gravatas, que so coisas que ficam pendentes e no so usadas por mulheres, so definitivamente um smbolo masculino. Roupa interior e roupa branca geralmente so 
smbolos femininos. Vesturio e uniformes, conforme j vimos, so substitutos da nudez ou das formas corporais. Sapatos e chinelos so smbolos de genitais femininos. 
Mesas e madeira j foram mencionadas como smbolos femininos enigmticos, porm certos. Escadas, degraus, escadarias, ou, mais precisamente, subir ou descer pelos 
mesmos, so claros smbolos da relao sexual. Pensando melhor, ocorre-nos que aqui o elemento comum  o ritmo de galg-los - talvez, tambm, a crescente excitao 
e a respirao ofegante  medida que se sobe [ver em [1]].J nos referimos anteriormente a paisagens como representantes dos genitais femininos. Montes e rochedos 
so smbolos do rgo masculino. Jardins so smbolos comuns dos genitais femininos. Frutas representam no os filhos, mas os seios. Animais selvagens significam 
pessoas em estado de excitao sensual e, alm disso, os maus instintos ou paixes. Botes e flores indicam os genitais femininos ou, em especial, a virgindade. 
No se esqueam de que realmente as flores constituem os genitais das plantas.J conhecemos aposentos como smbolos. A representao pode ir alm, as janelas e portas, 
com ou sem aposentos, assumindo o significado de orifcios do corpo. E a questo de um aposento estar aberto ou fechado se adapta a este simbolismo, e a chave que 
o abre  decididamente um smbolo masculino.Esse, pois, o material de que se serve o simbolismo nos sonhos. No est completo e poderia ser aprofundado e ampliado 
ainda mais. Imagino, porm, que lhes parecer mais que suficiente, e talvez at mesmo possa t-los irritado. 'Ser que de fato vivo no meio de smbolos sexuais?' 
- podero perguntar. 'So todos os objetos ao meu redor, todas as roupas que visto, todas as coisas que pego, todos smbolos sexuais, e nada mais?' Existe, com efeito, 
fundamento suficiente para fazer perguntas atnitas, e, como primeira delas, podemos nos interrogar sobre como realmente chegamos a conhecer a significao desses 
smbolos onricos, a respeito dos quais o sonhador nos d informao insuficiente, ou absolutamente nenhuma informao.Minha resposta  que a aprendemos a partir 
de fontes muito diversas - de contos de fadas, de mitos, de bufonarias e anedotas, do folclore (isto , do conhecimento dos usos populares e costumes, da maneira 
de falar e das canes) e de expresses idiomticas, poticas e coloquiais. Em todas essas direes encontramos o mesmo simbolismo e, em alguns deles, podemos entend-lo 
sem maior erudio. Se penetrarmos nos detalhes dessas fontes, encontraremos tantas semelhanas do simbolismo onrico, que no podemos deixar de nos convencer de 
nossas interpretaes.Segundo Scherner, como dissemos [ver em [1]], o corpo humano  com freqncia representado nos sonhos pelo smbolo de uma casa. Aprofundando 
esta representao, verificamos que janelas, portas e portes representavam as aberturas do corpo e que as fachadas das casas eram ou lisas ou providas de sacadas 
e salincias nas quais se podia encontrar apoio. Contudo, o mesmo simbolismo  encontrado em nossos usos idiomticos - quando saudamos familiarmente um conhecido, 
como uma 'altes Haus' ['casa velha'], quando falamos em dar a algum 'eins aufs Dachl' [uma pancada na cabea, literalmente, 'uma no telhado'], ou quando dizemos 
de uma pessoa que 'ela no est bem do sto'. Na anatomia, os orifcios do corpo so muitas vezes chamados 'Leibespforten' [literalmente, 'portes do corpo'].
         De incio parece surpreendente encontrar os pais, nos sonhos, como casal imperial ou real. Isso, porm, tem seu similar nos contos de fadas. Comeamos a 
compreender que as variadas histrias de fadas que comeam com 'Era uma vez um rei e uma rainha' apenas querem dizer que certa vez havia um pai e uma me. Em uma 
famlia as crianas so, de brincadeira, chamadas de 'prncipes', e o mais velho, de 'prncipe herdeiro'. O prprio rei se denomina o pai de seu pas. Por brincadeira 
falamos nos filhos como 'Wrmer' ['bichinhos'] e com simpatia nos referimos a uma criana como 'der arme Wurm' ['pobre bichinho'].
         Retornemos ao simbolismo da casa. Quando, em um sonho, fazemos uso das salincias de uma casa para nelas nos segurarmos, podemos nos recordar de uma expresso 
vulgar comumente usada para designar seios bem desenvolvidos: 'Ela tem coisa para agarrar.' Existe outra expresso popular em tais casos: 'Ela tem muita madeira 
em frente de casa', o que parece confirmar nossa interpretao da madeira como smbolo feminino, materno.
         E, por falar em madeira,  difcil compreender como esse material veio a representar o que  materno. No entanto, nisso a filologia comparada pode vir em 
nosso auxlio. Nossa palavra alem 'Holz' parece provir da mesma raiz da '??? [hul]' grega significando material, matria-prima. Esse parece ser um exemplo da ocorrncia 
no rara de um nome genrico de um material vir a ser, afinal, reservado a algum material determinado. Ora, existe no Atlntico uma ilha chamada 'Madeira' Este nome 
lhe foi dado pelos portugueses quando a descobriram, porque naquela poca estava toda recoberta de florestas. Pois na lngua portuguesa 'madeira' est relacionada 
a 'floresta'. Os senhores observam, porm, que 'madeira'  apenas uma forma ligeiramente modificada da palavra latina 'materia', que, mais uma vez, significa 'material' 
em geral. Contudo, 'materia'  derivada de 'mater', 'me': o material do qual tudo  feito, por assim dizer, a me de tudo. Esse conceito antigo da coisa sobrevive, 
portanto, no uso simblico de madeira como 'mulher' ou 'me'.
         O nascimento  geralmente expresso nos sonhos por meio de alguma conexo com a gua: a pessoa cai na gua ou  tirada das guas - d  luz ou nasce. No 
devemos nos esquecer de que este smbolo consegue se utilizar, em dois sentidos, da verdade da evoluo. No apenas todos os mamferos terrestres, inclusive os ancestrais 
do homem, descendem de seres aquticos (este  o mais remoto dos dois fatos), mas tambm todo mamfero, todo ser humano, passou a primeira fase de sua existncia 
na gua - ou seja, na qualidade de embrio, no lquido amnitico do tero materno, e saiu dessa gua ao nascer. No digo que aquele que sonha sabe disso; por outro 
lado, afirmo que ele no necessita saber. Existe algo mais que o sonhador provavelmente sabe, por lhe haver sido dito em sua infncia; assim mesmo, afirmo que, se 
soubesse, esse conhecimento em nada contribuiria para a construo do smbolo. Foi-lhe dito, quando criana, que  a cegonha que traz os bebs. Mas de onde os busca? 
Do lago, ou do rio - mais uma vez, pois, da gua. Um de meus pacientes, aps lhe haver sido dada esta informao - na poca ele era um pequeno conde - desapareceu 
por uma tarde inteira. Por fim, foi encontrado de bruos junto  borda do lago do castelo, com seu rostinho pendido sobre a superfcie da gua, perscrutando atentamente, 
procurando ver os bebs no fundo da gua.
         Nos mitos sobre o nascimento de heris - aos quais Otto Rank [1909] dedicou um estudo comparado, sendo o mais antigo o mito do rei Sargo, de Agade (cerca 
de 2.800 a.C.) -, uma parte predominante  desempenhada pelo abandono na gua e o resgate da gua. Rank constatou que isso so representaes do nascimento, anlogas 
s que comumente surgem nos sonhos. Quando uma pessoa salva algum das guas, em um sonho, ela se transforma em sua me, ou, simplesmente, em me. Nos mitos uma 
pessoa que salva um beb das guas admite ser a verdadeira me do beb. Existe uma conhecida anedota cmica segundo a qual perguntaram a um inteligente menino judeu 
quem era a me de Moiss. Respondeu sem hesitao: 'A princesa.' 'No', disseram-lhe, 'ela somente o tirou da gua' 'Isso  o que ela diz', replicou, e assim provou 
que havia encontrado a interpretao correta do mito.Nos sonhos, partir significa morrer. Assim, quando uma criana pergunta onde est algum que morreu, e de quem 
sente falta,  costume comum responder-lhe que esse algum partiu de viagem. Mais uma vez gostaria de desmentir a crena de que o smbolo onrico deriva dessa evasiva. 
O dramaturgo [Shakespeare, em Hamlet, Ato III, Cena 1] usa a mesma conexo simblica quando fala na morte como 'pas desconhecido de cujos limites nenhum viajante 
retorna'. Mesmo na vida comum  freqente falar em 'ltima jornada'. Todo aquele que conhece os rituais antigos se apercebe de como se levava a srio (na religio 
do antigo Egito, por exemplo) a idia de uma viagem s regies da morte. Sobreviveram muitas cpias do Livro dos Mortos, que era fornecido  mmia como um guia de 
viagem, para ser levado nessa jornada. Desde quando os locais funerrios foram separados dos locais de moradia, a ltima viagem de uma pessoa morta se tornou verdadeiramente 
uma realidade.E no se pense que o simbolismo genital seja algo encontrado apenas em sonhos. Provavelmente todos os senhores, em uma ou outra ocasio, referiram-se 
indelicadamente a uma mulher como 'alte Schachtel' ['caixa velha'], talvez sem saber que estavam usando um smbolo genital. No Novo Testamento encontramos a mulher 
sendo mencionada como o 'vaso mais frgil'. As escrituras hebraicas, escritas em um estilo que muito se aproxima da poesia, esto plenas de expresses sexualmente 
simblicas, que nem sempre foram corretamente compreendidas e cuja exegese (por exemplo, no caso do Cntico de Salomo) tem causado alguns equvocos. Na literatura 
hebraica posterior  muito comum encontrar a mulher representada por uma casa, cuja porta representa o orifcio sexual. Um homem se queixa, por exemplo, em um caso 
de perda da virgindade, de haver encontrado a porta aberta. Assim, tambm nesses escritos o smbolo da mesa representa a mulher. Por isso uma mulher diz de seu marido: 
'Eu lhe preparei a mesa, mas ele a virou.' Diz-se que as crianas aleijadas surgem porque o homem 'virou a mesa'. Estes exemplos, eu os tomei de um artigo do Dr. 
L. Levy de Brnn [1914].O fato de, nos sonhos, tambm os navios representarem mulheres merece crdito, pois os etimologistas nos dizem que 'Schiff [navio]' era originalmente 
o nome de um recipiente de barro e  a mesma palavra que 'Schaff' [palavra dialetal que significa 'tina']. O fato de foges representarem mulheres e tero,  confirmado 
pela lenda grega de Periandro de Corinto e sua esposa Melissa. O tirano, segundo Herdoto, faz aparecer o esprito de sua mulher, a quem amara apaixonadamente e, 
contudo, assassinara por cimes, a fim de obter dela algumas informaes. A mulher morta provou sua identidade dizendo que ele, Periandro, havia 'metido seu po 
dentro de um forno frio', como forma de disfarar um acontecimento que s era conhecido dos dois. Na revista Anthropophyteia, editada por F. S. Krauss, inestimvel 
fonte de conhecimentos de antropologia sexual, ficamos sabendo que, em determinada regio da Alemanha, de uma mulher que deu  luz uma criana se diz que 'o forno 
dela se fez em pedaos'. Pegar fogo, fazer fogo, e tudo o que com isso se relacione, est intimamente entretecido de simbolismo sexual. A chama  sempre um genital 
masculino e a lareira, o fogo,  seu equivalente feminino.Se os senhores puderem se surpreender com a freqncia com que as paisagens so empregadas nos sonhos 
para representar os genitais femininos, podem aprender da mitologia geral qual o papel desempenhado pela Me Terra nos conceitos e cultos dos povos da Antigidade, 
e como sua viso da agricultura era determinada por esse simbolismo. O fato de, em sonhos, um quarto representar uma mulher, os senhores tendero a atribu-lo ao 
uso idiomtico de nossa linguagem pelo qual 'Frau'  substitudo por 'Frauenzimmer' - o ser humano sendo substitudo pelo aposento destinado a ele. De forma semelhante, 
falamos em 'Sublime Porte' significando o sulto e seu governo. Assim, tambm o ttulo do governante do Egito antigo, 'Fara', significa simplesmente 'Grande Saguo 
do Pao'. (No antigo oriente, os ptios entre os duplos portes de uma cidade eram locais de encontro pblicos, assim como as praas do mercado do mundo clssico 
) Essa derivao, entretanto, parece ser excessivamente superficial. Parece-me mais provvel que um aposento se tornou smbolo de mulher por ser o espao que encerra 
seres humanos. J verificamos que 'casa'  usada em sentido semelhante; e a mitologia e a linguagem potica nos possibilitam acrescentar 'cidade', 'cidadela', 'castelo' 
e 'fortaleza' como outros smbolos para 'mulher'. Poder-se-ia facilmente levantar a questo a respeito de sonhos de pessoas que no falam ou no entendem o idioma 
alemo. Durante esses ltimos anos tenho tratado principalmente pacientes de idioma estrangeiro e parece-me que me lembro de que tambm em seus sonhos 'Zimmer' ['aposento'] 
significava 'Frauenzimmer' embora em seus idiomas no tivessem uso semelhante. Existem outras indicaes de que a relao simblica pode ultrapassar os limites da 
linguagem - o que, alis, foi afirmado
         h muito tempo por um antigo pesquisador de sonhos, Schubert [1814]. No entanto, nenhum de meus pacientes ignorava completamente o alemo, de modo que a 
deciso deve ser deixada aos analistas que podem coligir dados das pessoas que usam um s idioma, em outros pases.
         Dificilmente alguma das representaes simblicas dos genitais masculinos no reaparece no uso anedtico, vulgar ou potico, especialmente junto aos dramaturgos 
clssicos antigos. Entretanto, aqui encontramos no apenas os smbolos que surgem nos sonhos, porm outros mais como, por exemplo, utenslios usados em diversas 
atividades, e especialmente o arado. Ademais, a representao simblica da masculinidade nos leva a uma regio muito extensa e muito controvertida, que por motivos 
de economia evitaremos. Gostaria, no entanto, de dedicar algumas palavras a um smbolo que, por assim dizer, se exclui dessa categoria: o nmero 3. Permanece obscuro 
o fato de saber se este nmero deve seu carter sagrado a essa relao simblica. O que no entanto parece certo  que numerosas coisas tripartidas existentes na 
natureza - a folha de trevo, por exemplo - devem seu uso em brases e emblemas a esse significado simblico. De maneira semelhante, o lrio tripartido - a chamada 
fleur-de-lis - e o notvel desenho herldico de duas ilhas to distantes uma da outra, como a Siclia e a ilha de Man - o trscele (trs pernas meio fletidas irradiando-se 
de um centro) - parecem ser verses estilizadas dos genitais masculinos. As formas do rgo masculino eram consideradas na Antigidade como o mais poderoso apotropaico 
(meio de defesa) contra ms influncias e, por conseguinte, os amuletos de nossos dias podem, todos eles, ser reconhecidos facilmente como smbolos genitais ou sexuais. 
Consideremos uma coleo dessas coisas - como so usadas, por exemplo, na forma de pequenos berloques de prata pendentes: trevo de quatro folhas, porco, cogumelo, 
ferraduras, escada, vassoura de chamin. O trevo de quatro folhas tomou o lugar do de trs folhas, que realmente se presta para ser um smbolo. O porco  um antigo 
smbolo da fertilidade. O cogumelo  sem dvida um smbolo do pnis: existem cogumelos [fungos] que devem seu nome sistemtico (Phallus impudicus)  sua inconfundvel 
semelhana com o rgo masculino. A ferradura reproduz o contorno do orifcio genital feminino, ao passo que a vassoura de chamin, que se associa  escada, aparece 
em companhia desta em face de suas funes, s quais vulgarmente se compara o ato sexual. (Cf. Anthropophyteia.) Conhecemos essa escada, em sonhos, como smbolo 
sexual; aqui o uso idiomtico alemo vem em nosso auxlio e nos mostra como a palavra 'steigen' ['subir', ou 'montar']  usada no que  par excellence um sentido 
sexual. Dizemos 'den Frauen nachsteigen' ['perseguir' (literalmente 'trepar') 'mulheres'], e 'ein alter Steiger' ['um velho farrista' (literalmente 'trepador')]. 
Em francs a palavra para degraus de uma escada  'marches', e encontramos um termo exatamente anlogo 'un vieux marcheur'. O fato de que, em muitos animais de grande 
porte, subir ou 'montar' na fmea  um preliminar necessrio ao ato sexual, provavelmente se presta a este contexto.'Arrancar um galho', como representao simblica 
da masturbao, no apenas se coaduna com as descries vulgares do ato como tambm possui semelhanas mitolgicas amplas. Mas que a masturbao, ou melhor, a punio 
correspondente - a castrao - seja representada pela queda ou extrao de dentes,  fato especialmente notvel, pois existe na antropologia um seu equivalente, 
o qual pode ser do conhecimento de apenas um pequeno nmero das pessoas que sonham. Parece-me inequvoco que a circunciso, praticada por tantos povos,  um equivalente 
e substituto da castrao. E agora sabemos de determinadas tribos primitivas da Austrlia que realizam a circunciso como um rito da puberdade (na cerimnia em que 
se celebra o incio da maturidade sexual de um menino), enquanto outras tribos, seus vizinhos prximos, substituram esse ato pela quebra de um dente.A este ponto, 
encerro minha exposio desses exemplos. So apenas exemplos. A respeito deste assunto conhecemos muito mais; porm os senhores podem imaginar como seria mais rica 
e mais interessante uma coleo como essa, se fosse reunida no por amadores como ns, e sim por verdadeiros profissionais da mitologia, antropologia, filologia 
e do folclore.Algumas conseqncias se impem  nossa ateno; no podem ser completas, porm nos oferecem material para reflexo.Em primeiro lugar, deparamos com 
o fato de que o sonhador tem  sua disposio uma forma simblica de expresso que ele desconhece na vida desperta e no reconhece. Isso  to extraordinrio como 
se os senhores viessem a descobrir que sua empregada domstica entendesse snscrito, embora sabendo que ela nasceu numa aldeia da Bomia e jamais o estudou. No 
 fcil explicar tal fato com o auxlio de nossas concepes psicolgicas. Apenas podemos dizer que o conhecimento do simbolismo  inconsciente naquele que sonha, 
que pertence  sua vida mental inconsciente. Contudo, mesmo com essa suposio, no chegamos ao cerne da questo. At agora apenas nos tem sido necessrio supor 
a existncia de esforos inconscientes - isto , esforos dos quais nada sabemos, temporria ou permanentemente. Agora, porm, trata-se de algo mais que isso simplesmente, 
de parcelas inconscientes de conhecimento, de conexes de pensamentos, de comparao entre diferentes objetos que resultam na possibilidade de estes serem regularmente 
colocados um em lugar do outro. Essas comparaes no so recm-estabelecidas em cada ocasio; esto de antemo prontas para uso e so completas, de uma vez por 
todas. Isso est implcito no fato de serem concordantes, quando se trata de indivduos diferentes - possivelmente, na verdade, concordantes, apesar das diferenas 
de idioma. Qual pode ser a origem dessas relaes simblicas? O uso idiomtico cobre apenas uma parte delas. A multiplicidade de analogias em outras esferas de conhecimento 
, na maioria das vezes, desconhecida da pessoa que tem o sonho; ns mesmos tivemos de laboriosamente colecion-las.Em segundo lugar, tais relaes simblicas no 
constituem peculiaridade do sonhador ou da elaborao onrica, atravs da qual elas adquirem expresso. Esse mesmo simbolismo, como vimos,  empregado por mitos 
e contos de fadas, pelas pessoas em seus ditados e em sua canes, pelo uso idiomtico coloquial e pela imaginao potica. O campo do simbolismo  imensamente amplo 
e o simbolismo onrico constitui apenas pequena parte dele: na verdade, no conduz a nenhum objetivo til atacar o problema a partir dos sonhos. Muitos smbolos 
que so comumente usados em outros contextos aparecem no sonho muito raramente, ou absolutamente no aparecem. Alguns smbolos onricos no podem ser encontrados 
em todas as reas, porm, como os senhores viram, apenas num ou noutro lugar. Tem-se a impresso de que nos defrontamos aqui com um modo de expresso antigo, porm 
extinto, cujas diferentes partes sobreviveram em diferentes campos de fenmenos, uma parte somente aqui, outra somente ali, uma terceira parte, talvez, com suas 
formas ligeiramente modificadas, em diversas reas. E nisso, recordo-me da fantasia de um interessante paciente psictico que imaginou uma 'linguagem bsica' da 
qual todas essas relaes simblicas seriam resduos. Em terceiro lugar, deve ter-lhes causado surpresa que o simbolismo, nas outras reas que mencionei, no  absolutamente 
apenas simbolismo sexual, ao passo que nos sonhos os smbolos so empregados quase exclusivamente para expresso de objetos e relaes sexuais. Isso tambm no se 
explica facilmente. Deveramos supor que os smbolos, que originalmente possuam uma significao sexual, mais tarde tenham adquirido outra aplicao e que, ademais 
disso, a atenuao da representao por smbolos em outros tipos de representao pode estar em conexo com este aspecto? Essas questes evidentemente no podem 
ser respondidas enquanto no houvermos considerado o simbolismo onrico isoladamente. Podemos apenas manter firme a suspeita de que existe uma relao especialmente 
ntima entre smbolos,verdadeiros e sexualidade.
         Com referncia a esse aspecto descobrimos importantes indcios durante esses ltimos anos. Um fillogo, Hans Sperber [1912], de Uppsala, que trabalha independentemente 
da psicanlise, apresentou o argumento de que as necessidades sexuais desempenharam o papel principal na origem e no desenvolvimento da linguagem. Segundo esse autor, 
os sons originais da linguagem se destinavam  comunicao e atraam o parceiro sexual; a evoluo ulterior das razes lingsticas acompanhou as atividades laborativas 
do homem primitivo. Essas atividades, prossegue ele, eram executadas em comum e acompanhadas por expresses ritmicamente repetidas. Assim, um interesse sexual permaneceu 
vinculado ao trabalho. O homem primitivo tornou o trabalho aceitvel, por assim dizer, tratando-o como equivalente e substituto da atividade sexual. As palavras 
enunciadas durante o trabalho em comum tinham, pois, dois significados: designavam atos sexuais e tambm a atividade laborativa que a estes se equiparava. Com o 
decorrer do tempo as palavras se desvincularam da significao sexual e fixaram-se no trabalho. Em geraes posteriores a mesma coisa aconteceu com as palavras novas, 
que tinham significado sexual e eram aplicadas a novas formas de trabalho. Desse modo, numerosas razes de palavras teriam sido formadas, todas elas de origem sexual, 
perdendo subseqentemente sua significao sexual. Se  correta a hiptese que delineei aqui, ela nos possibilitaria compreender o simbolismo dos sonhos. Deveramos 
entender por que os sonhos, que conservam algumas das condies mais primitivas, mantm um nmero to extraordinariamente grande de smbolos sexuais e por que geralmente 
armas e utenslios representam o que  masculino, ao passo que materiais e coisas, que se prestam para serem transformados pelo trabalho, representam o que  feminino. 
A relao simblica seria o resduo de uma antiga identidade verbal, coisas que numa poca foram chamadas pelo mesmo nome, tanto que os genitais poderiam agora servir 
como smbolo para os mesmos, nos sonhos.Os aspectos correlatos que encontramos no simbolismo onrico tambm nos permitem formar uma estimativa dessa caracterstica 
da psicanlise que lhe permite atrair interesse geral, de uma forma que nem a psicologia nem a psiquiatria conseguiram faz-lo. No trabalho da psicanlise formam-se 
vnculos com numerosas outras cincias mentais, cuja investigao promete resultados do mais elevado valor: vnculos com a mitologia e a filosofia, com o folclore, 
com a psicologia social e com a teoria da religio. Os senhores no ficaro surpresos ao ouvir que uma revista cresceu em solo psicanaltico e seu nico objetivo 
 fortificar esses vnculos. Essa revista  conhecida pelo nome de Imago, fundada em 1912 e editada por Hanns Sachs e Otto Rank. Em todos esses vnculos a participao 
da psicanlise , em primeira instncia, a de doador e, apenas em menor escala, a de receptor.  verdade que isso lhe traz a vantagem de seus estranhos achados se 
tornarem mais conhecidos quando constatados tambm em outras reas da cincia; porm, em seu conjunto,  a psicanlise que prov os mtodos tcnicos e as concepes 
cuja aplicao nesses outros campos deve se mostrar proveitosa. A vida mental dos seres humanos, quando sujeita  investigao psicanaltica, oferece-nos explicaes 
com cujo auxlio conseguimos resolver numerosos enigmas da vida das comunidades humanas ou, pelo menos, enquadr-los num enfoque verdadeiro.A propsito, ainda no 
lhes disse absolutamente nada com respeito s circunstncias em que podemos obter nossa mais profunda compreenso da hipottica 'linguagem primitiva', e ao campo 
em que a maior parte desta sobreviveu. At virem a conhec-la, os senhores no podero formar uma opinio de sua total importncia. Pois esse campo  o das neuroses 
e seu material so os sintomas e outras manifestaes dos pacientes neurticos, para cuja elucidao e tratamento a psicanlise foi, de fato, criada. A quarta de 
minhas reflexes nos leva de volta ao comeo e nos conduz por nosso caminho previamente determinado. Eu disse [ver em [1]] que os sonhos, ainda que no houvesse 
censura de sonhos, no seriam facilmente inteligveis para ns, de vez que ainda teramos de nos defrontar com a tarefa de traduzir a linguagem simblica dos sonhos 
para a de nosso pensamento desperto. Assim, o simbolismo  um segundo e independente fator de deformao de sonhos, ao lado da censura de sonhos.  plausvel supor, 
porm, que a censura de sonhos julga conveniente fazer uso do simbolismo, porque isso conduz ao mesmo fim: o carter estranho e incompreensvel dos sonhos.Em breve 
ficar esclarecido se um estudo adicional dos sonhos no nos poder colocar em face de um outro fator que contribui para a deformao dos sonhos. Contudo, eu no 
gostaria de abandonar o tema do simbolismo onrico sem mais uma vez [ver em [1] e [2]] tocar no problema sobre o modo como ele pode encontrar resistncia to acirrada 
em pessoas instrudas, quando a ampla difuso do simbolismo nos mitos, na religio, na arte e na linguagem  to inquestionvel. A responsvel no ser novamente 
sua conexo com a sexualidade?
         
         CONFERNCIA XI - A ELABORAO ONRICA
         
         SENHORAS E SENHORES:
         Quando tiverem compreendido adequadamente a censura de sonhos e a representao por smbolos, verdade  que ainda no tero dominado o assunto sobre a deformao 
em sonhos, e, no obstante, estaro em condies de entender a maioria destes. E para isso os senhores usaro ambas as tcnicas complementares: reunir as idias 
que acodem  mente do sonhador, at haverem compreendido desde a coisa substituta at a coisa original e, fundados no prprio conhecimento dos senhores, substituir 
os smbolos por aquilo que representam. Mais adiante discutiremos algumas incertezas que surgem nessa correlao.Podemos agora dedicar-nos mais uma vez  tarefa 
que tentamos executar anteriormente com recursos inadequados, quando estudvamos as relaes entre os elementos dos sonhos e as coisas originais que eles representam. 
Estabelecemos quatro principais relaes, ou seja [ver em [1] e seg.]: relao da parte com o todo, aproximao ou aluso, relao simblica e representao plstica 
das palavras. Agora nos propomos empreender a mesma coisa, em escala mais ampla, comparando o contedo manifesto de um sonho como um todo com o sonho latente, conforme 
este  revelado pela interpretao.Espero que os senhores nunca mais venham a confundir essas duas coisas uma com a outra. Se alcanarem esse ponto, tero conseguido 
compreender melhor os sonhos do que a maioria dos leitores de meu trabalho A Interpretao de Sonhos. E permitam-me lembrar-lhes novamente que o trabalho que transforma 
o sonho latente no sonho manifesto se chama elaborao onrica. O trabalho que opera em sentido oposto, que intenta chegar ao sonho latente a partir do manifesto, 
 nosso trabalho interpretativo. Esse trabalho interpretativo procura decifrar a elaborao onrica. Os sonhos de tipo infantil, que reconhecemos como evidente realizaes 
de desejos, ainda assim sofreram determinado grau de elaborao onrica - sofreram uma transformao de desejo em experincia real e, tambm, via de regra, de pensamentos 
foram transformados em imagens visuais. No caso deles, no h necessidade de interpretao, porm apenas se requer sejam desfeitas essas duas transformaes. A elaborao 
onrica adicional que ocorre em outros sonhos denomina-se 'deformao onrica', e  esta que deve ser decifrada atravs de nosso trabalho interpretativo.
         Tendo comparado as interpretaes de numerosos sonhos, estou em condies de lhes apresentar uma descrio sumria daquilo que a elaborao onrica executa 
com o material dos pensamentos onricos latentes. Peo-lhes, entretanto, no procurarem entender demais acerca das coisas que lhes digo. Tratar-se- de uma descrio 
que deve ser ouvida com serena ateno.A primeira realizao da elaborao onrica  a condensao.
         Entendemos, com isso, que o sonho manifesto possui um contedo menor do que o latente, e  deste uma traduo abreviada, portanto. s vezes a condensao 
pode estar ausente; via de regra se faz presente e, muitssimas vezes,  enorme. Jamais ocorre uma mudana em sentido inverso; ou seja, nunca encontramos um sonho 
manifesto com extenso ou com contedo maior do que o sonho latente. A condensao se realiza das seguintes maneiras: (1) determinados elementos latentes so totalmente 
omitidos, (2) apenas um fragmento de alguns complexos do sonho latente transparece no sonho manifesto e (3) determinados elementos latentes, que tm algo em comum, 
se combinam e se fundem em uma s unidade no sonho manifesto.Se preferirem, podemos reservar o termo 'condensao' apenas para o ltimo desses processos. Seus resultados 
podem ser demonstrados com especial facilidade. Os senhores no tero dificuldade em relembrar exemplos de seus prprios sonhos, em que pessoas diferentes so condensadas 
em um a s. Um personagem composto, deste tipo, pode, talvez, assemelhar-se a A, mas pode, talvez, assemelhar-se a A, contudo pode estar vestida como B, executar 
algo que lembre C, e ao mesmo tempo podemos saber que  D. Essa estrutura composta naturalmente est dando nfase quilo que as quatro pessoas tm em comum.  possvel, 
naturalmente, formar tal estrutura composta de coisas ou de lugares, do mesmo modo que de pessoas, contanto que as diferentes coisas e lugares tenham em comum algo 
que o sonho latente acentua. O processo se assemelha  construo de um conceito novo e transitrio que tem nesse elemento comum o seu ncleo. O resultado dessa 
superposio de elementos separados, que foram condensados conjuntamente, , via de regra, uma imagem difusa e vaga,  semelhana daquilo que sucede quando se batem 
diversas fotografias sobre uma mesma chapa.A produo de estruturas compostas, como essas referidas, deve ser de grande importncia para a elaborao onrica, porquanto 
podemos demonstrar que ali onde inicialmente faltam os elementos comuns para form-las, estes so introduzidos deliberadamente - por exemplo, atravs da escolha 
da palavra pelas quais um pensamento  expresso. J encontramos condensaes e estruturas compostas dessa espcie. Desempenharam seu papel na produo de determinados 
lapsos de lngua. Os senhores se recordam do jovem senhor que se prontificou a 'begleitdigen' ['begleiten (acompanhar)' + 'beleidigen (insultar)', ver em [1]] uma 
senhora. E, tambm, existem anedotas cuja tcnica se baseia em uma condensao desse tipo. Salvo esses casos, porm, pode-se dizer que o processo  muito raro e 
estranho.  verdade que as partes componentes destinadas a essa construo devem situar-se em algumas criaes de nossa imaginao, que est pronta para combinar 
em uma unidade componentes de coisas que no formam conjunto em nossa experincia corrente - nos centauros, por exemplo, e nos animais fabulosos que aparecem na 
mitologia antiga ou nos quadros de Bcklin. A imaginao 'criativa' realmente  bastante incapaz de inventar qualquer coisa; ela pode apenas combinar entre si componentes 
que so estranhos. O notvel no que se refere ao processo da elaborao onrica, contudo, reside no que vem a seguir. O material disponvel  elaborao onrica 
consiste de pensamentos - alguns deles podem ser censurados ou inaceitveis, porm so corretamente construdos e expressos. A elaborao onrica d a esses pensamentos 
uma outra forma, e constitui fato singular e incompreensvel que, sendo feita tal traduo (transmitindo essa mensagem, digamos assim, atravs de um outro texto 
da linguagem), esses mtodos de mistura e combinao se realizam. Afinal, uma traduo se esfora por preservar as diferenas constantes do texto original e especialmente 
por manter separadas as coisas que so apenas semelhantes. A elaborao onrica, muito ao contrrio, procura condensar dois pensamentos diferentes buscando (como 
um chiste) uma palavra ambgua na qual os dois pensamentos se possam juntar. No preisamos tentar compreender esse aspecto de uma s vez; no entanto, ele pode ser 
importante em nosso estudo crtico da elaborao onrica.
         Embora a condensao torne os sonhos obscuros, no parece dar-nos a impresso de ela ser efeito da censura. Antes, parece ser devida a um fator automtico 
ou econmico, mas, em todo caso, a censura lucra com ela.Aquilo que a condensao consegue realizar pode ser bastante extraordinrio. s vezes  possvel, com seu 
auxlio, combinar duas seqncias de pensamentos latentes muito diferentes, em um nico sonho manifesto, de modo que se pode chegar a algo que parece ser uma interpretao 
suficiente de sonho, e no entanto, procedendo assim, pode-se deixar de perceber uma possvel 'superinterpretao'.No que concerne  relao entre o sonho latente 
e o manifesto, a condensao tem como conseqncia o estabelecimento de uma relao no-simples entre os elementos de um e de outro. Um elemento manifesto pode corresponder 
simultaneamente a diversos elementos latentes e, em sentido inverso, um elemento latente pode desempenhar seu papel em diversos elementos manifestos - existe, por 
assim dizer, um relacionamento entrecruzado (ver em [1]). Ademais, ao interpretar um sonho verificamos que as associaes com um nico elemento manifesto nem sempre 
emergem em seqncia ordenada: muitas vezes devemos esperar at todo o sonho ter sido interpretado.A elaborao onrica assim efetua uma espcie muito inusitada 
de transcrio dos pensamentos onricos: no se trata de uma traduo palavra-por-palavra ou sinal-por-sinal; e nem se trata de uma soluo feita segundo normas 
fixas - como seria no caso de se reproduzir apenas as consoantes de uma palavra e eliminar as vogais; e tambm no  aquilo que se poderia descrever como soluo 
representativa - um elemento sendo invariavelmente escolhido para tomar o lugar de vrios elementos; trata-se de algo diferente e muito mais complexo.A segunda realizao 
da elaborao onrica  o deslocamento. Felizmente j procedemos a um exame preliminar do mesmo: pois j sabemos que  inteiramente obra da censura dos sonhos. Manifesta-se 
de duas maneiras: na primeira, um elemento latente  substitudo no por uma parte componente de si mesmo, mas por alguma coisa mais remota, isto , por uma aluso; 
e, na segunda, o acento psquico  mudado de um elemento importante para outros sem importncia, de forma que sonho parece descentrado e estranho.A substituio 
de algo por meio de uma aluso constitui processo corrente tambm em nosso pensamento desperto, porm existe uma diferena. No pensamento desperto, a aluso deve 
ser inteiramente inteligvel, e o substituto deve estar relacionado, no seu tema, com a coisa original que representa. Tambm os chistes fazem uso da aluso. Eles 
prescindem da precondio de haver uma associao no tema e a substituem por associaes externas incomuns, tais como semelhana de sons, ambigidade verbal, e assim 
por diante. Conservam, contudo, a precondio de inteligibilidade: um chiste perderia toda a sua eficincia se o caminho retroativo que vai da aluso  coisa original 
no pudesse ser percorrido com facilidade. As aluses usadas para fins de deslocamento nos sonhos esto livres de ambas essas restries. Elas esto em conexo com 
o elemento que substituem atravs das relaes mais externas e remotas e so, pois, ininteligveis; e, quando so desfeitas, sua interpretao d a impresso de 
serem um mau chiste ou de constiturem uma explicao aleatria e forada, tirada no se sabe de onde. Pois a censura de sonhos s consegue seu objetivo quando consegue 
tornar impossvel que se encontre o caminho desde a aluso at a coisa original.O deslocamento do acento  um mtodo sem igual de expressar pensamentos. Algumas 
vezes o utilizamos no pensamento desperto, a fim de conseguir um efeito cmico. Talvez eu possa recriar aqui a impresso de alheamento causada por esse mtodo recordando 
uma anedota. Numa aldeia havia um ferreiro que cometera um crime capital. O jri decidiu que o crime devia ser punido; porm, como o ferreiro era o nico na aldeia 
e era indispensvel, e como, por outro lado, l viviam trs alfaiates, um destes foi enforcado em seu lugar.
         A terceira realizao da elaborao onrica  psicologicamente a mais interessante. Consiste em transformar pensamentos em imagens visuais. Deixemos claro 
que essa transformao no afeta tudo nos pensamentos onricos; alguns deles conservam sua forma e aparecem no sonho manifesto tambm como pensamentos ou conhecimentos; 
e nem so as imagens visuais a nica forma na qual os pensamentos se transformam. Ainda assim, eles enfeixam a essncia da formao dos sonhos; essa parte da elaborao 
onrica, como j sabemos,  a segunda parte mais constante [ver em [1] e [2]] e j nos familiarizamos com a representao grfica das palavras no caso dos elementos 
onricos isolados [ver em [1] e [2]].Claro que essa realizao no  fcil. Para termos uma idia de suas dificuldades, suponhamos que os senhores tivessem assumido 
a tarefa de substituir um editorial poltico, em um jornal, por uma srie de ilustraes. Os senhores teriam de retroceder da escrita alfabtica para a escrita pictogrfica. 
Em um tal artigo mencionando pessoas e objetos concretos, os senhores os substituiriam com facilidade e talvez at mesmo com vantagem, por meio de figuras; contudo, 
as dificuldades comeariam quando se tratasse da representao de palavras abstratas e de todos aqueles componentes do discurso que indicam relaes entre pensamentos 
- tal como partculas, conjunes, e assim por diante. No caso de palavras abstratas os senhores conseguiro recorrer a uma variedade de solues. Por exemplo, os 
senhores se esforariam por dar ao texto um enunciado diferente, que talvez pudesse parecer menos usual, porm com mais componentes concretos e possveis de ser 
representados. Ento os senhores se lembrariam de que a maioria das palavras abstratas so palavras concretas 'diludas', e, por essa razo, teramos que retroceder, 
sempre que possvel,  significao concreta original de tais palavras. Assim, os senhores teriam o prazer de constatar que podem representar 'a possesso' de um 
objeto pela ao real, fsica, de estar sentado sobre o mesmo. E a elaborao onrica executa justamente a mesma coisa. Em tais circunstncias, dificilmente poderiam 
esperar uma grande preciso daquilo que os senhores representassem: de forma semelhante perdoariam a elaborao onrica por substituir um elemento to difcil de 
traduzir em imagens, como, por exemplo, 'adultrio' ['Ehebruch', literalmente 'quebra do casamento'] por outra quebra: a fratura de uma perna ['Beinbruch']. E dessa 
forma os senhores conseguiriam, at certo ponto, compensar a falta de habilidade expressiva da escrita pictrica que estaria supostamente substituindo a escrita 
alfabtica.Para representar aquelas partes do discurso que indicam relaes entre pensamentos - 'porque', 'portanto', 'entretanto', etc. - os senhores no poderiam 
contar com semelhante ajuda  sua disposio; esses constituintes do texto se perderiam  medida que a traduo os transformasse em imagens. Da mesma forma, a elaborao 
onrica reduz o contedo dos pensamentos onricos  sua matria-prima de objetos e de atividade. Os senhores se dariam por satisfeitos com haver uma possibilidade 
de, por alguma forma, deixar entrever, atravs de sutis detalhes das figuras, determinadas relaes no em si capazes de ser representadas. E  precisamente assim 
que a elaborao onrica consegue expressar algo do contedo dos pensamentos onricos latentes por meio de peculiaridades na forma do sonho manifesto: por sua clareza 
ou obscuridade, por sua diviso em diversas partes, e assim por diante. O nmero de partes onricas em que se divide um sonho geralmente corresponde ao nmero dos 
temas principais dos pensamentos no sonho latente. Um sonho introdutrio curto freqentemente faz as vezes de preldio a um sonho seguinte mais detalhado, o sonho 
principal, ou pode proporcionar o motivo para o mesmo; uma orao subordinada nos pensamentos onricos ser substituda pela interpolao de uma mudana de cena 
no sonho manifesto, e assim por diante. Logo, a forma dos sonhos est longe de no ter alguma importncia, e essa mesma forma exige interpretao. Quando diversos 
sonhos ocorrem durante a mesma noite, tm freqentemente a mesma significao e indicam que est sendo feita uma tentativa de manejar cada vez mais eficazmente um 
estmulo de crescente insistncia. Em sonhos separados, um elemento especialmente difcil pode estar representado por diversos smbolos - por 'dobletes'.Se fizermos 
uma srie de comparaes entre os pensamentos onricos e os sonhos manifestos que os substituem, encontraremos toda sorte de coisas para as quais estamos despreparados: 
por exemplo, que o disparate e o absurdo dos sonhos possuem seu significado. Neste aspecto, com efeito o contraste entre a viso mdica e a psicanaltica dos sonhos 
apresenta uma discordncia que no se encontra em qualquer outra rea. Segundo o ponto de vista mdico, os sonhos so desprovidos de sentido porque a atividade mental 
nos sonhos abandonou todas as suas faculdades de crtica; segundo nosso ponto de vista, pelo contrrio, os sonhos se tornam carentes de sentido quando uma parcela 
de crtica, includa nos pensamentos onricos - um julgamento de que 'isso  absurdo' -, tem de ser representada. O sonho que os senhores conhecem, aquele da ida 
ao teatro ('trs ingressos por 1,50 florim') [ver em [1]],  um bom exemplo disso. O julgamento que expressou era: 'foi absurdo casar to cedo.'De forma semelhante, 
no decurso de nosso trabalho interpretativo, percebemos o que  que corresponde s dvidas e incertezas, que tantas vezes se expressam nos sonhos, dvidas sobre 
saber se determinado elemento ocorreu em um sonho, se foi isso ou se, pelo contrrio, foi alguma outra coisa. Via de regra, nos pensamentos onricos latentes no 
h nada correspondente a essas dvidas e incertezas; estas se devem  atividade da censura de sonhos e devem ser identificadas como tentativas de eliminao que 
no tiveram muito xito.Entre os achados mais surpreendentes encontra-se a maneira como a elaborao onrica trata os contrrios que ocorrem nos sonhos latentes. 
J sabemos [ver em [1] e [2]] que as semelhanas no material latente so substitudas por condensaes no sonho manifesto. Pois bem, os contrrios so tratados da 
mesma forma que as semelhanas, e existe uma especial preferncia por express-los pelo mesmo elemento manifesto. Assim, um elemento no sonho manifesto, capaz de 
ter o seu contrrio, com igual facilidade pode estar se expressando a si prprio, ou seu contrrio, ou ambos conjuntamente: apenas o sentido pode decidir qual a 
verso que se deve escolher. Isto se vincula com o fato adicional de que, nos sonhos, no se encontrar uma representao para 'no' - ou, de qualquer modo, uma 
representao isenta de ambigidade.Uma oportuna analogia com esse estranho comportamento da elaborao onrica nos  proporcionada com a evoluo da linguagem. 
Alguns fillogos tm afirmado que, nos idiomas mais antigos, os contrrios, tais como 'forte-fraco', 'claro-escuro', 'grande-pequeno', so expressos pelas mesmas 
razes verbais. ( o que denominamos 'significao antittica de palavras primitivas'.) Assim, no idioma egpcio antigo, 'ken' originalmente significava 'forte' 
e 'fraco'. No falar, evitam-se os equvocos, provenientes do uso dessas palavras ambivalentes, atravs de diferenas de entonao e de gestos concomitantes, e, no 
escrever, pelo acrscimo de algo chamado 'determinativo'- uma figura que no se destina a ser falada. Por exemplo, 'ken' com a significao de 'forte' era escrito 
com a figura de um homenzinho na vertical, aps os sinais alfabticos; quando 'ken' representava 'fraco', o que se seguia era a figura de um homem instavelmente 
agachado. Foi somente mais tarde, por meio de ligeiras modificaes da palavra homloga original, que se chegou a duas representaes distintas para expressar os 
contrrios nela includos. Foi assim que de 'ken' 'forte-fraco' derivaram 'ken' 'forte' e 'kan' 'fraco'. Os remanescentes dessa significao antittica antiga parecem 
ter sido conservados no somente nas mais recentes evolues dos idiomas mais primitivos como tambm nos idiomas mais novos e at mesmo em algumas lnguas ainda 
vivas. Aqui esto algumas provas disso, retiradas de K. Abel (1884).No latim, palavras que permaneceram ambivalentes so 'altus' ('alto' e 'profundo') e 'sacer' 
('sagrado' e 'maldito').Como exemplos de modificaes da mesma raiz, posso mencionar 'clamare' ('chorar'), 'clam' ('macio', 'sossegado', 'secreto'); 'siccus' ('seco'), 
'succus' ('suco'). E em alemo: 'Stimme' ['voz'], 'stumm' ['mudo'].Se compararmos lnguas afins, encontraremos numerosos exemplos. Em ingls 'to lock' ('fechar'), 
em alemo 'Loch' ['buraco'] e 'Lcke' ['fresta']. Em ingls, 'to cleave'; em alemo 'kleben' ['aderir'].A palavra inglesa 'without' (que  realmente 'withwithout', 
'com - sem')  empregada atualmente apenas como 'without' ('sem'). O 'with', alm de seu sentido de combinar, originalmente tinha tambm o de remover; isso ainda 
se percebe nos compostos 'withdraw' ('remover') e 'withhold' ('reter'). De maneira semelhante, em alemo 'wieder' ['junto com'] e 'wider' ['contra'].Outra caracterstica 
da elaborao onrica tambm tem seu correspondente na evoluo da linguagem. No antigo idioma egpcio, assim como em outras lnguas menos primitivas, a ordem dos 
sons numa palavra pode ser invertida, ao mesmo tempo conservando a mesma significao. Constituem exemplos disso, no ingls e no alemo. 'Topf' - ['pot'] ('panela'); 
'boat' ('barco') - 'tub' ('banheira', 'barco para prtica de remo'); 'hurry' ('pressa') - 'Ruhe' ['rest'] ('descanso'); 'Balken' ['beam'] ('viga') - 'Kloben' ['log'] 
('tora', 'madeira') e 'club' ('clava'); 'wait' ('esperar') - 'tuwen' ['tarry'] ('esperar', 'demorar-se'). De maneira semelhante, encontramos no latim e no alemo: 
'capere' - 'packen' ['pegar']; 'ren' - 'Niere' ['rim'].Inverses, como essas que ocorrem aqui, em palavras isoladas, efetuam-se de vrias maneiras na elaborao 
onrica. J conhecemos a inverso de significado, a substituio de algo pelo seu oposto [ver em [1] e [2]]. Ademais disso, nos sonhos encontramos diverses de situaes, 
da relao entre duas pessoas - um mundo 'virado de pernas para o ar'. Muito freqentemente, em sonhos  a caa que atira no caador. Ou ento encontramos uma inverso 
na ordem dos eventos, de modo que aquilo que precede causalmente um evento ocorre depois do mesmo, no sonho - como uma produo teatral realizada por uma companhia 
de terceira categoria, na qual o heri cai morto e o tiro que o matou no  detonado nos bastidores seno bem depois. E tambm h sonhos nos quais a ordem total 
dos elementos se encontra invertida de forma que, para se obter sentido, quando de sua interpretao, devemos tomar o ltimo elemento em primeiro lugar e o primeiro, 
em ltimo. Os senhores tambm recordam, de quando estudamos o simbolismo dos sonhos, que entrar ou cair na gua significa o mesmo que sair dela - -isto , dar  
luz ou nascer [ver em [1]], e que subir uma escadaria ou uma escada  a mesma coisa que desc-la [ver em [1]]. No  difcil ver qual a vantagem que a deformao 
onrica pode auferir desta liberdade de representao.Estes aspectos da elaborao onrica podem ser descritos como arcaicos. So igualmente caractersticos dos 
sistemas antigos de expresso falada e escrita e importam nas mesmas dificuldades que teremos de abordar, mais adiante, em um sentido crtico.Agora, mais algumas 
consideraes. No caso da elaborao onrica, trata-se claramente da questo de transformar os pensamentos latentes, que so expressos em palavras, em imagens sensoriais, 
a maioria na forma de imagens visuais. Ora, nossos pensamentos originalmente surgiram de imagens sensoriais desta espcie: seu primeiro material e seus estdios 
preliminares foram impresses dos sentidos, ou, mais propriamente, imagens mnmicas dessas impresses. Somente mais tarde as palavras foram vinculadas a essas impresses 
e as palavras, por sua vez, vincularam-se a pensamentos. Assim, a elaborao onrica submete os pensamentos a um tratamento regressivo e desfaz a sua evoluo; e, 
no decorrer da regresso, tem de ser eliminado tudo o que foi acrescido como aquisio nova no decorrer da evoluo das imagens mnmicas para pensamentos.Tal parece 
ser, pois, a elaborao onrica. Em comparao com os processos que nela vimos a conhecer, o interesse pelo sonho manifesto deve perder muito de sua importncia. 
Mas dedicarei alguns comentrios a este ltimo, pois  dele, somente, que temos conhecimento imediato. natural devermos perder algo do interesse pelo sonho manifesto. 
Para ns ser indiferente se ele est bem composto, ou se est fracionado em uma srie de quadros separados e desconexos. Mesmo quando possui um exterior aparentemente 
inteligvel, sabemos que isso somente se fez pela deformao onrica, e pode ter to pouca relao orgnica com o contedo interno do sonho, como a fachada de uma 
igreja italiana com uma estrutura e sua planta. Outras ocasies h em que esta fachada do sonho tem sua significao, e reproduz um importante componente dos pensamentos 
onricos latentes com pouca ou nenhuma deformao. Mas isso no podemos saber sem primeiro termos submetido o sonho  interpretao e podermos formar um julgamento, 
a partir dessa interpretao, do grau de deformao que se realizou. Dvida semelhante surge quando dois elementos em um sonho parecem ter entrado em relao ntima 
um com o outro. Isso talvez nos fornea um valioso indcio de que podemos juntar tambm no sonho latente aquilo que corresponde a esses elementos. Em outras ocasies, 
porm, podemos nos convencer de que aquilo que  da mesma classe, nos pensamentos onricos, foi disposto separadamente no sonho.Em geral, deve-se evitar a tentativa 
de explicar uma parte do sonho manifesto por outra, como se o sonho tivesse sido concebido coerentemente e fosse uma narrativa com ordenao lgica. Pelo contrrio, 
via de regra,  como um pedao de brecha, composto de diversos fragmentos de rocha unidos por um cimento, de modo que os desenhos que nele aparecem no pertencem 
s rochas originais inclusas. E h realmente uma parte da elaborao onrica, conhecida como 'elaborao secundria', cuja funo  conferir um aspecto de unidade 
e maior ou menor coerncia aos produtos primrios da elaborao onrica. No transcorrer desta, o material  arranjado segundo o que amide  um sentido totalmente 
confuso, e, onde parece necessrio, so feitas interpolaes.
         Por outro lado, no devemos superestimar a elaborao onrica e atribuir-lhe demasiada importncia. As suas realizaes, que citei, resumem toda a sua atividade; 
ela no pode fazer mais que condensar, deslocar, representar em forma plstica e submeter o todo a uma elaborao secundria. O que no sonho aparece como expresso 
de julgamento, crtica, surpresa ou interferncia - nada disso so realizaes da elaborao onrica e muito raramente so expresses de pensamentos subseqentes 
referentes ao sonho; na sua maioria, so parcelas de pensamentos onricos que passaram para o sonho manifesto com maior ou menor grau de modificao e adaptao 
ao contexto. E a elaborao onrica no consegue formar discursos. Com algumas excees destacadas, os discursos nos sonhos so cpias e combinaes de discursos 
que algum ouviu ou enunciou para si prprio no dia anterior ao sonho e que foram includos nos pensamentos latentes, ou como material ou como instigadores dos sonhos. 
A elaborao onrica tambm  incapaz de efetuar clculos. Estes, quando surgem no sonho manifesto, so, na maioria, combinaes de nmeros, clculos simulados, 
muito desprovidos de sentido enquanto clculos e, mais uma vez, apenas cpias de clculos dos pensamentos onricos latentes. Nessas circunstncias, no  de admirar 
se o interesse, que se havia voltado para a elaborao onrica, logo tende a se deslocar desta para os pensamentos onricos latentes, que se revelam, deformados 
em grau maior ou menor, atravs do sonho manifesto. Mas no existe justificativa para levar to longe essa mudana de interesse a ponto de, considerando o assunto 
teoricamente, substituir o sonho, completamente, pelos pensamentos onricos latentes e afirmar sobre aquele alguma coisa que se aplica exclusivamente a estes.  
estranho que os achados da psicanlise possam prestar-se a um mau uso que possibilite confuses. No se pode dar o nome de 'sonho' a nenhuma outra coisa que no 
seja produto da elaborao onrica - isto , a forma em que os pensamentos latentes foram transmutados pela elaborao onrica. [ver em [1] e segs.]A elaborao 
onrica  um processo de tipo muito singular, do qual ainda no se tem conhecido similar na vida mental. Condensaes, deslocamentos, transformaes regressivas 
de pensamentos em imagens: eis os novos fatos cuja descoberta premiou abundantemente os esforos da psicanlise. E os senhores podem constatar, uma vez mais, a partir 
das comparaes com a elaborao onrica, as conexes que se revelaram entre os estudos psicanalticos e outros campos do conhecimento - especialmente os referentes 
 evoluo da linguagem e do pensamento. Somente podero formar uma idia da transcendente importncia destas descobertas quando aprenderem que o mecanismo da construo 
onrica  o modelo segundo o qual se formam os sintomas neurticos.Tambm estou cnscio de que ainda no estamos em condies de fazer um apanhado geral do total 
das novas aquisies com que estes estudos contriburam para a psicologia. Apenas quero assinalar as recentes provas que eles proporcionaram da existncia de atos 
mentais inconscientes - pois  isto que so os pensamentos onricos latentes - e assinalar quo inimaginvel e amplo acesso a um conhecimento da vida mental inconsciente 
nos promete a interpretao de sonhos.Agora, contudo, sem dvida chegou a minha ocasio de demonstrar-lhes, dentre uma variedade de pequenos exemplos de sonhos, 
para que fim estive preparando os senhores no decorrer destes comentrios.
         
         
         
         CONFERNCIA XII - ALGUMAS ANLISES DE AMOSTRAS DE SONHOS
         
         SENHORAS E SENHORES:
         No devem ficar desapontados se, mais uma vez, apresento-lhes fragmentos de interpretaes de sonhos, em vez de convid-los a tomar parte na interpretao 
de um lindo e grande sonho. Os senhores argumentaro que, aps tantos preparativos, tm esse direito, e expressaro sua convico de que, depois de tantos milhares 
de sonhos terem sido exitosamente interpretados, j h muito tempo deveria ter sido possvel haver juntado uma coleo de excelentes amostras de sonhos sobre as 
quais todas as nossas assertivas referentes  elaborao onrica e aos pensamentos onricos pudessem ser demonstradas. Certo. As dificuldades que se opem  realizao 
do desejo dos senhores, todavia, so muitas.
         Em primeiro lugar, devo admitir que ningum efetua interpretao de sonhos como sua atividade principal. Como ocorre, ento, que as pessoas os interpretam? 
Ocasionalmente, sem nenhum objetivo em vista, algum pode se interessar por sonhos de um conhecido seu, ou algum pode esquadrinhar seus prprios sonhos durante 
algum tempo a fim de preparar-se para o trabalho psicanaltico; mas, na maior parte das vezes, aquilo com que se tem de lidar so os sonhos de pacientes neurticos 
que esto em tratamento psicanaltico. Esses sonhos constituem excelente material e de modo algum so inferiores aos de pessoas sadias; a tcnica do tratamento, 
porm, requer que subordinemos a interpretao de sonhos aos objetivos teraputicos, e temos de permitir que bom nmero de sonhos tenha sido examinado at havermos 
extrado dos mesmos alguma coisa de utilidade para o tratamento. Alguns sonhos que ocorrem durante o tratamento escapam inteiramente a uma anlise completa: de vez 
que se originam de um grande acervo de material que ainda nos  desconhecido,  impossvel entend-los antes de o tratamento chegar ao trmino. Se eu fosse relatar 
sonhos deste tipo, seria obrigado a desvendar tambm todos os segredos de uma neurose; e isto no nos servir, pois foi precisamente a fim de preparar-nos para o 
estudo das neuroses que enfrentamos o problema dos sonhos.
         Os senhores, entretanto, gostariam de dispensar essa parte e prefeririam que lhes fosse dada uma explanao dos sonhos de pessoas sadias ou de sonhos dos 
senhores mesmos. Isto, contudo, no pode ser feito por causa de seu contedo.  impossvel submeter seja a si mesmo, seja qualquer outra pessoa de cuja confiana 
se desfruta, a uma exposio impiedosa que adviria a da anlise detalhada de seus sonhos, os quais, como os senhores j sabem, referem-se  parte mais ntima da 
personalidade. Mas existe ainda outra dificuldade que se ope, afora a de fornecer material. Os senhores sabem que os sonhos apresentam uma aparncia estranha para 
o prprio sonhador, e ainda mais estranha para quem quer que no o conhea pessoalmente. Nossa bibliografia no  pobre de boas e detalhadas anlises de sonhos. 
Eu mesmo publiquei algumas, dentro do quadro referencial dos casos clnicos. Talvez o melhor exemplo de interpretao de um sonho seja o que foi relatado por Otto 
Rank [1910b], consistindo em dois sonhos inter-relacionados, tidos por uma jovem, que ocupam cerca de duas pginas impressas: mas sua anlise vai a setenta e seis 
pginas. Assim, eu deveria necessitar de cerca de um semestre inteiro para conduzi-los atravs de um nico trabalho dessa espcie. Se se tomar qualquer sonho relativamente 
longo e muito deformado, h que fornecer tantas explicaes do mesmo, levantar tanto material que surge no curso das associaes e das recordaes, seguir tantas 
vias secundrias, que uma conferncia a respeito dele seria muito confusa e insatisfatria. Devo, portanto, pedir-lhes que se contentem com o que se pode ter com 
mais facilidade: uma descrio de pequenas parcelas de sonhos de pacientes neurticos, em que  possvel reconhecer este ou aquele ponto isoladamente. O que  mais 
fcil de demonstrar so os smbolos onricos e, depois destes, algumas caractersticas da representao regressiva nos sonhos. No caso de cada um dos sonhos que 
se seguem, indicarei o motivo por que penso valer a pena relat-lo.
         (1) Este sonho consiste em apenas dois quadros breves: O tio dele estava fumando um cigarro, embora fosse sbado. - Uma mulher o acariciava e o acarinhava 
[ao sonhador] como se fosse seu filho.
         Com referncia ao primeiro quadro, a pessoa que sonhou (um judeu) comentou que seu tio era um homem piedoso, que nunca fizera e jamais poderia fazer algo 
assim pecaminoso. No que concerne  mulher, no segundo quadro, no lhe ocorreu nada  mente, exceto sua me. Esses dois quadros ou pensamentos devem evidentemente 
ser vistos um em relao ao outro. Mas, como? Visto que ele negou expressamente a realidade da ao de seu tio,  plausvel inserir um 'se'. 'Se meu tio, este homem 
piedoso, viesse a fumar um cigarro em dia de sbado, ento eu tambm poderia permitir-me ser acarinhado pela minha me.' Isto significa, evidentemente, que trocar 
carcias com sua me se constitua em algo no permissvel como no seria permissvel a um judeu piedoso fumar no sbado. Os senhores se lembram de que eu lhes disse 
[ver em [1] e [2]] que no decurso da elaborao onrica todas as relaes entre os pensamentos onricos so eliminadas; elas se dissipam dentro da matria-prima 
destes e compete  interpretao reinserir as relaes omitidas.
         (2) Em conseqncia de minhas publicaes sobre sonhos, tornei-me, em certo sentido, consultor pblico sobre assuntos referentes a eles, e, por muitos anos, 
venho recebendo comunicaes das mais variadas origens, em que sonhos me so relatados ou submetidos a meu julgamento. Naturalmente, sou grato a todo aquele que 
acrescenta ao sonho material suficiente para possibilitar uma interpretao, ou que d, ele prprio, uma interpretao. O sonho que se segue, sonhado por um estudante 
de medicina de Munique, e datando do ano de 1910, enquadra-se nesta categoria. Apresento-o para lhes mostrar como, em geral,  impossvel compreender um sonho enquanto 
o sonhador no nos der as informaes pertinentes. Pois suspeito que, no fundo, os senhores pensam que o mtodo ideal de interpretao de sonhos consistiria em preencher 
a significao dos smbolos e que gostariam de prescindir da tcnica de obter associaes com os sonhos; e estou desejoso de dissuadi-los desse equvoco nocivo.'13 
de julho de 1910. Pela manh, tive este sonho: Eu estava andando de bicicleta por uma rua de Tbingen, quando um co rasteiro, de cor marrom, se lanou ao meu encalo 
e me atacou no calcanhar. Logo desci da bicicleta, sentei num degrau e comecei a espancar o animal que me mordia com firmeza. (No tive qualquer sentimento desagradvel 
nem pela mordida nem pela cena como um todo.) Algumas senhoras mais idosas estavam sentadas no outro lado da rua, em frente, e riam de mim, mostrando os dentes. 
Ento acordei e, como tantas vezes me aconteceu, no momento da transio para o despertar, o sonho todo se me tornou claro.'
         Aqui os smbolos so de pouca ajuda. O mesmo estudante, porm, relatou: 'Recentemente, me apaixonei por uma jovem, mas apenas pude v-la na rua e no tive 
meios de falar-lhe. O co rasteiro poderia ser o meio mais agradvel de conseguir isso, especialmente porque tenho grande afeio por animais e gostei dessa mesma 
caracterstica na jovem.' Acrescentou que ele repetidamente havia intervindo em furiosas brigas de ces, com grande habilidade, e muitas vezes para surpresa dos 
circunstantes. Sabemos tambm que a jovem, pela qual ele se sentia atrado, sempre era vista na companhia de seu co de estimao. No que tange o sonho manifesto, 
porm, a jovem foi omitida e somente restou o co, que ele associava a ela. As senhoras de idade, que se riam dele, talvez possam estar em lugar da jovem. Seus outros 
comentrios no esclareceram adequadamente este ponto. O fato de, no sonho, ele estar andando de bicicleta,  uma repetio direta da situao recordada. Ele nunca 
encontrou a jovem com o co, a no ser quando ele estava andando de bicicleta.
         (3) Quando se perde algum que  de nossas relaes e nos  caro, surgem sonhos de um tipo especial, durante algum tempo aps, nos quais o conhecimento 
da morte chega s mais estranhas conciliaes com a necessidade de trazer novamente  vida a pessoa morta. Em alguns desses sonhos, a pessoa que morreu est morta 
e ao mesmo tempo permanece viva porque no sabe que est morta; somente se soubesse, morreria completamente. Em outros, a pessoa est meio morta e meio viva, e cada 
um desses estados vem indicado por uma forma particular. No devemos descrever esses sonhos como simplesmente absurdos; pois ser devolvido novamente  vida no  
mais inconcebvel nos sonhos do que o , por exemplo, em contos de fadas, nos quais isso ocorre como fato muito rotineiro. Sempre que pude avaliar tais sonhos, constatei 
que eles so passveis de uma soluo racional; contudo, o piedoso desejo de fazer retornar  vida a pessoa morta conseguiu operar pelos mais estranhos meios. Apresentar-lhes-ei 
agora um sonho desse tipo, que parece to esquisito e absurdo, e, no entanto, sua anlise lhes mostrar muitas coisas para as quais nossas explicaes tericas os 
tero preparado.  o sonho de um homem que havia perdido seu pai, vrios anos antes:
         Seu pai estava morto, mas havia sido exumado e parecia estar mal. Tinha estado vivendo desde ento e o homem, no sonho, fazia todo o possvel para evitar 
que o pai percebesse. (O sonho continuava com outros assuntos, aparentemente muito diferentes.)
         Seu pai estava morto; sabemos disso. O ter sido exumado no corresponde  realidade; e no havia nada de realidade em tudo o que se seguia. O sonhador, 
porm, relatou que, aps ter voltado dos funerais do pai, um de seus dentes comeou a doer. Ele queria tratar o dente segundo o preceito da doutrina judaica: 'Se 
teu dente incomoda, arranca-o!' E ele foi ao dentista. Mas o dentista disse: 'No se arranca um dente. Deve-se ter pacincia com ele. Porei dentro dele algo que 
o mate; volte em trs dias e eu o extrairei.'
         'Esse "extrair"', disse o homem que teve o sonho, ' exumar!'
         Ser que o homem estava certo do que dizia? Isso apenas se adapta mais ou menos, no completamente; pois no foi extrado o dente, foi extrado apenas algo 
nele que morrera. No entanto, imprecises deste tipo podem, com prova em outras experincias, ser atribudas  elaborao onrica. Sendo assim, o homem que teve 
este sonho condensara seu pai morto e o dente que havia sido morto, porm conservado; ele os fundiu numa unidade. No  de causar admirao, portanto, que algo de 
absurdo emergisse no sonho manifesto, de vez que, afinal, nem tudo que se disse do dente poderia ajustar-se a seu pai. Onde pode haver, talvez, um tertium comparationis 
[ver em [1], anterior] entre o dente e seu pai, para que se tornasse possvel a condensao?
         Entretanto, sem dvida ele deve ter tido razo, pois prosseguiu dizendo que sabia que sonhar com a queda de um dente significa que se vai perder um membro 
da famlia.
         Essa interpretao popular, como sabemos,  incorreta, ou, pelo menos, correta somente em sentido grosseiro. Todos ficaremos muito surpresos por encontrar, 
pois, o assunto assim abordado reaparecendo agora em outras partes do contedo do sonho.Este sonhador, sem nenhum outro encorajamento, comeou a falar na doena 
e na morte de seu pai, bem como a respeito de suas prprias relaes com ele. Seu pai esteve doente durante longo tempo, e os cuidados e o tratamento tinham-lhe 
custado (ao filho) grande soma de dinheiro. No obstante, nunca era demais, ele jamais se impacientou, jamais desejou que, afinal, tudo pudesse logo chegar ao fim. 
Orgulhava-se de sua verdadeira dedicao filial judaica para com o pai, de sua estrita obedincia  lei judaica. E aqui nos surpreendemos com uma contradio existente 
nos pensamentos pertinentes ao sonho. Ele havia identificado o dente com seu pai. Devia proceder com o dente segundo a lei judaica que lhe ordenava arranc-lo se 
lhe causasse dor ou incmodo. Desejava tambm proceder do mesmo modo com seu pai, segundo os preceitos da lei; neste caso, porm, ela lhe ordenava no poupar gastos 
nem atribulaes, assumir todo o encargo sobre si mesmo e no permitir que alguma inteno hostil emergisse contra o objeto que lhe estava causando sofrimento. Ser 
que as duas atitudes no teriam sido conciliadas muito mais convincentemente, se ele tivesse realmente desenvolvido sentimentos para com seu pai doente semelhantes 
queles com relao a seu dente doente - isto , se tivesse desejado que a morte se antecipasse e pusesse fim  sua existncia desnecessria dolorosa e custosa?
         No duvido de que era esta, realmente, sua atitude para com seu pai durante a fatigante doena, e que suas altivas afirmaes de amor filial se destinavam 
a desvi-lo dessas lembranas. Sob essas condies, o desejo de morte contra um pai est pronto a entrar em atividade e esconder-se sob o disfarce dessas reflexes 
caridosas tais como 'seria um feliz alvio para ele'. Mas, por favor, observem que, nisso, ultrapassamos uma barreira existente nos prprios pensamentos onricos 
latentes. Sem dvida, a primeira parte dos mesmos esteve inconsciente apenas temporariamente, isto , durante a construo do sonho; seus impulsos hostis contra 
o pai, contudo, devem ter sido permanentemente inconscientes. Podem ter-se originado de cenas de sua infncia e, ocasionalmente, emergiram como conscientes, tmida 
e disfaradamente, durante a doena do pai. Isto podemos afirmar, com grande certeza; acerca de outros pensamentos latentes que contriburam inequivocamente para 
o contedo do sonho. Nada, realmente, deve ser descoberto, no sonho, sobre seus impulsos hostis para com seu pai. Se, porm, procurarmos na infncia as razes dessa 
hostilidade contra um pai, nos recordaremos de que o medo ao pai tem incio nos primeiros anos de vida, porque este se ope s atividades sexuais do menino, exatamente 
como ter de acontecer mais uma vez, por motivos sociais, aps a idade pbere. Essa relao com o pai aplica-se tambm a esse nosso sonhador: o amor pelo pai inclua 
uma estranha mescla de reverncia e temor, que tinha sua origem no fato de, quando menino, por meio de ameaas, ter sido tolhido em sua atividade sexual.As frases 
restantes do sonho manifesto podem ser explicadas, agora, em relao ao complexo da masturbao. 'Ele parecia estar mal'  realmente uma aluso a uma outra observao 
do dentista no sentido de que parece mau algum perder um dente nessa parte da boca; mas refere-se, ao mesmo tempo, ao 'parecer estar mal' pelo qual um jovem, na 
puberdade, revela, ou receia revelar, sua atividade sexual excessiva. No foi sem alvio para seus prprios sentimentos que, no contedo manifesto, este que sonhou 
deslocou o 'parecer estar mal' de si mesmo para seu pai - um dos tipos de inverso feitos pela elaborao onrica, que os senhores j conhecem [ver em [1]]. 'Tinha 
estado com vida desde ento' coincide com o desejo de trazer de volta  vida, assim como coincide com a promessa do dentista de que o dente sobreviveria. A frase 
'o sonhador fazia todo o possvel para evitar que ele (o pai) percebesse'  muito sutilmente arquitetada para nos desorientar, fazendo-nos pensar que ela deveria 
ser completada com as palavras 'que ele estava morto'. A nica completao, entretanto, que faz sentido, provm, uma vez mais, do complexo de masturbao; em relao 
a isto,  evidente que o jovem fez tudo quanto pde para ocultar de seu pai sua vida sexual. E, finalmente, lembrem-se de que sempre devemos interpretar os chamados 
'sonhos com um estmulo dental' como sendo relacionados com masturbao e com o temido castigo correspondente. [ver em [1].]
         Agora podem ver como esse sonho incompreensvel se efetuou. Fez-se produzindo uma condensao estranha e desorientadora, desprezando todos os pensamentos 
que estavam no centro do processo de pensamentos latentes e criando substitutos ambguos para os mais profundos e cronologicamente mais remotos desses pensamentos.(4) 
J tentamos, repetidamente, chegar a compreender os sonhos triviais e comuns, que nada tm de absurdo ou estranho em sua aparncia, mas nos fazem perguntar por que 
algum iria sonhar com matria to indiferente assim. [ver em [1], [2] e [3].] Por isso lhes ofereo outro exemplo deste tipo, trs sonhos em interconexo, tidos 
por uma jovem senhora em uma s noite.(a) Ela estava caminhando pelo salo de sua casa e bateu com a cabea num lustre que pendia a baixa altura, e comeou a sangrar. 
Nenhuma reminiscncia, nada que lhe houvesse realmente acontecido. As informaes que deu, em resposta ao sonho, conduziram a direes bem diferentes. 'O senhor 
sabe como meu cabelo est caindo. "Minha filha", disse-me, ontem, minha me, 'use isso continua desse jeito voc vai ficar com a cabea to lisa como um traseiro." 
'Dessa forma, aqui a cabea est em lugar da outra extremidade do corpo. Podemos entender o lustre, sem qualquer ajuda, como sendo um smbolo: todos os objetos capazes 
de serem encompridados so smbolos do rgo masculino [ver em [1]]. Tratava-se, portanto, da questo do sangramento na extremidade inferior do corpo, decorrncia 
de contato com o pnis. Isto ainda poderia ser ambguo. Suas posteriores associaes mostraram que estava em questo algo referente  crena de que o sangramento 
menstrual se origina da relao sexual com um homem - um fragmento de teoria sexual que conta com muitas crentes fiis entre jovens imaturas.
         (b) Ela via, no parreiral, um buraco fundo que ela sabia ter sido causado pelo arrancamento de uma rvore. Acrescentou um comentrio de que a rvore estava 
faltando. Ela quis dizer que no tinha visto a rvore, no sonho; mas as mesmas palavras serviram para exprimir um outro pensamento que tornou a interpretao de 
smbolos muito certa. O sonho se referia a uma outra parte da teoria sexual - a crena de que as meninas originalmente tinham os mesmos genitais que os meninos, 
e que sua forma ulterior foi conseqncia da castrao (o arrancamento de uma rvore).
         (c) Ela estava de p, em frente  gaveta de sua escrivaninha, que ela conhecia to bem a ponto de poder dizer imediatamente se algum ali havia penetrado. 
Como todas as gavetas, cofres e caixas, a gaveta da escrivaninha significava os genitais femininos [ver em [1]]. Ela sabia que os sinais de relao sexual (e, segundo 
pensava, de tocar) podiam ser observados nos genitais, e por muito tempo havia temido tal descoberta. Em todos estes trs sonhos, penso que a nfase deve ser posta 
no conhecimento. Ela estava recordando o perodo de suas investigaes sexuais, quando era criana, de cujo resultado, naqueles tempos, muito se orgulhava.(5) Aqui 
se apresenta mais um pouco de simbolismo. Desta vez, porm, devo comear com um breve prembulo da situao psquica. Um cavalheiro, que havia passado a noite mantendo 
relaes sexuais com uma mulher, descreveu-a como uma dessas personagens maternas em quem o desejo por um filho irrompe irresistivelmente na relao com um homem. 
As circunstncias desse encontro, no entanto, exigiam uma precauo que impedisse o smen fertilizante de atingir o tero da mulher. Ao acordar, aps essa noite, 
a mulher relatou o seguinte sonho:
         Um oficial, com uma capa vermelha, corria atrs dela na rua. Ela fugia dele, e subiu correndo os degraus, e ele sempre atrs. Ofegante, chegou a sua casa, 
bateu a porta atrs de si e trancou-a. Ele permaneceu do lado de fora e, quando ela olhou atravs da vigia da porta, ele estava sentado num banco e chorava.
         Sem dvida, os senhores reconhecero a perseguio pelo oficial com a capa vermelha e a subida ofegante dos degraus da escada como representao do ato 
sexual [ver em [1]]. O fato de ter sido a prpria mulher do sonho que se trancou a si mesma para se livrar de seu perseguidor servir como exemplo das inverses 
to comumente utilizadas nos sonhos [ver em [1]], pois foi o homem quem evitara a consumao do ato sexual. Da mesma maneira, a tristeza dela tinha sido deslocada 
para o homem, pois era este quem chorava no sonho - e isto era simultaneamente uma representao da emisso de smen.
         Estou certo de que os senhores ouviram, uma vez ou outra, a psicanlise afirmar que todo sonho tem uma significao sexual. Pois bem, os senhores mesmos 
esto em condies de formar um julgamento da incorreo dessa acusao. Os senhores vieram a conhecer sonhos plenos de desejos que lidam com a satisfao das necessidades 
mais bvias - fome e sede, e nsia de liberdade -, sonhos de convenincia e de impacincia, e tambm sonhos puramente gananciosos e egostas. Mas, ao mesmo tempo, 
os senhores deveriam ter em mente, como um dos resultados da investigao psicanaltica, que sonhos grandemente deformados proporcionam expresso principalmente 
(embora, tambm, no exclusivamente) a desejos sexuais.
         (6) Tenho um motivo especial para colecionar exemplos do uso dos smbolos nos sonhos. Em nossa primeira conferncia [ver em [1] e segs.], eu lamentava a 
dificuldade de proporcionar demonstraes e, assim, de conferir convico ao dar ensinamentos sobre psicanlise. E no tenho dvidas de que os senhores, desde ento, 
tenham concordado comigo. As diversas teses da psicanlise esto, contudo, em to ntima conexo, que as provas podem com facilidade ser estendidas de um nico ponto 
at um ponto maior do todo. Da psicanlise poder-se-ia dizer que, se algum lhe mostra um s dedo mnimo, ela imediatamente lhe agarra a mo inteira. E, mesmo, ningum 
que tenha aceito a explicao das parapraxias pode logicamente refrear sua crena em tudo o mais. Uma segunda situao, igualmente acessvel,  oferecida pelo simbolismo 
onrico. Aqui est o sonho de uma mulher sem instruo, cujo marido era um policial, e que, certamente, jamais tinha ouvido falar qualquer coisa sobre simbolismo 
onrico ou psicanlise. Depois julguem por si mesmos se a explicao do sonho, com auxlio dos simbolismos sexuais, pode ser chamada de arbitrria e forada:
         '...Ento algum penetrou na casa e ela assustou-se e chamou um policial. Mas ele entrara tranqilamente numa igreja  qual se chegava por certo nmero 
de degraus acompanhado de dois vagabundos. Atrs da igreja havia uma colina e, acima, um cerrado bosque. O policial usava um capacete, gola com placa de bronze e 
capote. Tinha a barba castanha. Os dois vagabundos, que acompanhavam pacificamente o policial, tinham aventais semelhantes a sacos atados em torno da cintura. Em 
frente da igreja um caminho conduzia at a colina; em ambos os lados, cresciam relva e mato rasteiro, que se tornavam cada vez mais espessos e, no alto da colina, 
se transformavam num bosque comum.'Os senhores no tero problemas em reconhecer os smbolos utilizados. Os genitais masculinos so representados por uma trade 
de personagens e os genitais femininos por um cenrio com uma capela, um monte e uma floresta. Mais uma vez, os senhores encontram degraus como smbolo do ato sexual. 
O que no sonho  chamado de monte  tambm chamado de monte, na anatomia - o Mons Veneris [o monte de Vnus].(7) E aqui est mais um sonho que deve ser solucionado 
pela insero de smbolos.  notvel e convincente pelo fato de a prpria pessoa que o sonhou haver traduzido todos os smbolos, embora no tivesse qualquer espcie 
de conhecimento terico prvio da interpretao de sonhos. Tal atitude  bastante incomum, e suas causas determinantes no foram precisamente compreendidas:'Ele 
estava passeando a p, com seu pai, num lugar que certamente deve ter sido o Prater, pois viu a Rotunda, com um pequeno anexo em frente,  qual estava amarrado um 
balo cativo, embora este parecesse flcido. Seu pai perguntou-lhe para que servia tudo isso; ele ficou surpreso com a pergunta, mas explicou-lhe. Ento entraram 
num ptio em que havia uma grande folha de flandres estendida. Seu pai quis arrancar um pedao grande da mesma, porm, primeiro olhou em volta para ver se havia 
algum observando. Ele lhe disse que ele apenas precisava falar ao capataz e poderia levar uma parte da folha, sem qualquer problema. Uma escada descia desse ptio 
para um poo de mina, cujas paredes estavam almofadadas com um material macio, bem semelhante a uma poltrona de couro. No fim do poo de mina havia uma comprida 
plataforma e, depois, mais outro poo de mina comeava....'
         O prprio sonhador interpretou-o: 'A Rotunda eram os meus genitais e o balo cativo em frente da mesma era meu pnis, de cuja flacidez tenho motivos para 
me queixar.' Entrando em maiores detalhes, portanto, podemos traduzir a Rotunda como o traseiro (habitualmente considerado pelas crianas como fazendo parte dos 
genitais) e o pequeno anexo em frente da mesma, como o escroto. Seu pai perguntou-lhe, no sonho, para que servia tudo isso - ou seja, qual a finalidade e funo 
dos genitais. Pareceu plausvel inverter a situao e transformar a pessoa que sonhou na pessoa que pergunta. Visto como ele nunca havia feito perguntas a seu pai 
neste sentido, temos de considerar o pensamento onrico como um desejo, ou torn-lo como orao condicional, tal como: 'Se eu tivesse perguntado a meu pai sobre 
explicaes sexuais....' Logo mais encontraremos a continuao deste pensamento em outra parte do sonho.
         O ptio, onde estava estendida a folha de flandres, no deve ser tomado simbolicamente  primeira vista. Derivava dos locais de negcios do pai desse sonhador. 
Por motivos de discrio, substitu 'folha de flandres' por outro material com que seu pai realmente lidava; mas no fiz nenhuma outra alterao no sonho. Ele havia 
entrado no negcio de seu pai e tinha feito srias objees s prticas, um tanto duvidosas, das quais dependiam, em parte, os lucros da firma. Conseqentemente, 
o pensamento onrico que acabei de interpretar pode ser retomado desta maneira: '(Se eu lhe tivesse perguntado), ele me teria logrado da mesma forma como logra seus 
fregueses.' Com relao ao 'arrancar', que serviu para representar a desonestidade de seu pai no negcio, o sonhador deu uma segunda explicao - ou seja, que representava 
a masturbao. No somente h muito tempo estvamos familiarizados com essa interpretao como tambm havia algo para confirm-la no fato de que a natureza secreta 
da masturbao estava representada pelo seu inverso: podia ser efetuada em pblico. Tal como era de se esperar, a atividade masturbatria mais uma vez se deslocou 
para o pai do sonhador, assim como sucedera com o aspecto de fazer perguntas, na primeira cena do sonho. Ele prontamente interpretou o poo de mina como sendo uma 
vagina, tendo em conta o revestimento macio de suas paredes. Acrescentei, com base na minha autoridade [ver em [1]], que descer, assim como subir, em outros casos, 
descrevia o coito na vagina.
         O prprio personagem desta histria deu uma explicao biogrfica dos demais detalhes - de o primeiro poo de mina ser seguido de uma plataforma comprida 
e de mais outro poo de mina. Ele vinha mantendo relaes sexuais, durante certo tempo, mas depois abandonou-as por causa de inibies, e agora esperava conseguir 
reencet-las com o auxlio do tratamento.(8) Os dois sonhos seguintes foram sonhados por um estrangeiro, que vivia numa situao altamente polgama. Reproduzo-os 
para os senhores como prova de minha afirmao [ver em [1]] de que o prprio ego de quem o sonhou aparece em cada um de seus sonhos, ainda que escondido no contedo 
manifesto. As malas, nestes sonhos, eram smbolos de mulheres:(a) Ele estava iniciando uma viagem; sua bagagem era levada  estao numa carruagem, numerosas malas 
empilhadas, e entre elas, duas malas pretas, semelhantes a malas de amostras. Ele disse a algum, em tom de consolo: 'Bem, elas s vo comigo at a estao.'Ele 
realmente viajava com grande quantidade de bagagem; mas tambm trazia consigo para o tratamento muitssimas histrias referentes a mulheres. As duas malas pretas 
correspondiam a duas mulheres negras que nessa poca estavam desempenhando o principal papel na sua vida. Uma delas quis acompanh-lo a Viena; e, por orientao 
minha, ele havia telegrafado para ela no vir.(b) Uma cena que se passa na alfndega: Um outro viajante abriu seu ba e, fumando indiferentemente um cigarro, disse: 
'No h nada a dentro.' O funcionrio aduaneiro pareceu acreditar nele, mas voltou a apalpar o interior do ba e encontrou algo muito especialmente proibido. O 
viajante disse, com voz resignada: 'O que  que se vai fazer....'Ele prprio era o viajante: eu era o funcionrio da alfndega. Via de regra, ele era muito franco 
em admitir determinadas coisas; mas tencionava, comigo, manter silncio a respeito de uma ligao recente que havia iniciado com uma senhora porque, com razo, supunha 
que ela no me fosse desconhecida. Ele deslocou para um estranho a desagradvel situao de ser descoberto, de modo que ele prprio parecia no surgir no sonho.
         (9) Aqui est um exemplo de um smbolo que ainda no mencionei:
         Ele encontrou sua irm em companhia de duas amigas que eram, tambm elas, irms. Cumprimentou com um aperto de mo a ambas, mas no a sua irm.
         Nenhuma conexo com alguma ocorrncia real. Seus pensamentos, porm, o levaram de volta, isto sim, a um perodo no qual suas observaes fizeram-no refletir 
quo tardiamente se desenvolviam os seios das meninas. Assim, as duas irms eram seios; ele teria desejado agarr-los com sua mo - desde que no se tratasse de 
sua irm.
         (10) E agora, um exemplo de simbolismo da morte num sonho:
         Ele estava caminhando com duas pessoas, cujos nomes sabia mas esquecera ao acordar, por uma ponte de ferro muito alta e ngreme. De repente, elas desapareceram 
e ele viu um homem parecido com um fantasma, envolto numa capa e numa roupagem de linho. Perguntou-lhe se ele era o mensageiro do telgrafo. No. Era ele o cocheiro? 
No. Ento continuou andando.... Enquanto ainda estava sonhando, sentia uma aguda ansiedade e, aps haver acordado, continuou o sonho com uma fantasia de que a ponte 
de ferro se rompia de repente e ele caa no espao.
         Pessoas de quem se insiste em dizer que so desconhecidas, ou cujos nomes no so lembrados, so, na sua maioria, pessoas prximas. Este sonhador tinha 
um irmo e uma irm; e se ele desejasse que estes dois estivessem mortos, no seria mais que justo que, em troca, ele devesse ser vtima do medo da morte. Sobre 
o mensageiro do telgrafo, comentou que uma pessoa assim sempre traz ms notcias. Pelo seu uniforme poderia igualmente ter sido o acendedor de lampio; entretanto 
ele tambm os apaga, da mesma forma como o Esprito da Morte apaga a chama da vida. O cocheiro f-lo pensar no poema de Uhland sobre a Viagem do Rei Carlos, e f-lo 
recordar-se de uma perigosa viagem por mar, com dois companheiros, durante a qual ele tinha feito a parte do rei no poema. A ponte de ferro levou-o a pensar num 
recente desastre e no tolo ditado: 'A vida  uma ponte pnsil.'
          (11) O sonho seguinte pode contar-se como mais uma entre as representaes da morte:Um cavalheiro desconhecido entregou-lhe um carto de visitas tarjado 
de negro.(12) Os senhores estaro interessados no seguinte sonho, por diversos motivos, embora um estado neurtico na pessoa que o sonhou tenha sido uma de suas 
precondies:Ele estava viajando de trem. O trem fez uma parada em campo aberto. Pensou que estava por suceder um desastre e que devia tratar de fugir. Percorreu 
todos os carros do trem e matou a todos que encontrou: o guarda, o maquinista, e assim por diante.Com relao a isto, ele pensou em uma histria que lhe contara 
um amigo. Um louco estava sendo conduzido em um vago de trem, na Itlia; contudo, por descuido, deixou-se que um viajante ficasse com ele no mesmo compartimento. 
O louco matou o viajante. Assim, ele estava identificando-se com o louco, e seu motivo de agir assim, ele o baseou em uma obsesso, que o atormentava de tempos em 
tempos, de que ele devia 'livrar-se de todas as testemunhas cmplices'. Ele prprio, porm, ento encontrou um motivo melhor e isso foi o que levou  causa desencadeante 
do sonho. A noite anterior, no teatro, mais uma vez viu a jovem com quem desejara casar, mas havia desistido porque ela lhe dera motivos para cime. Em face da intensidade 
atingida por seu cime, pensou, ele estaria realmente louco para querer casar com ela. Isto significava que ele a considerava to indigna de confiana que, em seu 
cime, ele teria de matar todos os que estivessem no seu caminho. J encontramos o caminhar atravs de uma srie de quartos (aqui, carros do trem) como smbolo de 
casamento (uma inverso de 'monogamia').Com relao  parada do trem em campo aberto e ao medo de acidente, disse que, certa vez, quando se encontrava numa viagem 
de trem, tinha havido uma sbita parada nessas circunstncias, quando no estavam na estao. Uma jovem senhora que viajava com ele dissera que podia ser iminente 
uma coliso e que o mais seguro era manter as pernas levantadas. Este 'manter as pernas levantadas' tinha tido, contudo, seu papel nos muitos passeios a p e excurses 
pelo campo, que ele tinha feito com a outra jovem, nos primeiros dias felizes de seu amor. Este era um novo argumento para pensar que ele estava louco para casar 
com ela, agora. Meu conhecimento da situao deu-me a certeza de que, no obstante, ele desejava estar suficientemente louco para casar com ela.
         
         CONFERNCIA XIII - ASPECTOS ARCAICOS E INFANTILISMO DOS SONHOS
         
         SENHORAS E SENHORES:
         Comecemos mais uma vez partindo da concluso a que chegamos de que a elaborao onrica, sob a influncia da censura dos sonhos, transpe a ordem dos pensamentos 
onricos latentes para um modo de expresso diferente. Os pensamentos latentes no diferem dos nossos conhecidos pensamentos conscientes da vida desperta. O novo 
modo de expresso nos  incompreensvel devido a muitos de seus aspectos. Temos dito que ele retorna a estados de nossa evoluo intelectual que h muito foram suplantados: 
 linguagem por imagens, s conexes simblicas, a condies que, talvez, existiram antes de se desenvolver nossa linguagem de pensamento. Temos descrito, por essa 
razo, o modo de expresso da elaborao onrica como arcaico ou regressivo [ver em [1] e seg.].
         Os senhores podem concluir, com isto, que, se estudarmos mais a elaborao onrica, deveremos conseguir lograr valioso esclarecimento dos poucos conhecidos 
incios de nosso desenvolvimento intelectual. Espero que assim seja; contudo, este trabalho at agora no foi iniciado. A pr-histria  qual a elaborao onrica 
nos faz retroceder  de duas espcies - de um lado,  pr-histria do indivduo, sua infncia; e, de outro lado, at onde cada indivduo de alguma maneira recapitula, 
em forma abreviada, todo o desenvolvimento da espcie humana, tambm  pr-histria filogentica. Conseguiremos distinguir qual parte dos processos mentais latentes 
deriva do perodo pr-histrico do indivduo, e qual a parte proveniente da pr-histria filogentica? Penso no ser impossvel consegui-lo. A mim, por exemplo, 
parece-me que as conexes simblicas que o indivduo jamais adquiriu por aprendizado, podem, com razo, exigir serem consideradas como herana filogentica.
         Esta, porm, no  a nica caracterstica arcaica do sonho. Naturalmente, os senhores todos conhecem bem a extraordinria amnsia da infncia. Quero dizer 
com isso que os primeiros anos de vida, at a idade de cinco, seis ou oito anos no deixaram atrs de si, em nossa memria, marcas como as das experincias posteriores. 
Aqui e ali,  verdade, encontramos pessoas que se podem gabar de uma memria contnua, desde os primeiros comeos at o dia de hoje; mas a outra alternativa, de 
lacunas na memria, , de longe, a mais freqente. Em minha opinio, no tem havido suficiente surpresa com referncia a esse fato. Na poca em que uma criana tem 
dois anos de idade, ela consegue falar bem, e logo mostra que est  vontade em situaes mentais complicadas; e faz comentrios que, se lhe forem referidos muitos 
anos mais tarde, ela mesma ter esquecido. Ademais disso, a memria  mais eficiente, em tenra idade, pois est menos sobrecarregada do que estar mais tarde. E 
no existe qualquer motivo para considerar a funo da memria uma atividade mental especialmente elevada ou difcil; pelo contrrio, podemos encontrar uma boa memria 
em pessoas de nvel intelectual muito baixo.Um segundo fato notvel, para o qual devo chamar sua ateno, e que se aflora do primeiro,  que, de permeio ao vazio 
de memrias que abrange os primeiros anos da infncia, sobressaem algumas recordaes bem preservadas, na maioria percebidas em forma plstica, que no podem explicar 
sua sobrevivncia. Nossa memria lida com o contedo das impresses, que nos atingem posteriormente na vida, fazendo uma seleo das mesmas. Ela retm o que possui 
alguma importncia e elimina o que carece de importncia. Isto, porm, no procede para as lembranas da infncia que foram conservadas. Elas no correspondem necessariamente 
s experincias importantes dos anos da infncia, nem mesmo quelas experincias que devem ter parecido importantes do ponto de vista da criana. Freqentemente, 
so to banais e insignificantes que apenas podemos nos perguntar, surpresos, por que esse detalhe especial escapou ao esquecimento. H muito tempo, com auxlio 
da anlise, procurei enfrentar o enigma da amnsia infantil e das memrias residuais que a interrompem, e cheguei  concluso de que, mesmo no caso de crianas, 
malgrado tudo,  verdade que somente permanece na memria aquilo que  importante. Pelos processos, que os senhores j conhecem, de condensao e, mais especialmente, 
de deslocamento, aquilo que  importante , contudo, substitudo na memria por alguma outra coisa que parece sem importncia. Por essa razo denominei a essas lembranas 
da infncia 'lembranas encobridoras' e, com uma anlise minuciosa, pode ser extrado delas tudo o que foi esquecido.
         Nos tratamentos psicanalticos, invariavelmente nos defrontamos com a tarefa de preencher essas lacunas na memria da infncia; e, na medida em que o tratamento 
de alguma forma tem xito - ou seja, muito freqentemente - tambm temos xito em trazer  luz o contedo desses anos da infncia esquecidos. Tais impresses realmente 
jamais foram esquecidas, eram apenas inacessveis, latentes, e tinham formado parte do inconsciente. Pode suceder, porm, elas emergirem do inconsciente espontaneamente, 
e isto sucede em relao aos sonhos. Parece que a vida onrica sabe como obter acesso a essas experincias latentes, infantis. Excelentes exemplos disto foram relatados 
na literatura, e eu mesmo pude trazer uma contribuio desse teor. Uma vez, sonhei, em certa circunstncia, com uma pessoa que devia ter-me prestado um servio e 
que vi claramente  minha frente. Era um homem com um olho s, de baixa estatura, forte, e com a cabea profundamente enterrada nos ombros. Pelo contexto, conclu 
que se tratava de um mdico. Felizmente pude perguntar a minha me, que ainda vivia, com quem se parecia o mdico da minha terra natal (que eu deixara quando tinha 
trs anos de idade); e eu soube, por ela, que ele tinha um olho s, era baixo, forte e tinha a cabea enterrada fundo nos ombros; e tambm soube qual o acidente 
em decorrncia do qual ele viera em meu auxlio e que eu mesmo havia esquecido. Esse fato de os sonhos terem  sua disposio o material esquecido dos primeiros 
anos da infncia , pois, mais um aspecto arcaico.Essa mesma parcela de informao pode, ademais, ser aplicada a um outro enigma com que nos temos defrontado. Os 
senhores se recordam do assombro causado pela nossa descoberta de que os sonhos so provocados por desejos ativamente maus e extravagantemente sexuais que tornaram 
necessria a censura e a deformao dos sonhos [ver em [1] e segs.]. Ao interpretarmos um sonho desse tipo quele que o sonhou, e se, na melhor das hipteses, o 
sonhador no atacar realmente a interpretao, ele, ainda assim, regularmente levanta a questo da provenincia desses desejos, de vez que estes lhe parecem alheios, 
e aquilo de que est cnscio  o oposto desses desejos. No devemos hesitar em assinalar a origem dos mesmos. Esses impulsos de desejos maus so originrios do passado, 
e, freqentemente, de um passado no to remoto. Pode-se demonstrar que houve uma poca em que eles eram corriqueiros e conscientes, embora atualmente no o sejam 
mais. Uma mulher, cujo sonho significava que desejava ver sua filha nica, agora com dezessete anos de idade, morta em sua presena, verificou, com nosso auxlio, 
que ela realmente, em certa poca, abrigava esse desejo de morte. A filha era fruto de um casamento infeliz que logo se dissolvera. De certa feita, quando ainda 
trazia essa filha em seu ventre, num acesso de raiva, e aps uma cena violenta com seu marido, ela golpeara com seus prprios punhos seu corpo, a fim de matar a 
criana que estava dentro. Quantas mes, que amam seus filhos ternamente, hoje em dia talvez com excessiva ternura, conceberam-nos contra a vontade e,  poca, desejaram 
que o ser vivo dentro delas no mais se desenvolvesse! Podem at mesmo ter expresso esse desejo em aes diversas, felizmente inofensivas. Assim, seu desejo de morte 
contra algum que amam, desejo que, depois,  to misterioso, origina-se dos primeiros dias de seu relacionamento com essa pessoa.Da mesma forma, um pai teve um 
sonho que legitimou a interpretao de que ele desejava a morte de seu filho predileto, o mais velho. Ele tambm foi levado a recordar que houvera uma poca em que 
tal desejo no lhe era estranho. Quando o filho era ainda uma criana de colo, este pai, descontente com a esposa que escolhera, amide pensava que, se a pequena 
criatura, que nada significava para ele, viesse a morrer, mais uma vez ficaria livre e faria melhor uso de sua liberdade. A mesma origem pode ser demonstrada no 
caso de grande nmero de impulsos de dio semelhantes; so recordaes de algo pertencente ao passado, que, numa poca, foi consciente e desempenhou seu papel na 
vida mental. Os senhores tendero a, disso, concluir que esses desejos e esses sonhos no deveriam aparecer naqueles casos em que nunca ocorreram transformaes 
desse tipo nas relaes com algum, em que o relacionamento foi do mesmo tipo desde o incio. Estou disposto a admitir esse fato; devo, porm, lembrar-lhes que precisam 
ter em considerao no o enunciado do sonho, mas seu sentido aps o sonho haver sido interpretado.  possvel que um sonho manifesto com a morte de alguma pessoa 
amada simplesmente tenha assumido uma mscara aterradora e possa significar algo muito diferente, ou que a pessoa amada sirva como substituto destinado a confundir 
a identidade de alguma outra pessoa.
         Este mesmo tema pode, contudo, sugerir uma outra questo muito mais sria. 'Ainda que', os senhores diro, 'este desejo de morte se encontrasse presente 
em determinada poca, e seja confirmado pela lembrana, isso ainda no constitui explicao. Afinal, h muito que foi ultrapassado, e atualmente s pode estar presente 
no inconsciente como alguma outra recordao qualquer desprovida de contedo emocional, e no como um impulso poderoso. Nada fala em favor desta ltima possibilidade. 
Por que, ento, foi recordado no sonho?' Esta pergunta pode surgir, e com razo. Uma tentativa de respond-la nos levaria demasiado longe, e exigiria que assumssemos 
uma posio em um dos pontos mais importantes da teoria dos sonhos. Vejo-me, no entanto, obrigado a manter-me dentro do quadro de referncias de nossa exposio, 
e usar de moderao. Assim, preparem-se para uma desistncia provisria. Contentemo-nos com a evidncia efetiva de esse desejo, que ficou para trs, poder ser demonstrado 
como sendo o causador do sonho, e prossigamos com nossa investigao para saber se outros desejos maus podem, de modo semelhante, ser remontados ao passado.Deter-nos-emos 
nesses desejos de eliminar algum, os quais, em sua maioria, podem ser atribudos ao desenfreado egosmo do sonhador. Um desejo desse tipo muito amide pode ser 
apontado como o maquinador de um sonho. Sempre que algum, no decurso da vida, se interpe no caminho de uma pessoa - e como  freqente isso acontecer, face  complexidade 
dos relacionamentos de uma pessoa! -, um sonho logo se prontifica a matar esse algum, mesmo que se trate do pai ou da me, do irmo ou da irm, do marido ou da 
esposa. Essa maldade da natureza humana surgiu-nos para grande surpresa nossa, e, decididamente, no estvamos propensos a aceitar, sem indagaes, esse resultado 
da interpretao de sonhos. No entanto, assim que fomos levados a procurar a origem desses desejos no passado, descobrimos o perodo do passado do indivduo quando 
no havia ainda nada de estranho em tal egosmo e em tais impulsos plenos de desejos dirigidos at mesmo contra os parentes mais prximos. So as crianas, e precisamente 
nesses primeiros anos, mais tarde velados pela amnsia, que freqentemente manifestam um tal egosmo em grau extremamente marcado e, invariavelmente, mostram evidentes 
rudimentos ou, expressando-se com maior correo, resduos dele. As crianas amam em primeiro lugar a si prprias, e apenas mais tarde  que aprendem a amar os outros 
e a sacrificar algo de seu ego aos outros. As prprias pessoas a quem uma criana parece amar desde o incio, no comeo so amadas pela criana porque esta necessita 
delas e no pode dispens-las - por motivos egostas, mais uma vez. Somente mais tarde o impulso de amar se torna independente do egosmo.  literalmente verdadeiro 
que seu egosmo ensinou a amar.
         Neste consenso, ser interessante comparar a atitude da criana com relao a seu irmos e irms com sua atitude para com seus pais. Uma criana pequena 
no ama necessariamente seus irmos e irms; muitas vezes, obviamente no os ama. Sem dvida ela os odeia como rivais seus, e  fato sabido que esta atitude freqentemente 
persiste por muitos anos, at ser atingida a maturidade ou mesmo at mais tarde, sem interrupo. Com efeito, muito amide esta atitude  substituda, ou melhor, 
digamos,  encoberta por outra, mais cordial. Mas, a que  hostil em geral parece ser a que surge primeiro. Essa atitude hostil pode ser observada com muita facilidade 
em crianas com idade entre dois e meio e quatro ou cinco anos, quando um novo irmozinho ou irmzinha aparece. Geralmente encontra uma recepo muito inamistosa. 
So muito comuns os comentrios como 'no gosto dele; a cegonha pode levar embora de novo!' Depois, aproveitam-se de todas as oportunidades para rebaixar o recm-chegado, 
e se fazem tentativas de machuc-lo; e at mesmo se conhecem casos de ataques mortferos. Se a diferena de idade  menor, na poca em que a atividade mental da 
criana se aviva em determinado grau de intensidade, ela j encontra a seu competidor e a ele se adapta. Sendo maior a diferena, o novo beb pode, desde o incio, 
despertar alguma simpatia, como um objeto interessante, uma espcie de boneca viva; e quando a diferena de idade  de oito ou mais anos, j podem manifestar-se 
impulsos solcitos, maternais, especialmente em meninas. Contudo, falando honestamente, se algum encontrar, em sonho, um desejo de morte contra um seu irmo ou 
irm, raramente h que consider-lo um enigma e, sem dificuldades, pode situar seu prottipo no incio da infncia e, vezes mais seguidas, tambm nos anos subseqentes 
do companheirismo fraterno.Provavelmente no h quarto de crianas sem violentos conflitos entre seus ocupantes. Os motivos de tais desavenas so a rivalidade pelo 
amor dos pais, pelas posses comuns, pelo espao vital. Os impulsos hostis so dirigidos contra membros da famlia mais velhos e tambm mais novos. Foi Bernard Shaw, 
segundo penso, quem comentou: 'Via de regra, s existe uma pessoa que uma menina inglesa odeia mais do que a sua me;  a sua irm mais velha. Neste comentrio existe, 
porm, algo que nos parece estranho. Poderamos, quando muito, achar compreensveis o dio e a competio entre irmos e irms. Mas como podemos supor que sentimentos 
de dio venham a surgir nas relaes entre filha e me, entre pais e filhos?Esta relao , sem dvida, uma relao mais favorvel tambm do ponto de vista dos filhos. 
 o que exigem as nossas expectativas; achamos que uma ausncia de amor  muito mais censurvel entre pais e filhos do que entre irmos e irms. No primeiro caso, 
teramos tornado esta relao sagrada, ao passo que, no segundo, isso teria permanecido profano. J a observao corrente pode nos mostrar quo freqentemente as 
relaes afetivas entre os pais e seus filhos adultos deixam de atingir o ideal estabelecido pela sociedade, quanta hostilidade est pronta para manifestar-se, e 
se manifestaria se no fosse contida por um misto de devoo filial e impulsos afetuosos. Os motivos dessa hostilidade geralmente so conhecidos e sua tendncia 
 separar os do mesmo sexo - a filha, de sua me, e o pai, de seu filho. A filha encontra em sua me a autoridade que restringe sua vontade e que est incumbida 
da tarefa de impor-lhe a renncia  liberdade sexual, renncia que tambm a sociedade exige; em alguns casos, a filha encontra em sua me at mesmo uma competidora 
que luta por no ser suplantada. A mesma coisa se repete entre filho e pai, e de forma ainda mais flagrante. Aos olhos do filho, o pai representa todas as restries 
sociais relutantemente toleradas; o pai lhe impede o exerccio da vontade, o prazer sexual incipiente e, nas famlias em que existe propriedade comum, o desfrute 
desta. No caso de um herdeiro do trono, essa espera da morte do pai atinge as raias do trgico. Parece haver perigo menor para a relao entre pai e filha ou me 
e filho. Esta ltima proporciona os mais puros exemplos de uma afeio imutvel, no prejudicada por quaisquer consideraes egostas.Por que estou eu falando nestas 
coisas, que, afinal, so banais e conhecidas universalmente? Porque h uma inequvoca tendncia a negar-lhes a importncia que tm na vida, e a fazer crer que o 
ideal imposto pela sociedade  atingido muito mais freqentemente do que o  na realidade.  melhor, pois, que a verdade deva ser dita pelos psiclogos, de preferncia 
a deixar tal tarefa a cargo de cnicos. E, alis, essa negao se aplica somente  vida real. As obras narrativas e dramticas da imaginao podem livremente jogar 
com os temas que surgem de um distrbio deste ideal.
         Portanto, no h motivos para surpresas se, em muitas pessoas, os sonhos revelam seu desejo de eliminar seus pais e, especialmente, o genitor do mesmo sexo. 
Podemos supor que esse desejo tambm esteja presente na vida desperta, e at mesmo seja consciente, s vezes, quando pode estar mascarado por algum outro motivo, 
como foi o caso do sonhador do Exemplo 3 [ver em [1], acima] em que foi substitudo pela compaixo pelos inteis sofrimentos do pai.  raro que apenas a hostilidade 
domine o relacionamento; muito mais freqentemente ela se encontra nos bastidores de impulsos mais afetuosos, pelos quais  suprimida, e pode, por assim dizer, esperar 
at que um sonho venha a isol-la. O que parece-nos ter uma dimenso enorme em um sonho, por ter sido isolado, reduz-se mais uma vez, quando nossa interpretao 
o situa no contexto da vida real (Hanns Sachs). Contudo, encontramos este desejo onrico tambm na vida real, onde no adquire qualquer relevncia e onde o adulto 
jamais deseja admiti-lo na vida desperta. A razo disso  que os motivos mais profundos e mais invariveis de desavenas, especialmente entre duas pessoas do mesmo 
sexo, j se fizeram sentir no incio da infncia.O que tenho em mente  a rivalidade no amor, com ntida nfase no sexo do indivduo. Quando  ainda uma criana, 
um filho j comea a desenvolver afeio particular por sua me, a quem considera como pertencente a ele; comea a sentir o pai como rival que disputa sua nica 
posse. E da mesma forma uma menininha considera sua me como uma pessoa que interfere na sua relao afetuosa com o pai e que ocupa uma posio que ela mesma poderia 
muito bem ocupar. A observao nos mostra a quo precoces anos essas atitudes remontam. A essas atitudes chamamos de 'complexo de dipo', visto que a lenda de dipo 
materializa, com apenas uma leve atenuao, os dois desejos extremos originrios na situao do filho - matar o pai e tomar a me como esposa. No pretendo afirmar 
que o complexo de dipo engloba toda a relao dos filhos com os pais: esta pode ser muito mais complexa. O complexo de dipo, ademais disso, pode estar desenvolvido 
em maior ou menor intensidade, pode at mesmo estar invertido; mas constitui fator constante e importante na vida mental de uma criana, e existe maior risco de, 
antes, subestimarmos, do que superestimarmos sua influncia e a dos desenvolvimentos que nele se originam. Alis, as crianas freqentemente reagem, em sua atitude 
edipiana, a um estmulo proveniente de seus pais, que amide se deixam levar, nas suas preferncias, pela diferena do sexo, de modo que o pai escolher a filha 
e a me escolher o filho como favorito ou, no caso de um esfriamento conjugal, como um substituto de um objeto de amor que perdeu seu valor.No se pode dizer que 
o mundo tenha demonstrado muita gratido  investigao psicanaltica por sua revelao do complexo de dipo. Ao contrrio, a descoberta provocou a mais violenta 
oposio entre adultos; e aqueles que no se interessaram por tomar parte no repdio a este relacionamento emocional proscrito e tabu, compensaram seu dbito mais 
tarde, subtraindo a este complexo o seu valor, por meio de reinterpretaes tortuosas. Permanece inalterada minha convico de que no h o que negar ou encobrir. 
Devemos nos congratular com o fato de ter sido reconhecido pela prpria lenda grega como destino inevitvel. Mais uma vez  interessante o fato de o complexo de 
dipo, que tem sido repudiado na vida real, ter sido deixado a cargo dos escritos imaginativos, ter sido colocado, por assim dizer, livremente  sua disposio. 
Otto Rank [1912b] demonstrou, em cuidadoso estudo, como o complexo de dipo proporcionou aos autores dramticos uma riqueza de temas com infindveis modificaes, 
atenuaes e disfarces - isto , com distores do tipo que j conhecemos como obra de uma censura. Portanto, podemos tambm atribuir este complexo de dipo s pessoas 
que sonham e foram suficientemente felizes para escapar a conflitos com seus pais em sua vida posterior. E, em ntima conexo com o mesmo, encontramos aquilo a que 
chamamos de 'complexo de castrao', a reao s ameaas contra a criana, destinadas a pr um fim a suas primeiras atividades sexuais, ameaas atribudas a seu 
pai.O que j aprendemos de nosso estudo da vida mental das crianas far com que esperemos encontrar uma explicao semelhante para o outro grupo de desejos onricos 
proibidos: os impulsos sexuais excessivos. Assim, encorajamo-nos a realizar um estudo da evoluo da vida sexual das crianas e, com base em muitas informaes, 
chegamos ao que se segue. Primeiro e acima de tudo,  um erro injustificvel negar que as crianas tm uma vida sexual e supor que a sexualidade somente inicia na 
puberdade, com a maturao dos genitais. Pelo contrrio, bem desde o incio as crianas tm uma intensa vida sexual, que difere em muitos pontos daquilo que mais 
tarde  considerado normal. Aquilo que na vida adulta  descrito como 'perverso' difere do normal por estes aspectos: primeiro, porque despreza a barreira da espcie 
(o abismo entre o homem e o animal); segundo, por transpor a barreira contra a repugnncia; terceiro, a barreira contra o incesto (proibio contra a busca da satisfao 
sexual em relaes consangneas prximas); quarto, a barreira contra pessoas do mesmo sexo; e quinto, por transferir a outros rgos e reas do corpo o papel desempenhado 
pelos genitais. Nenhuma destas barreiras existia desde o comeo; foram estabelecidas apenas gradualmente, no decorrer do desenvolvimento e da educao. Crianas 
de tenra idade so livres delas. No reconhecem qualquer abismo assustador entre seres humanos e animais; a soberba com que os homens se distanciam dos animais no 
emerge seno mais tarde. Inicialmente, as crianas no mostram qualquer repugnncia pelas excrees; porm, adquirem-na lentamente, sob a presso da educao. No 
do importncia especial  distino entre os sexos, mas atribuem a ambos a mesma conformao dos genitais; dirigem seus primeiros desejos sexuais e sua curiosidade 
queles que lhes so mais prximos e, por outras razes, mais caros - os pais, irmos e irms, ou babs; e, finalmente, demonstram (e isto mais tarde irrompe novamente 
no clmax de uma relao amorosa) que esperam obter prazer no somente a partir de seus rgos sexuais, mas que muitas outras partes do corpo exibem a mesma sensibilidade, 
proporcionam-lhes sensaes anlogas de prazer e, em decorrncia, podem desempenhar o papel de genitais. Assim, pode-se descrever as crianas como 'perversos polimorfos' 
e, se estes impulsos apenas mostram traos de atividade, isso ocorre, por um lado, porque eles tm intensidade menor quando comparados com os da vida posterior e, 
por outro lado, porque todas as manifestaes sexuais de uma criana so prontamente, energicamente suprimidas pela educao. Esta supresso, por assim dizer, se 
estende  teoria; pois os adultos se esforam por no ver uma parte das manifestaes sexuais das crianas e por disfarar uma outra parte, interpretando-lhes erroneamente 
a natureza sexual, conseguindo assim neg-la em sua totalidade. Freqentemente, so estas exatamente as mesmas pessoas que, no trato com as crianas, se enfurecem 
com qualquer traquinagem sexual sua e, depois, em seus escritos, defendem a pureza sexual das mesmas crianas. Quando abandonadas a si prprias, ou sob a influncia 
de seduo, amide as crianas realizam proezas considerveis na rea da atividade sexual perversa. Os adultos, naturalmente, tm razo ao no levar isto muito a 
srio e consider-lo como 'criancice' ou 'brincadeira', de vez que as crianas no podem ser condenadas como inteiramente capazes ou inteiramente responsveis, seja 
perante o tribunal da moralidade, seja perante a lei; no obstante, essas coisas existem. Tm sua importncia no apenas como indicaes da constituio inata de 
uma criana e como causas e encorajamentos para desenvolvimentos ulteriores; tambm nos proporcionam informaes acerca da vida sexual das crianas e, assim, acerca 
da vida sexual humana em geral. Se, portanto, mais uma vez encontramos todos estes impulsos plenos de desejos perversos por trs de nossos sonhos deformados, isto 
somente significa que, tambm neste campo, os sonhos deram um passo atrs, ao estado de infncia.
         Entre esses desejos proibidos, merecem especial nfase os desejos incestuosos - isto , aqueles que objetivam a relao sexual com pais, irmos e irms. 
Os senhores conhecem o horror que se sente, ou ao menos se manifesta, na sociedade humana, diante de tal relao, e o acento com que se tonificam as proibies contra 
a mesma. Esforos tremendos tm sido dispendidos para explicar esse horror ao incesto. Algumas pessoas supuseram que consideraes referentes  reproduo, por parte 
da natureza, tivessem encontrado representao psquica nesta proibio, pois os acasalamentos consangneos prejudicariam as caractersticas raciais. Outros afirmaram 
que, como conseqncia da vida em comum, do incio da infncia em diante, o desejo sexual desviou-se das pessoas em questo. Em ambos estes casos, pode-se observar, 
um evitar do incesto estaria assegurado automaticamente, e no se esclareceria por que se exigem essas proibies severas, as quais indicariam, antes, a presena 
de um intenso desejo incestuoso. As pesquisas psicanalticas tm demonstrado inequivocamente que a escolha incestuosa de um objeto de amor , pelo contrrio, a primeira 
e a invarivel escolha, e seno mais tarde  que a resistncia contra ela se manifesta; sem dvida, no  impossvel descobrir a origem desta resistncia na psicologia 
individual.
         Reunamos agora tudo aquilo com que nossas pesquisas acerca da psicologia da criana tm contribudo para nossa compreenso dos sonhos. No somente constatamos 
que o material das vivncias esquecidas da infncia tem acesso aos sonhos, como tambm vimos que a vida mental das crianas, com todas as suas caractersticas, seu 
egosmo, sua escolha incestuosa de objetos de amor, e assim por diante, ainda persiste nos sonhos - isto , no inconsciente; e que os sonhos nos levam de volta, 
todas as noites, a esse nvel infantil. Confirma-se assim o fato de que, na vida mental, o que  inconsciente  tambm o que  infantil. A estranha impresso de 
haver tanta maldade nas pessoas comea a reduzir-se. Esta maldade temida  simplesmente a inicial e primitiva parte infantil da vida mental, que podemos encontrar 
em real atuao nas crianas,  qual, contudo, em parte no damos importncia, nas crianas, devido ao pequeno tamanho delas, e, em parte, no a levamos a srio 
porque das crianas no esperamos elevado padro tico algum. Visto os sonhos regredirem a esse nvel, eles do a impresso de terem revelado o mal que existe em 
ns. Esta, todavia,  uma aparncia enganadora, pela qual nos temos deixado atemorizar. No somos to maus como tenderamos a supor a partir da interpretao dos 
sonhos.Se esses impulsos maus nos sonhos so meros fenmenos infantis, um retorno aos incios de nossa evoluo tica (de vez que os sonhos simplesmente nos transformam 
novamente em crianas, em nossos pensamentos e sentimentos), no temos, se formos racionais, necessidade de nos envergonhar desses sonhos de maldade. Aquilo que 
 racional, porm, constitui apenas uma parte da vida mental, inmeras outras coisas se passam na vida mental e no so racionais; e assim sucede irracionalmente 
estarmos envergonhados desses sonhos. Sujeitamo-los  censura dos sonhos, envergonhamo-nos e nos irritamos se, por exceo, um desses desejos consegue irromper na 
conscincia em forma to indisfarada, que somos obrigados a reconhec-lo; com efeito, s vezes nos envergonhamos tanto de um sonho deformado como se o compreendssemos. 
Basta pensar no indignado julgamento que aquela excelente senhora de meia-idade emitiu a propsito de seu sonho, no interpretado, sobre os 'servios de amor' [ver 
em [1]]. O problema, assim, ainda no est esclarecido, e ainda  possvel que outras consideraes sobre a perversidade nos sonhos possam nos levar a formar outro 
julgamento e chegar a uma outra avaliao da natureza humana.
         Como resultado de nossas pesquisas, atenhamo-nos a duas descobertas, embora apenas signifiquem o comeo de novos enigmas e de novas dvidas. Em primeiro 
lugar, a regresso da elaborao onrica no  apenas formal, mas tambm material. No s traduz nossos pensamentos em uma forma primitiva de expresso; revive, 
tambm, as caractersticas de nossa vida mental primitiva - a antiga dominncia do ego, os primeiros impulsos de nossa vida sexual e, realmente, at mesmo, nossa 
antiga propriedade intelectual, caso assim possam ser consideradas as conexes simblicas. E, em segundo lugar, tudo isso que  antigo e infantil e que em certa 
poca foi dominante, e dominante sozinho, hoje deve ser atribudo ao inconsciente, acerca do qual nossas idias agora se esto modificando e ampliando. 'Inconsciente' 
j no  mais o nome daquilo que  latente no momento; o inconsciente  um dos reinos da mente com seus prprios impulsos plenos de desejos, seu modo de expresso 
prprio, e com seus mecanismos mentais especficos que no vigoram em outros setores. No entanto, os pensamentos onricos latentes, que descobrimos ao interpretar 
sonhos, no pertencem a este reino; so, ao contrrio, pensamentos iguais queles que poderamos ter pensado na vida desperta. No obstante, so inconscientes. Como, 
ento, se pode solucionar esta contradio? Comeamos a suspeitar que aqui deve ser estabelecida uma distino. Alguma coisa que deriva de nossa vida consciente 
e compartilha de suas caractersticas - ns a denominamos 'resduos diurnos' - combina-se com alguma outra coisa proveniente dos domnios do inconsciente, a fim 
de se construir um sonho. A elaborao onrica se realiza entre estes dois componentes. A influncia exercida sobre os resduos diurnos pela adio do inconsciente 
est, sem dvida, entre os determinantes da regresso. Esta  a mais profunda compreenso que podemos obter, aqui, da natureza essencial dos sonhos - at havermos 
investigado outras regies da mente. Logo, contudo, advir a poca de dar outro nome ao carter inconsciente dos pensamentos onricos latentes, a fim de diferenci-lo 
do inconsciente oriundo dos domnios do infantil.Podemos, naturalmente, levantar uma outra questo paralela: 'Que coisa fora a atividade psquica, durante o sono, 
a fazer esta regresso? Por que no remove os estmulos mentais, que perturbam o sono, sem causar esta regresso? E se, para fins de censura de sonhos, tem de fazer 
uso de disfarce, utilizando-se do modo de expresso antigo, agora ininteligvel, qual o motivo de reviver tambm os impulsos, desejos e traos de carter mentais 
antigos que hoje em dia esto superados - de fazer uso da regresso material, alm da regresso formal?' A nica resposta que poderia nos satisfazer  que apenas 
desta forma pode um sonho ser construdo, e que no seria dinamicamente possvel o estmulo do sonho ser eliminado de outra maneira. Por enquanto, no temos o direito 
de dar tal resposta, contudo.
         
         CONFERNCIA XIV - REALIZAO DE DESEJO
         
         SENHORAS E SENHORES:
         Deverei faz-los lembrarem-se, mais uma vez, dos assuntos sobre os quais discorremos at aqui? De como, quando comeamos a aplicar nossa tcnica, defrontamo-nos 
com a deformao dos sonhos, de como pensvamos a respeito da natureza essencial dos sonhos a partir dos sonhos de crianas? De como, aps, munidos daquilo que aprendramos 
dessa pesquisa, acometemos diretamente a deformao onrica e, segundo espero, vencemo-la passo a passo? Somos levados a admitir, entretanto, que as coisas que descobrimos, 
por uma e por outra via, no se harmonizam inteiramente. Ser nossa tarefa juntar as duas sries de descobertas e ajust-las entre si.
         Verificamos, partindo de ambas as fontes de informao, que a elaborao onrica consiste, essencialmente, na transformao dos pensamentos em uma experincia 
alucinatria.  por demais misterioso o modo pelo qual isso pode acontecer, , contudo, um problema de psicologia geral, que propriamente no nos interessa aqui. 
Ficamos sabendo, pelos sonhos de crianas, que a inteno da elaborao onrica  eliminar o estmulo mental, perturbador do sono, por meio da realizao de um desejo. 
Dos sonhos deformados no podamos dizer nada semelhante, at descobrirmos como interpret-los. Desde o incio, porm, nossa expectativa era a de podermos considerar 
os sonhos deformados sob o mesmo prisma que os sonhos de crianas. A primeira confirmao desta expectativa nos foi dada pela descoberta de que, na realidade, todos 
os sonhos so sonhos de crianas, que eles operam com o mesmo material infantil, com os impulsos e mecanismos mentais da infncia. Agora que acreditamos haver superado 
a deformao onrica, devemos prosseguir e investigar se nossa viso a respeito dos sonhos como realizao de desejos tambm  vlida para os sonhos deformados.H 
pouco tempo, submetemos uma srie de sonhos  interpretao, porm deixamos completamente fora de cogitao a realizao de desejos. Estou certo de que os senhores 
repetidamente devem ter sido levados a se perguntarem, de si para si: 'Onde, porm, est a realizao de desejos, que se supe ser o objetivo da elaborao onrica?' 
A pergunta  importante, porque  aquela levantada por nossos crticos leigos. Os seres humanos, como os senhores sabem, possuem uma tendncia natural a repelir 
inovaes intelectuais. Uma das formas pelas quais se manifesta esta tendncia  a imediata reduo da novidade s suas menores propores, comprimindo-a, se possvel, 
em um simples verbete. 'Realizao de desejo' tornou-se o verbete para a nova teoria dos sonhos. O leigo pergunta: 'Onde est a realizao de desejo?' Instantaneamente, 
tendo ouvido falar que se supe serem os sonhos realizaes de desejos, no prprio ato de emitir a pergunta, ele a responde com uma rejeio. Imediatamente pensa 
em inumerveis experincias suas com sonhos, nas quais o sonho foi acompanhado por sentimentos que vo desde o desagradvel at uma acentuada ansiedade, de modo 
que a afirmao feita pela teoria psicanaltica dos sonhos parece-lhe muitssimo improvvel. No temos dificuldade em responder que, nos sonhos deformados, a realizao 
de desejo pode no estar evidente, porm deve ser buscada, de modo que  impossvel evidenciar-se depois que o sonho for interpretado. Sabemos, tambm, que os desejos, 
nesses sonhos deformados, so desejos proibidos - rejeitados pela censura - e a existncia desses desejos justamente foi a causa da deformao onrica, o motivo 
da interveno da censura dos sonhos. Contudo,  difcil fazer o crtico leigo entender que, antes de um sonho ser interpretado, no se pode investigar a respeito 
da realizao do desejo desse sonho. Ele continuar esquecendo este aspecto. Sua rejeio da teoria da realizao de desejo realmente no  mais que uma conseqncia 
de censura dos sonhos, um substituto da rejeio dos desejos onricos censurados e uma decorrncia da mesma.
         Naturalmente, tambm sentimos a necessidade de explicar a ns prprios por que existem tantos sonhos de contedo aflitivo e, especialmente, por que existem 
sonhos de ansiedade. Aqui, pela primeira vez, encontramos o problema dos afetos nos sonhos; mereceria uma monografia  parte, porm, infelizmente, no o adentraremos. 
Se os sonhos so realizaes de desejos, deveria ser impossvel surgirem neles os sentimentos desagradveis: ento pareceria que as crticas leigas teriam razo. 
Deve-se, contudo, levar em conta trs tipos de complicaes de que ainda no se havia cogitado.
         [1] Em primeiro lugar, pode ser que a elaborao onrica no tenha conseguido criar uma realizao de desejo; assim, parte do afeto aflitivo dos pensamentos 
onricos ficou excedente no sonho manifesto. Nesse caso, a anlise teria de demonstrar que estes pensamentos onricos eram muito mais desagradveis do que o sonho 
que foi construdo a partir deles. Que sempre se pode provar muita coisa. Sendo assim, devemos admitir que a elaborao onrica atingiu seu objetivo em grau no 
maior do que o sonho com beber, o qual, formado em resposta ao estmulo da sede, no conseguiu aplacar a sede [ver em [1] e seg.]. Aquele que tem um tal sonho permanece 
com sede e tem de acordar para tomar algo. No obstante, era um sonho verdadeiro e no perdera nada da natureza essencial de um sonho. Podemos apenas dizer: 'Ut 
desint vires, tamen est laudanda voluntas.' A inteno, pelo menos, que pode ser definidamente reconhecida, merece ser valorizada. Tais casos de fracasso no so 
eventos raros. Concorre para isto o fato de que  muito mais difcil a elaborao onrica alterar o sentido dos afetos de um sonho do que o seu contedo; os afetos, 
s vezes, so altamente resistentes. O que ento acontece  a elaborao onrica transformar o contedo aflitivo dos pensamentos onricos na realizao de um desejo, 
ao passo que o afeto desagradvel persiste inalterado. Em sonhos dessa espcie, o afeto  bastante inadequado ao contedo, e nossos crticos podem dizer que os sonhos 
to distante esto de serem realizaes de desejos que, mesmo mantendo um contedo incuo, podem ser sentidos como aflitivos. Podemos responder a este comentrio 
superficial assinalando que  precisamente em sonhos dessa natureza que o propsito realizador de desejos da elaborao onrica aparece mais claramente, por ter 
sido isolado. O erro surge porque queles que no esto familiarizados com as neuroses, se lhes afigura demasiado ntimo o vnculo entre contedo e afeto, e, portanto, 
no podem imaginar que o contedo seja alterado sem uma alterao simultnea da expresso do afeto ligado a ele.[2] Um segundo fator, muito mais importante e de 
grande alcance, contudo igualmente negligenciado pelos leigos, apresenta-se a seguir. No h dvida de que uma realizao de desejo deve proporcionar prazer; mas 
ento surge a pergunta: 'A quem?'  pessoa que tem o desejo, naturalmente. Mas, como sabemos, a relao do sonhador para com seus desejos  uma relao muito especial. 
Ele os repudia e os censura - no tem nenhuma simpatia por eles, em suma. De modo que sua realizao no lhe dar prazer, e sim o oposto; e a experincia mostra 
que este oposto aparece sob a forma de ansiedade, um fato ainda a explicar. Assim, aquele que sonha, em sua relao com seus desejos onricos, s pode ser comparado 
 amlgama de duas pessoas separadas, que esto ligadas por algum forte elemento em comum. Em vez de estender-me sobre isto, recordarei para os senhores um conhecido 
conto de fadas, no qual encontraro a mesma situao repetida. Uma fada boa prometeu a um casal pobre assegurar-lhe a realizao dos seus trs primeiros desejos. 
Eles ficaram jubilosos e puseram-se a pensar em como escolher cuidadosamente seus trs desejos. Mas um cheiro de lingia frita, proveniente da casa prxima, tentou 
a mulher a desejar algumas lingias. Num relmpago, ali estavam as lingias; e esta foi a primeira realizao de desejo. Mas o marido se enfureceu, e, em sua raiva, 
desejou que as lingias ficassem dependuradas no nariz da mulher. E foi isto o que tambm aconteceu; e no havia como retir-las dessa nova posio. Esta foi a 
segunda realizao de desejo; mas o desejo era do homem, e a sua realizao foi muito desagradvel para sua mulher. Os senhores sabem o restante da histria. Visto 
que, afinal, eles eram, de fato, um - marido e mulher - o terceiro desejo no podia ser seno o de que as lingias se desprendessem do nariz da mulher. Este conto 
de fadas poderia ser usado em relao a muitas outras coisas; mas aqui serve apenas para ilustrar a possibilidade de que, se duas pessoas no esto de acordo uma 
com a outra, a realizao de um desejo de uma delas no pode seno causar desprazer  outra.
         Agora no nos ser difcil conseguir compreender melhor ainda os sonhos de ansiedade. Apresentaremos uma nova observao, e ento nos decidiremos a adotar 
a hiptese a favor da qual h muito que dizer. A observao consiste em que os sonhos de ansiedade freqentemente possuem um contedo, por assim dizer, que escapou 
 censura. Um sonho de ansiedade, muitas vezes,  a realizao indisfarada de um desejo - no, naturalmente, de um desejo inaceitvel, mas de um desejo repudiado. 
A gerao da ansiedade assumiu o lugar da censura. Ao passo que de um sonho infantil podemos dizer ser ele a realizao franca de um desejo permitido, e de um sonho 
deformado como sendo a realizao disfarada de um desejo reprimido, a nica frmula adequada a um sonho de ansiedade consiste em que este  a realizao franca 
de um desejo reprimido. A ansiedade  um sinal de que o desejo reprimido se mostrou mais forte que a censura, que ele levou a cabo, ou est a ponto de levar a cabo, 
sua realizao de desejo, apesar da censura. Percebemos que aquilo que para o desejo  uma realizao de desejo, para ns s pode ser, de vez que estamos do lado 
da censura, motivo de sentimentos angustiantes e de repulsa ao desejo. A ansiedade que emerge nos sonhos , se preferem, ansiedade face  fora destes desejos que 
normalmente esto sob controle. A razo por que esta repulsa aparece na forma da ansiedade no pode ser descoberta apenas a partir do estudo dos sonhos; a ansiedade 
deve ser estudada, evidentemente, em outro contexto.Podemos supor que aquilo que  verdadeiro para os sonhos de ansiedade no-deformados tambm se aplica queles 
parcialmente deformados, assim como a outros sonhos desprazveis, nos quais os sentimentos desagradveis provavelmente correspondem a uma aproximao da ansiedade. 
Sonhos de ansiedade, via de regra, so tambm sonhos que fazem despertar; habitualmente interrompemos nosso sono antes que o desejo reprimido, no sonho, tenha executado 
a realizao completa, apesar da censura. Nesse caso, a funo do sonho fracassou, mas sua natureza essencial no foi modificada com isto. Temos comparado os sonhos 
com o vigia noturno ou guardio do sono, que procura proteger nosso sono contra perturbaes [ver em [1]]. O vigia noturno, tambm, pode chegar ao ponto de acordar 
a pessoa que dorme, se sente que  por demais fraco para, sozinho, afugentar a perturbao ou o perigo. Ainda assim, s vezes conseguimos continuar nosso sono, mesmo 
quando o sonho comea a ficar inseguro e a transformar-se em ansiedade. Dizemos a ns mesmos, em nosso sono, 'afinal  apenas um sonho', e continuamos dormindo.Quando 
ocorre que um desejo onrico consegue sobrepujar a censura? A condio necessria para isto pode ser preenchida tanto pelo desejo onrico como pela censura do sonho. 
O desejo, devido a uma causa desconhecida, pode ser excessivamente forte em uma ocasio; mas tem-se a impresso de que, com mais freqncia, a conduta da censura 
do sonho  a responsvel por este deslocamento de suas foras relativas. J vimos [ver em [1]] que a censura atua com intensidade varivel em cada caso particular, 
que ela trata cada elemento de um sonho com um grau diferente de severidade. Agora podemos acrescentar mais uma hiptese no sentido de que, em geral, a censura  
muito varivel e no emprega igual severidade para com cada elemento censurvel. Caso suceda, em dada ocasio, sentir-se sem foras contra um desejo onrico que 
ameaa tom-la de surpresa, em vez da deformao ela se utiliza de seu ltimo recurso restante e abandona o estado de sono, ao mesmo tempo gerando ansiedade.Nessa 
conexo, surpreende-nos o fato de ainda ignorarmos, tanto, por que esses desejos maus, repudiados, se tornam ativos justamente  noite, e nos perturbam durante o 
sono. A resposta, praticamente, no pode deixar de se fundamentar em alguma hiptese relativa  natureza do estado de sono. Durante o dia uma pesada censura os oprime, 
e, via de regra, lhes torna impossvel manifestar-se em qualquer atividade.  noite, esta censura, assim como todos os demais interesses da vida mental, provavelmente, 
est afastada ou, pelo menos, muito reduzida, em benefcio apenas do desejo de dormir.  a essa diminuio da censura,  noite, que os desejos proibidos devem agradecer 
por poderem se tornar novamente ativos. H alguns pacientes neurticos que so incapazes de dormir, e admitem que sua insnia foi, inicialmente, intencional. No 
ousavam dormir porque temiam os seus sonhos - isto , temiam os resultados do enfraquecimento da censura. Os senhores constataro com facilidade, entretanto, que, 
a despeito disto, o afastamento da censura no importa em grande desorganizao. O estado de sono paralisa nossa capacidade motora. Se nossas intenes ms comeam 
a perturbar, elas podem, afinal, causar nada mais do que simplesmente um sonho, que  incuo, do ponto de vista prtico.  esta considerao apaziguadora a base 
de comentrio altamente inteligente feito por aquele que est sonhando -  noite,  verdade, mas no formando parte da vida onrica: 'Afinal,  apenas um sonho. 
Deixemos que ele siga seu caminho, continuemos dormindo.'[3] Em terceiro lugar, se os senhores se recordarem de nossa idia de que o sonhador, lutando contra seus 
prprios desejos, pode ser comparado  soma de duas pessoas separadas, embora de algum modo em ntima conexo uma com a outra, compreendero mais uma possibilidade. 
Porque existe uma possibilidade de que a realizao de um desejo venha a causar algo nada prazeroso - ou seja, uma punio. Aqui, novamente, podemos utilizar como 
ilustrao o conto de fadas dos trs desejos. As lingias fritas, em um prato, eram realizao direta do desejo da primeira pessoa, a mulher. As lingias grudadas 
em seu nariz eram a realizao do desejo da segunda pessoa, o marido; contudo eram, ao mesmo tempo, uma punio pelo desejo tolo da mulher. (Nas neuroses descobriremos 
o motivo do terceiro desejo, o ltimo que restava, no conto de fadas.) Existem vrias dessas tendncias punitivas na vida mental dos seres humanos; so muito poderosas 
e podemos atribuir-lhes a responsabilidade de alguns dos sonhos aflitivos. Agora, talvez, os senhores diro que com isto resta muito pouco da famosa realizao de 
desejo. Ao considerarem a questo mais detidamente, porm, admitiro que se enganaram. Comparada com a multiplicidade (que mencionarei mais adiante) de coisas que 
os sonhos podem ser, e, segundo muitas autoridades, realmente so, nossa soluo - realizao de desejo, realizao de ansiedade, realizao de punio -  muito 
restrita. Podemos acrescentar que a ansiedade  o oposto direto do desejo, que os opostos se encontram muito prximos um do outro nas associaes e que, no inconsciente, 
eles se unem [ver em [1] e segs.]; e, ademais, que a punio tambm  a realizao de um desejo: do desejo da outra pessoa, a que censura.
         No conjunto, portanto, no fiz concesso  objeo dos senhores contra a teoria da realizao de desejo. Compete-nos, porm, sermos capazes de indicar a 
realizao de desejo em todo sonho deformado que pudermos encontrar, e, por certo, no fugiremos  tarefa. Retornemos ao sonho que j interpretamos, o sonho dos 
trs ingressos ruins por 1 florim e meio [ver em [1] e [2] ], do qual j aprendemos tanto. Espero que se recordem dele. Uma senhora, cujo marido lhe havia dito, 
durante o dia, que sua amiga Elise, que era s trs meses mais nova que ela, havia noivado, sonhou que estava no teatro, com seu marido. Um dos lados da primeira 
fila de cadeiras estava quase vazio. Seu marido dizia-lhe que Elise e seu noivo tambm tinham desejado ir ao teatro, mas no puderam, pois apenas tinham conseguido 
lugares ruins - trs por 1 florim e meio. Ela pensou que no teria havido nenhum prejuzo se tivessem ido. Verificamos que os pensamentos onricos estavam relacionados 
 sua irritao por haver casado to cedo e  sua insatisfao com seu marido. Talvez tenhamos a curiosidade de descobrir como estes pensamentos sombrios se transformaram 
numa realizao de desejo e onde se pode encontrar algum vestgio do mesmo no contedo manifesto do sonho. J sabemos que o elemento 'muito cedo, apressadamente' 
foi eliminado do sonho pela censura [ver em [1] e [2]]. As cadeiras vazias eram uma aluso a esse elemento. O misterioso 'trs por 1,50 florim' agora se nos torna 
mais inteligvel com a ajuda do simbolismo, com o qual, nesse meio tempo, nos familiarizamos. O '3' realmente significa um homem [ou marido] e o elemento manifesto 
 fcil de traduzir: comprar um marido com o dote dela. ('Eu poderia ter conseguido um dez vezes melhor com meu dote.') 'Casar' est claramente substitudo por 'ir 
ao teatro'. 'Comprar os ingressos cedo demais' , realmente, um substituto imediato de 'casar cedo demais'. Esta substituio , porm, obra da realizao de um 
desejo. Essa mulher nem sempre estava to insatisfeita com seu casamento precoce como estava no dia em que recebeu a notcia do noivado de sua amiga. Em certa poca, 
tinha estado orgulhosa do seu casamento e considerava-se em vantagem sobre sua amiga. Como se sabe, moas ingnuas, depois de haverem noivado, freqentemente expressam 
seu contentamento por poderem, em breve, ir ao teatro, a todas as peas que at ento foram proibidas, e terem permisso de ver tudo. O prazer de olhar, ou a curiosidade, 
que nisto se revela, era sem dvida, originalmente, um desejo sexual de olhar [escopofilia], dirigido para os eventos sexuais e especialmente para os pais das moas; 
da haver-se tornado poderoso motivo para induzi-las a um casamento precoce. Assim sendo, freqentar o teatro tornou-se, mediante uma aluso, um substituto bvio 
de estar casada. Por tanto, essa senhora que sonhou, em sua atual irritao com seu casamento precoce, retrocedeu ao tempo em que o casamento precoce constitua 
a realizao de um desejo, porque satisfazia a sua escopofilia, e, levada por esse antigo impulso pleno de desejo, substituiu casamento por ir ao teatro.No posso 
ser acusado de ter selecionado especialmente o exemplo mais conveniente para provar uma oculta realizao de desejo. O procedimento haveria de ter sido o mesmo no 
caso de outros sonhos deformados. No posso demonstrar-lhes isto agora, e apenas expressarei minha convico de que sempre poderia ser executado com xito. Entretanto, 
deter-me-ei um pouco mais neste ponto terico. A experincia ensinou-me que este  um dos pontos mais expostos a ataque em toda a teoria dos sonhos, e que muitas 
contradies e equvocos se originam nele. Ademais disso, os senhores talvez ainda se encontrem sob a impresso de que j retirei parte da minha afirmao ao dizer 
que um sonho  um desejo realizado, ou o oposto de um desejo realizado, ou uma ansiedade, ou uma punio realizada; e os senhores podem pensar que esta  uma oportunidade 
para me forarem a outras restries. Tambm tenho sido censurado por apresentar coisas que me parecem bvias sob forma por demais concisa e, em conseqncia, no-convincente.
         Quando algum nos acompanhou at aqui na interpretao dos sonhos e aceitou tudo que foi apresentado at este ponto, amide sucede que faz uma pausa na 
realizao de desejo e diz: 'J que os sonhos sempre tem um sentido e este sentido pode ser descoberto pela tcnica da psicanlise, por que deve este sentido, com 
todas as evidncias em contrrio, ser enquadrado  fora dentro da frmula da realizao de desejo? Por que no deveria o sentido deste pensar noturno ser de tantas 
espcies quantas so o do pensar diurno? Ou seja, por que no deveria um sonho muitas vezes corresponder a um desejo realizado, s vezes, como o senhor mesmo o diz, 
ao oposto desse desejo ou a um medo realizado, mas, s vezes, exprimir uma inteno, uma advertncia, uma reflexo com os seus prs e contras, ou uma reprovao, 
um escrpulo de conscincia, uma tentativa de se preparar para uma tarefa urgente, e assim por diante? Por que deve ser sempre apenas um desejo, ou, quando muito, 
o oposto do desejo?'
         Poder-se-ia pensar que uma diferena de opinio neste ponto no tem importncia, se se concorda no restante. Poder-se-ia dizer que basta havermos descoberto 
o sentido dos sonhos e a maneira de reconhec-lo;  de somenos importncia se parecemos definir de maneira muito restrita esse sentido. No  isso, porm. Um equvoco 
neste ponto afeta a essncia de nossas descobertas sobre os sonhos e pe em perigo o valor das mesmas para a compreenso das neuroses. Alm disso, um acordo dessa 
espcie - que  muito cogitado na vida comercial como sendo uma 'cortesia' - no tem acolhida em assuntos cientficos, por ser prejudicial.
         Minha primeira resposta  pergunta de saber por que os sonhos no possuem numerosas significaes no sentido indicado,  a que costumo dar em tais casos: 
'No sei por que no possuem. No teria o que objetar. Na parte que me interessa, poderia ser assim. Existe apenas um detalhe nessa questo de um conceito mais vasto 
e mais cmodo dos sonhos -  que na realidade no  assim.' Minha segunda resposta seria que a hiptese de que os sonhos correspondem a uma variedade de formas de 
pensar e de operaes intelectuais, no me  estranha, a mim prprio. J certa vez relatei um sonho, em um de meus casos clnicos, o qual apareceu por trs noites 
sucessivas, e depois nunca mais; e expliquei essa conduta com o fato de que o sonho correspondia a uma inteno e no necessitava repetir-se depois de a inteno 
ter sido realizada. Mais tarde publiquei um sonho que corresponde a uma  aprovao. Portanto, como poderei contradizer-me e afirmar que os sonhos jamais so outra 
coisa seno um desejo realizado?Fao-o, porque no deixarei passar um equvoco tolo que pode nos roubar o fruto de nossos esforos com os sonhos - um equvoco que 
confunde o sonho com os pensamentos onricos latentes e afirma, acerca daquele, algo que se aplica somente a este. Pois  bastante correto dizer que o sonho pode 
representar, e ser substitudo por, tudo aquilo que os senhores h pouco enumeraram - uma inteno, uma advertncia, uma reflexo, uma preparao, uma tentativa 
de solucionar um problema, e assim por diante. Se examinarem atentamente, vero, todavia, que tudo isso se aplica somente aos pensamentos onricos latentes que foram 
transformados em sonho. Os senhores sabem, das interpretaes de sonhos, que o pensar inconsciente das pessoas centra-se nessas intenes, preparaes, reflexes, 
e assim por diante, a partir das quais a elaborao onrica ento forma os sonhos. Se, no momento, os senhores no esto interessados na elaborao onrica, estiverem, 
contudo, muito interessados na atividade ideativa inconsciente das pessoas, ento os senhores eliminam a elaborao onrica e dizem do sonho o que na prtica  bastante 
correto - que ele corresponde a uma advertncia, uma inteno, e assim por diante. O que freqentemente acontece na atividade psicanaltica  que nossos esforos 
se dirigem principalmente para a eliminao da forma onrica e visam a inserir no contexto, em vez da forma onrica, os pensamentos latentes com os quais o sonho 
foi feito.Assim, bastante incidentalmente, constatamos, de nosso exame dos pensamentos onricos latentes, que todos estes atos mentais altamente complexos que citamos 
podem realizar-se inconscientemente - uma descoberta to grandiosa quanto surpreendente!Mas, voltando atrs, os senhores somente estaro corretos enquanto tiverem 
plena conscincia de haver usado uma forma abreviada de expresso e enquanto no acreditarem que a multiplicidade que descreveram deve estar relacionada  natureza 
essencial dos sonhos. Quando falam de 'sonho', devem querer significar ou o sonho manifesto - isto , o produto da elaborao onrica - ou, no mximo, tambm a prpria 
elaborao onrica, isto , o processo psquico que forma o sonho manifesto a partir dos pensamentos onricos latentes. Qualquer outro uso da palavra significa confuso 
de idias, e s pode levar a maus resultados. Quando estiverem fazendo afirmaes acerca dos pensamentos latentes por trs do sonho, faam-no diretamente, e no 
obscuream o problema dos sonhos com uma forma negligente de falar. Os pensamentos onricos latentes so o material que a elaborao onrica transforma em sonho 
manifesto. Por que teriam de confundir o material com a atividade que o forma? Com isto, que vantagem os senhores teriam sobre aqueles que apenas conheceram o produto 
dessa atividade, e no puderam explicar de onde veio ou como foi feito?A nica coisa essencial a respeito de sonhos  a elaborao onrica que modificou o material 
ideativo. No temos o direito de ignor-la, em nossa teoria, ainda que a negligenciemos em algumas situaes prticas. A observao analtica demonstra, tambm, 
que a elaborao onrica nunca se limita a traduzir esses pensamentos em um modo de expresso arcaico ou regressivo que os senhores conhecem. Ademais, regularmente 
se apossa de mais alguma coisa, que no faz parte dos pensamentos latentes do dia anterior, mas que  a verdadeira fora propulsora da construo do sonho. Este 
acrscimo indispensvel  o desejo igualmente inconsciente, para cuja realizao o contedo do sonho recebe sua nova forma. Portanto, um sonho pode ser qualquer 
espcie de coisas desde que os senhores estejam apenas tomando em considerao os pensamentos que representa - uma advertncia, uma inteno, uma preparao, e assim 
por diante; mas tambm  sempre a realizao de um desejo inconsciente e, se os senhores o considerarem produto da elaborao onrica, ele  isto, somente. Assim 
sendo, um sonho nunca  simplesmente uma inteno, ou uma advertncia, mas sempre uma inteno, etc. traduzida para o modo arcaico de pensamento, mediante o auxlio 
de um desejo inconsciente, e transformada para realizar esse desejo. [Ver em [1]] Esta caracterstica, a de realizao de desejo,  a caracterstica invarivel; 
as demais podem variar. Pode, por seu turno, mais uma vez, ser um desejo, e neste caso o sonho, com auxlio de um desejo inconsciente, representar como realizado 
um desejo latente do dia anterior.Eu consigo compreender tudo isto muito claramente; mas no posso dizer se consegui torn-lo inteligvel tambm para os senhores. 
E tambm tenho dificuldade em lho demonstrar. Isso no pode ser feito sem cuidadosamente analisar muitssimos sonhos e, por outro lado, esse aspecto to importante 
e to crtico de nosso conceito dos sonhos no pode ser convincentemente apresentado sem nos referirmos quilo que vem depois.  impossvel supor, de vez que tudo 
 intimamente inter-relacionado, que se possa penetrar profundamente na natureza de uma coisa sem que se tenha levado em conta coisas de natureza semelhante. Como 
ainda no sabemos nada dos parentes mais prximos dos sonhos, os sintomas neurticos, mais uma vez devemos contentar-nos, neste ponto, com o que temos conseguido. 
Quero apenas dar-lhes s mais um exemplo ilustrativo e expor-lhes uma nova idia.
         Retomemos o sonho ao qual retornamos tantas vezes: o sonho dos trs ingressos de teatro por 1 florim e meio. (Posso assegurar-lhes que inicialmente escolhi 
este exemplo sem qualquer propsito especial em vista.) Os senhores conhecem os pensamentos onricos latentes: irritao por ter tido tanta pressa de casar, o que 
surgiu quando ela ouviu a notcia de que sua amiga s ento acabava de noivar, atribuindo pouco valor a seu marido; e a idia de que poderia ter conseguido um marido 
melhor, se ela ao menos tivesse esperado. J conhecemos o desejo que fez desses pensamentos um sonho: era o desejo de olhar, de poder ir ao teatro, muito provavelmente 
uma derivao de sua antiga curiosidade de descobrir, afinal, o que realmente acontece quando uma pessoa casa. Esta curiosidade, conforme sabemos, as crianas dirigem-na 
regularmente  vida sexual dos pais; trata-se de curiosidade infantil e, na medida em que ainda persiste, mais tarde, de um impulso instintual com razes que remontam 
 infncia. A notcia que a sonhadora recebeu durante o dia no proporcionou a ocasio de despertar este desejo de olhar, mas apenas despertou irritao e desgosto. 
Este impulso pleno de desejo no se encontrava,  primeira vista, em conexo com os pensamentos onricos latentes; e poderamos incluir o resultado da interpretao 
do sonho na anlise sem levar em conta esse impulso. A irritao, de per se, contudo no era capaz de criar um sonho. Um sonho no poderia surgir a partir dos pensamentos 
de que 'foi absurdo casar to cedo', a no ser quando estes despertaram o antigo desejo de ver, at que enfim, o que acontece no casamento. Este desejo, ento, deu 
ao contedo do sonho a sua forma, substituindo casamento por ir ao teatro, e a forma foi a de uma anterior realizao de desejo: 'Toma! agora eu posso ir ao teatro 
e vez tudo o que  proibido, e tu no podes! Estou casada e tu tens que esperar!' Desse modo, sua presente situao foi transformada em seu oposto, um velho triunfo 
se colocou no lugar de sua recente frustrao. E, alis, a satisfao de sua escopofilia misturou-se  satisfao de sua tendncia competitiva egostica. Esta satisfao 
determinou, ento, o contedo manifesto do sonho, no qual a situao real consistia em que ela estava no teatro, ao passo que a amiga no conseguia obter ingresso 
ao mesmo. As partes do contedo do sonho, atrs das quais os pensamentos onricos latentes ainda permanecem escondidos, foram superpostas a essa situao de satisfao, 
como modificao equvoca e ininteligvel da mesma. A interpretao do sonho teve de desprezar tudo quanto serviu para representar a realizao de desejos e de restabelecer 
os pensamentos onricos latentes aflitivos, diferenciando-os desses obscuros indcios remanescentes.A nova idia que desejo apresentar-lhes  atrair sua ateno 
para os pensamentos onricos latentes que agora se colocaram em primeiro plano. Peo-lhes que no se esqueam de que, em primeiro lugar, eles so inconscientes para 
o sonhador e, em segundo lugar, de que ele so completamente racionais e coerentes, de modo que podem ser compreendidos como reaes naturais  causa precipitante 
do sonho; e, em terceiro lugar, de que eles podem ser o equivalente de qualquer impulso mental ou operao intelectual. Agora descreverei estes pensamentos, mais 
estritamente do que antes, como resduos diurnos, admita-os ou no a pessoa que teve o sonho. E farei a distino entre os resduos diurnos e os pensamentos onricos 
latentes e, de conformidade com o uso que fizermos anteriormente, designarei como pensamentos onricos latentes tudo o que constatamos na interpretao do sonho, 
enquanto os resduos diurnos constituem apenas uma parte dos pensamentos onricos latentes. Pensamos, pois, que alguma coisa se acrescenta aos resduos diurnos, 
algo que tambm fazia parte do inconsciente, um impulso pleno de desejos, poderoso, porm reprimido; e  este, somente, que torna possvel a construo do sonho. 
A influncia deste impulso pleno de desejos sobre os resduos diurnos cria a outra parte dos pensamentos onricos latentes - essa parte que j no necessita parecer 
racional e inteligvel como se fosse derivada da vida desperta.Tenho usado de uma analogia para ilustrar a relao entre os resduos diurnos e o desejo inconsciente, 
e aqui posso apenas repeti-la. Em todo empreendimento,  preciso haver um capitalista que cobre as despesas e um entrepreneur que tem a idia e sabe como p-la em 
prtica. Na construo dos sonhos, o papel do capitalista  sempre desempenhado apenas pelo desejo inconsciente; este prove a energia psquica para a construo 
do sonho. O entrepreneur  o resduo diurno que decide como deve ser usado este dispndio de energia. Naturalmente,  possvel o prprio capitalista ter a idia 
e o conhecimento tcnico, ou o prprio entrepreneur ter o capital. Isto simplifica a situao prtica, porm dificulta a compreenso terica. Em economia, a mesma 
pessoa se encontra constantemente dividida em seus dois aspectos de capitalista e de entrepreneur, e isto restabelece a situao fundamental em que se baseou nossa 
analogia. Na construo onrica, as mesmas flutuaes acontecem, e deixo que os senhores as complementem.Neste ponto no podemos progredir mais, pois os senhores 
provavelmente h muito tm sido perturbados por uma dvida, e esta merece ateno. 'Os resduos diurnos', os senhores me perguntaro, 'so realmente inconscientes 
no mesmo sentido que o desejo inconsciente que deve ser acrescentado a eles, a fim de torn-los capazes de produzir um sonho?' A suposio dos senhores est correta. 
Este  o ponto saliente em todo este assunto. No so inconscientes no mesmo sentido. O desejo onrico pertence a um inconsciente diferente - quele inconsciente 
que j reconhecemos como tendo uma origem infantil e mecanismos peculiares [ver em [1] e [2]]. Seria muito oportuno distinguir essas duas espcies de inconscientes 
por meio de nomes diferentes. Preferiramos, porm, esperar at nos familiarizarmos com a rea dos fenmenos das neuroses. As pessoas consideram um tanto fantstico 
haver um s inconsciente. Que diro quando confessarmos que temos de nos haver com dois?Vamos interromper neste ponto. Mais uma vez, os senhores ouviram somente 
algo incompleto. No entanto, no  promissor pensar que este conhecimento tem uma continuao, que ou ns mesmos ou outras pessoas iremos elucidar? E ns mesmos 
j no aprendemos tantas coisas novas e surpreendentes?
         
         CONFERNCIA XV - INCERTEZAS E CRTICAS
         
         SENHORAS E SENHORES:
         No deixaremos o tema dos sonhos sem abordarmos as dvidas e incertezas mais comuns que nossas inovaes e nossas teorias originaram at aqui. Os senhores 
mesmos, ouvintes atentos, tero coligido algumas junto ao material de que tratamos.
         (1) Os senhores podem ter tido a impresso de que, embora a tcnica seja corretamente executada, as descobertas de nosso trabalho interpretativo de sonhos 
admitem tantas incertezas, que chegam a invalidar qualquer traduo segura do sonho manifesto para os pensamentos onricos latentes. Em apoio a isso, os senhores 
argumentaro que, em primeiro lugar, nunca se sabe se um determinado elemento do sonho deve ser entendido no seu sentido realou na qualidade de smbolo, pois as 
coisas empregadas como smbolos no deixam de, por este motivo, ser elas mesmas. Se, no entanto, no se dispe de indcio objetivo para resolver isto, a interpretao, 
nesse ponto, deve ser deixada  escolha arbitrria do interpretador. Ademais, em conseqncia do fato de que, na elaborao onrica, os contrrios se fundem, sempre 
permanece indeterminado se certo elemento deve ser compreendido em sentido positivo ou negativo como sendo ele prprio ou como sendo o seu contrrio [ver em [1]]. 
Aqui est uma nova oportunidade de o interpretador exercer uma escolha arbitrria. Em terceiro lugar, em conseqncia de inverses de toda espcie, to ao gosto 
dos sonhos [ver em [1]],  facultado ao interpretador efetuar uma inverso dessas em relao a qualquer passagem do sonho que venha a escolher. E, por fim, comentaro 
que ouviram dizer que jamais se tem certeza de que a interpretao que se encontrou para um sonho  a nica possvel. Corremos o risco de passar por alto uma 'superinterpretao' 
perfeitamente admissvel do mesmo sonho [ver em [1]]. Nestas circunstncias, concluiro os senhores, deixa-se tanta margem para a deciso arbitrria do interpretador, 
que esta se torna incompatvel com a certeza objetiva dos dados. Ou, alternativamente, podem supor que a falha no se situa nos sonhos, mas que as inexatides de 
nossa interpretao de sonhos devem ser atribudas a erros em nossos pontos de vista e em nossas premissas.Todos os elementos que os senhores apresentam so indiscutveis; 
porm, segundo penso, no justificam suas concluses, em dois aspectos, ou seja: que a interpretao de sonhos, como insistem os senhores, esteja  merc da escolha 
arbitrria, e que a falta de resultados lance dvidas sobre a correo de nosso mtodo. Se, em lugar da escolha arbitrria feita pelo interpretador, os senhores 
se referissem  sua habilidade,  sua experincia e  sua compreenso, eu concordaria com os senhores. Naturalmente, no podemos dispensar um fator pessoal como 
este, especialmente nos problemas mais difceis da interpretao de sonhos. A situao no , porm, nada diferente em outras reas cientficas. No h como evitar 
que uma pessoa faa melhor uso de uma tcnica, que de outra. Em outros termos, aquilo que d a impresso de casualidade - na interpretao de sonhos, por exemplo 
-  desfeito pelo fato de, via de regra, a interconexo entre pensamentos onricos, ou a conexo entre o sonho e a vida de quem sonha, ou a situao psquica global 
em que ocorre o sonho, selecionar uma s entre as solues possveis apresentadas, dispensando as demais, como inservveis. A concluso de que, por causa das imperfeies 
na interpretao de sonhos, nossas hipteses seriam incorretas,  invalidada assinalando-se que, ao contrrio, a ambigidade ou a indefinio  uma caracterstica 
dos sonhos que era de se prever, necessariamente.Recordemos haver dito que a elaborao onrica executa uma verso dos pensamentos onricos segundo um modo de expresso 
primitivo, semelhante  escrita pictogrfica [ver em [1] e segs.]. No entanto, todos esses sistemas primitivos de expresso se caracterizam por indefinio e ambigidade 
semelhante, no justificando que lancemos dvidas sobre sua serventia. A fuso dos contrrios, na elaborao onrica, , como sabem, anloga  chamada 'significao 
antittica das palavras primitivas' nos idiomas mais antigos. Realmente, Abel (1884), o fillogo ao qual devemos essa linha de pensamento, nos pede no supormos 
que as comunicaes feitas por uma pessoa a outra, com a ajuda de tais palavras ambivalentes, sejam, por essa razo, ambguas. Pelo contrrio, entonao e gestos 
devem t-las feito muito precisas, no contexto do discurso, indicando qual dos dois contrrios o interlocutor tencionava comunicar. Na escrita, onde o gesto est 
ausente, seu lugar era ocupado por um sinal pictogrfico que no se destinava a ser falado - por exemplo, pela figura de um homenzinho, agachado e cambaleando ou 
firmemente ereto, conforme o hierglifo 'ken' devesse significar 'fraco' ou 'forte'. Assim, apesar da ambigidade dos sons e sinais, evitava-se o equvoco. [Ver 
em [1] e [2], anteriores.]
         Os antigos sistemas de expresso - por exemplo, a escrita dos idiomas mais antigos - revelam vaguidade em uma variedade de formas tal que no toleraramos 
em nossa escrita atual. Assim, em algumas escritas semticas, somente esto indicadas as consoantes das palavras. O leitor deve inserir as vogais omitidas, segundo 
seus conhecimentos e o contexto. A escrita hieroglfica se comporta de forma similar, embora no precisamente da mesma maneira; e por este motivo permanece desconhecida 
para ns a pronncia do antigo idioma egpcio. A escrita sagrada dos egpcios  importante tambm em outros aspectos. Por exemplo, compete  deciso arbitrria do 
escriba dispor as figuras da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita. A fim de proceder  sua leitura, deve-se seguir a regra de ler em direo aos 
rostos das figuras, pssaros, e assim por diante. Porm o escriba tambm podia ordenar os sinais pictogrficos em colunas verticais, e, ao fazer inscries em objetos 
comparativamente pequenos, permitia que consideraes de decorao e espao o influenciassem no sentido de alterar a seqncia dos sinais de outras maneiras. O que 
mais perturba na escrita hieroglfica , sem dvida, o fato de no haver separao entre as palavras. As figuras so dispostas na pgina separadas por distncias 
iguais; em geral,  impossvel dizer se um sinal ainda faz parte da palavra precedente ou se forma o comeo de uma nova palavra. Na escrita cuneiforme persa, por 
outro lado, uma cunha oblqua serve para separar as palavras.
         Idioma e escrita extremamente antigos, o chins ainda  usado por quatrocentos milhes de pessoas. Os senhores no devem supor que eu absolutamente o entenda; 
somente obtive algumas informaes sobre o mesmo porque esperava encontrar nele analogias com a impreciso dos sonhos. E minha expectativa no sofreu desapontamento. 
O idioma chins est cheio de exemplos de impreciso que poderiam nos deixar muito alarmados. Como se sabe, compe-se de numerosos sons silbicos que so falados 
isolados ou combinados aos pares. Um dos principais dialetos possui uns quatrocentos destes sons. Como o vocabulrio deste dialeto  calculado em cerca de quatro 
mil palavras, porm, conclui-se que cada som tem, em mdia, dez significados diferentes - alguns menos, mas outros, em troca, tm mais. Existem numerosos mtodos 
de evitar a ambigidade, pois no se pode inferir, apenas a partir do contexto, qual dos dez significados do som silbico a pessoa tenciona transmitir ao ouvinte. 
Entre esses mtodos esto aqueles que consistem em combinar dois sons em uma palavra composta e em utilizar quatro diferentes 'tons' na pronncia das slabas. Do 
ponto de vista de nossa comparao,  ainda mais interessante verificar que este idioma praticamente no tem gramtica.  impossvel dizer se uma das palavras monossilbicas 
 um substantivo, ou um verbo, ou um adjetivo; e no h flexes verbais, pelas quais se possa reconhecer gnero, nmero, desinncia, tempo e modo. Assim, a linguagem 
consta, poderia dizer-se, apenas de matria-prima, assim como nossa linguagem-pensamento fica reduzida, atravs da elaborao onrica,  sua matria-prima, e se 
omite qualquer expresso de relao. No idioma chins, a soluo do sentido, em todos os casos, cabe ao entendimento de quem ouve, e nisto a pessoa se guia pelo 
contexto. Tomei nota de um exemplo de um provrbio chins que, traduzido literalmente, reza assim:'Pouca viso, muita maravilha.No  difcil compreender isto. Pode 
significar: 'Quanto menos algum viu, mais tem com que se maravilhar'; ou: 'De muita coisa se admira aquele que viu pouco.' Naturalmente, no h maneira de diferenciar 
entre estas duas verses que diferem apenas gramaticalmente. Apesar desta impreciso, foi-nos assegurado que o idioma chins  um veculo bastante eficiente de expresso 
do pensamento. Assim, a impreciso no deve necessariamente produzir ambigidade.Naturalmente, deve-se admitir que o sistema de expresso por meio de sonhos ocupa 
uma posio muito mais desfavorvel do que qualquer desses idiomas e escritas antigos. Pois, afinal, destinam-se estes, fundamentalmente,  comunicao; ou seja, 
por qualquer mtodo e com qualquer recurso, destinam-se a serem compreendidos. Precisamente esta caracterstica, porm, est ausente nos sonhos. Um sonho no pretende 
dizer nada a ningum. No  um veculo de comunicao; pelo contrrio, destina-se a permanecer no-compreendido. Por essa razo, no devemos nos surpreender ou ficar 
perplexos ao verificarmos que permanecem sem soluo numerosas ambigidades e obscuridades dos sonhos. O nico lucro certo que auferimos de nossa comparao  a 
descoberta de que esses pontos de incerteza que as pessoas tentaram usar como objees  solidez de nossas interpretaes de sonhos so, ao contrrio, caractersticas 
constantes de todos os sistemas primitivos de expresso.A questo de saber at onde alcana a inteligibilidade dos sonhos somente pode ser respondida pela prtica 
e pela experincia. Muito longe, creio; e minha opinio  confirmada ao compararmos os resultados produzidos por analistas de formao correta. O pblico leigo, 
inclusive o pblico leigo cientfico, como se sabe, gosta de promover uma demonstrao de ceticismo quando se defronta com as dificuldades e incertezas de uma realizao 
cientfica. Penso que nisto no tm razo. Talvez nem todos os senhores estejam cientes de que uma situao semelhante surgiu na histria da decifrao das inscries 
assrio-babilnicas. Houve poca em que a opinio pblica esteve muito inclinada a considerar visionrios os decifradores da escrita cuneiforme, e a totalidade de 
suas pesquisas, uma 'impostura'. Mas, em 1857, a Royal Asiatic Society fez uma experincia decisiva. Solicitou a quatro dos peritos mais altamente respeitados em 
escrita cuneiforme, Rawlinson, Hincks, Fox Talbot e Oppert para remeterem, em envelopes lacrados, tradues independentes de uma inscrio recentemente descoberta; 
e, aps uma comparao entre os quatro trabalhos, pde anunciar que a concordncia entre estes peritos era suficiente para justificar o crdito que at ento se 
havia dado e a confiana em posteriores realizaes. A zombaria por parte do mundo leigo culto diminuiu gradualmente, aps isto, e desde ento tem aumentado enormemente 
a certeza na leitura dos documentos cuneiformes.(2) Um segundo grupo de dvidas est em conexo ntima com a impresso,  qual certamente nem os senhores escaparam, 
de que determinadas solues, em direo s quais nos sentimos compelidos ao interpretar sonhos, parecem ser foradas, artificiais, arranjadas por imposio - isto 
, arbitrrias, ou at mesmo cmicas, anedticas. Comentrios nesse sentido so to freqentes, que escolherei ao acaso o ltimo que me foi relatado. Ouam, pois. 
Na Sua livre, o diretor de uma instituio de ensino recentemente foi afastado do cargo por causa de seu interesse pela psicanlise. Ele entrou com um protesto, 
e um jornal de Berna publicou a verso das autoridades da escola sobre sua apelao. Selecionarei algumas frases desse documento, referentes  psicanlise: 'Alm 
de tudo, estamos surpresos com o aspecto forado e artificial de muitos dos exemplos, que tambm podem ser encontrados na obra do Dr. Pfister, de Zurique, a qual 
 citada.... Por conseguinte,  realmente surpreendente que o diretor de uma instituio de ensino aceite sem crticas todas essas assertivas e provas forjadas.' 
Estas frases so expostas como uma deciso a que chegou uma pessoa 'aps um julgamento sereno'. Penso que esta serenidade, isto sim,  que  'artificial'. Examinemos 
essas observaes mais detidamente, na expectativa de que uma leve reflexo e um pouco de conhecimento especializado no constituiro nenhuma desvantagem, mesmo 
para um julgamento sereno.
          verdadeiramente reconfortante verificar com que rapidez e infalibilidade uma pessoa pode chegar a julgar determinados problemas delicados de psicologia 
profunda aps ter sua primeira impresso sobre a mesma. As interpretaes lhe parecem artificiais e foradas, elas no lhe agradam; assim, elas so falsas e todo 
esse assunto de interpretao no tem valor. E nem dedica  outra possibilidade uma idia passageira - de que existem bons motivos para essas interpretaes s poderem 
ter esta aparncia; e da a outra questo, ou seja, quais so esses bons motivos.O assunto em questo refere-se essencialmente aos resultados do deslocamento, que 
os senhores j conhecem como o mais poderoso instrumento da censura de sonhos. Com auxlio do deslocamento, a censura de sonhos cria estruturas substitutivas que 
temos descrito como aluses. Mas trata-se de aluses que no so facilmente reconhecveis como tais, cujo caminho inverso at a coisa original no  fcil de estabelecer, 
e que se correlacionam com a coisa original por meio das associaes mais estranhas, incomuns e superficiais. Em todos estes casos, no entanto, trata-se de coisas 
que interessa sejam mantidas ocultas, condenadas ao ocultamento, pois  isto que objetiva a censura de sonhos. No devemos, contudo, esperar que uma coisa que foi 
mantida escondida venha a ser encontrada em seu lugar prprio, em sua localizao adequada. As comisses de controle de fronteira, que funcionam atualmente, so 
mais habilidosas neste aspecto do que as autoridades escolares suas. Em sua busca de documentos e anotaes, no se contentam com examinar carteiras e pastas de 
documentos, mas admitem a possibilidade de que os espies e contrabandistas possam ter essas coisas proibidas nas partes mais secretas do vesturio, onde sua presena 
seria totalmente imprpria - por exemplo, entre as solas duplas das botas. Se as coisas ocultas esto a, certamente ser possvel dizer que so 'artificiais', mas 
tambm  verdade que, com isso, muito se ter achado.Ao reconhecermos que as conexes entre um elemento onrico latente e o seu substituto manifesto podem ser da 
natureza mais remota e especial, s vezes parecendo cmicas e s vezes assemelhando-se a um chiste, estamos nos fundamentando em abundante experincia de exemplos 
que, via de regra, ns mesmos no solucionamos. Amide,  impossvel dar tais interpretaes por nossa prpria conta: nenhuma pessoa sensata poderia adivinhar qual 
a conexo. Aquele que teve o sonho nos d a traduo, toda de uma vez, por meio de uma associao direta - ele  capaz disso, pois foi ele quem produziu o substituto 
- ou ento fornece tanto material, que a soluo no exige mais nenhuma sagacidade, mas se apresenta, por assim dizer, como algo muito natural no contexto. Se o 
sonhador deixa de prestar esta ajuda numa ou noutra destas duas formas, o elemento manifesto, que pretendemos examinar, permanecer para sempre ininteligvel para 
ns. Permitam-me dar-lhos um exemplo que me ocorreu h pouco. Uma de minhas pacientes perdeu seu pai, durante o tratamento. Desde ento, ela aproveitou todas as 
ocasies para traz-lo  vida, em seus sonhos. Num destes, seu pai apareceu (em conexo com algo sem maior importncia) e disse: 'So onze e quinze, so onze e meia, 
so quinze para as doze.' Ao tentar a interpretao desta singularidade, tudo o que lhe acudiu  mente foi que seu pai gostava que seus filhos adultos chegassem 
pontualmente s refeies da famlia. Sem dvida, isto se relacionava ao elemento onrico, mas no elucidou nada de sua origem. Havia uma suspeita, baseada na situao 
imediata do tratamento, de que uma revolta crtica, cuidadosamente suprimida, contra seu pai querido e honrado, desempenhava um papel no sonho. No decorrer das associaes 
seguintes, aparentemente distantes do sonho, ela contou como, no dia anterior, tinha havido um bocado de conversa sobre psicologia, em sua presena, e um seu parente 
havia comentado: 'O Urmensch [homem primitivo] sobrevive em todos ns.' Isto pareceu dar-nos a explicao. Fora para ela uma excelente oportunidade para trazer  
vida o pai falecido. No sonho, ela o transformou no 'Uhrmensch' ['homem do relgio'] fazendo-o anunciar os quartos de hora do meio-dia.No h como evitar a semelhana 
deste exemplo com um chiste; e freqentemente tem acontecido um chiste do sonhador ser considerado como chiste de quem interpreta. H outros casos em que no tem 
sido nada fcil decidir se aquilo que estamos abordando  um chiste ou um sonho. Os senhores se lembraro, contudo, de que a mesma dvida surgiu no caso de algumas 
parapraxias - lapsos de lngua [ver em [1] e seg.]. Um homem referiu, como sonho seu, que um seu tio lhe havia dado um beijo enquanto estavam sentados no seu auto 
(mvel). Ele mesmo, muito rapidamente, acrescentou a interpretao: significava 'auto-erotismo' (um termo da teoria da libido, indicando satisfao obtida sem qualquer 
objeto externo). Estava o homem querendo fazer uma brincadeira conosco e estaria ele transmitindo um chiste de que se lembrava como um sonho? Penso que no; creio 
que ele realmente teve o sonho. Mas qual  a origem dessa enigmtica semelhana? Esta questo, em certa poca, desviou-me temporariamente do meu caminho, forando-me 
a fazer dos chistes mesmos o tema de uma investigao detalhada. A ficou demonstrado como se originam os chistes: uma seqncia de pensamentos pr-consciente  
abandonada por um momento para ser trabalhada no inconsciente, e deste ela emerge como chiste. Sob a influncia do inconsciente,  sujeita aos efeitos dos mecanismos 
que ali imperam - condensao e deslocamento -, os mesmos processos que vimos em ao na elaborao onrica; e  a este aspecto comum que se deve atribuir a semelhana, 
quando ocorre, entre chistes e sonhos. O 'chiste onrico' involuntrio no tem nada da graa de uma verdadeira anedota. Os senhores podem vir a saber por qu, se 
se aprofundarem no estudo dos chistes. Um 'chiste onrico' se nos apresenta como anedota sem graa; no nos faz rir, deixa-nos frios.Nisso, entretanto, estamos palmilhando 
os caminhos da interpretao de sonhos da Antigidade, que, ao lado de muita coisa imprestvel, deixou-nos alguns bons exemplos de interpretao de sonhos que ns 
mesmos no poderamos superar. Repetirei para os senhores um sonho que teve importncia histrica, e que Plutarco e Artemidoro de Daldis [ver em [1], anterior], 
com ligeiras variaes, referiram acerca de Alexandre Magno. Quando o rei estava sitiando a obstinadamente defendida cidade de Tiro (322 a. C.), sonhou que via um 
stiro danando. Aristandro, o interpretador de sonhos, que se encontrava presente junto com o exrcito, interpretou o sonho dividindo a palavra 'Satyros' em ???????? 
[sa Turos] (tua  Tiro) e, portanto, prometeu que ele iria triunfar sobre a cidade. Por esta interpretao, Alexandre foi levado a continuar o cerco e finalmente 
capturou Tiro. A interpretao, que possui uma aparncia bastante artificial, indubitavelmente era a correta.(3) Bem posso imaginar que os senhores ficaro especialmente 
impressionados quando ouvirem dizer que as objees aos nossos pontos de vista dos sonhos tm sido feitas at mesmo por pessoas que estiveram, elas prprias, como 
psicanalistas, dedicando-se por tempo considervel a interpretar sonhos. Seria demais esperar que este to forte encorajamento a novos erros, como o que oferece 
esta teoria, tivesse sido negligenciado; e assim, em conseqncia de confuses conceituais e generalizaes injustificadas, foram feitas afirmaes que no esto 
muito longe da viso mdica acerca dos sonhos, no que esta tem de incorreta. Os senhores j conhecem uma delas. Diz-nos que os sonhos constituem tentativas de adaptao 
atuais e tentativas de solucionar problemas futuros - que eles tm um 'propsito prospectivo' (Maeder [1912]). J temos demonstrado [ver em [1]] que esta assero 
se baseia numa confuso entre sonho e pensamentos onricos latentes e, por conseguinte, se baseia no fato de se omitir a elaborao onrica. Esta, como caracterizao 
da atividade intelectual inconsciente, da qual os pensamentos onricos latentes fazem parte, no constitui novidade, por um lado, e, por outro, no esgota o assunto, 
de vez que a atividade mental inconsciente est ocupada com muitas outras coisas alm da preparao para o futuro. Uma confuso muito pior parece estar subjacente 
 afirmao de que a idia de morte pode ser encontrada por trs de todo sonho [Stekel, 1911, 34]. No tenho uma noo clara acerca do que se pretende dizer com 
esta frmula. Suspeito, porm, que ela esconde uma confuso entre o sonho e a personalidade global daquele que sonhou. [Cf. I. de S., Vol. V, pg. 424.]Uma generalizao 
injustificvel, baseada em alguns poucos exemplos, est contida na afirmao de que todo sonho admite duas interpretaes - uma que concorda com nossa descrio, 
'psicanaltica', e outra, 'anaggica', que no leva em conta os impulsos instintuais e objetiva representar as funes superiores da mente (Silberer [1914]). Existem 
sonhos deste tipo, porm os senhores tentaro inutilmente estender esta concepo  maioria dos sonhos. E mais, aps tudo o que eu lhes disse, os senhores acharo 
bastante incompreensvel uma afirmao de que todos os sonhos devem ser interpretados bissexualmente, como confluncia de duas correntes, descritas como masculina 
e feminina (Adler [1910]). [Cf. I. de S., Vol. V, pgs. 423-4.] podem constatar posteriormente que eles se constrem como alguns dos sintomas histricos. A razo 
por que mencionei todas essas descobertas de novas caractersticas universais dos sonhos  para que os senhores estejam prevenidos quanto s mesmas ou, ao menos, 
para que no tenham dvidas a respeito do que penso delas.(4) Um dia o valor objetivo da investigao sobre sonhos pareceu ser posto em xeque por uma observao 
de que os pacientes em tratamento analtico ordenam o contedo dos sonhos conforme as teorias prediletas de seu mdicos - alguns sonhando predominantemente com impulsos 
instintuais sexuais, outros, com a luta pelo poder, e ainda outros, at mesmo, com renascimento (Stekel). O peso destas observaes, entretanto, diminuiu com a reflexo 
de que os seres humanos tinham sonhos antes que houvesse qualquer tratamento psicanaltico que pudesse dar a esses sonhos uma direo, e que as pessoas que agora 
se encontram em tratamento costumavam sonhar tambm durante o perodo anterior ao incio do tratamento. O que havia de verdade nesta inovao logo se podia ver que 
era evidente por si mesmo e sem importncia para a teoria dos sonhos. Os resduos diurnos que suscitam os sonhos so elementos postos de lado devido a poderosos 
interesses durante a vida desperta. Quando as observaes feitas pelo mdico e os indcios que este fornece adquirem importncia para o paciente, eles entram para 
o crculo dos resduos diurnos e podem prover estmulos psquicos para a construo dos sonhos, como quaisquer outros interesses emocionalmente significativos do 
dia precedente, que no foram atendidos; e podem atuar como os estmulos somticos que incidem sobre o sono de uma pessoa que venha a sonhar. As seqncias de pensamentos 
postas em marcha pelo mdico, assim como esses outros instigadores dos sonhos, surgem no contedo manifesto de um sonho ou se revelam em seu contedo latente. Na 
verdade, sabemos que um sonho pode ser produzido experimentalmente, ou, expressando-nos em termos mais corretos, uma parte do material onrico pode ser introduzida 
no sonho. Ao produzir esses efeitos em seus pacientes, um analista est executando um papel no diferente de um experimentador que, como Mourly Vold, coloca em determinadas 
posturas os membros de pessoas, em suas experincias. [ver em [1], anteriores.]Freqentemente,  possvel influenciar uma pessoa acerca do que ela vai sonhar, mas 
nunca aquilo que sonhar. O mecanismo da elaborao onrica e o desejo onrico inconsciente esto isentos de qualquer influncia externa. Ao tratar dos sonhos com 
estmulo somtico, j verificamos [ver em [1] e seg.] que a natureza caracterstica e a independncia da vida onrica so mostradas na reao com que os sonhos respondem 
aos estmulos somticos ou mentais que so postos em ao. A tese que estivemos discutindo, e que procura lanar dvidas sobre a objetividade da pesquisa referente 
aos sonhos, mais uma vez est baseada numa confuso - desta vez, entre o sonho e o material dos sonhos.Isto, pois, era o que tinha a dizer-lhes, senhoras e senhores, 
a respeito dos problemas dos sonhos. Como podero perceber, h muitas coisas que tive de omitir, e verificaro que, em quase todos os pontos, o que disse ficou necessariamente 
incompleto. Isso, naturalmente, se deve  conexo entre os fenmenos dos sonhos e os das neuroses. Temos estudado os sonhos como introduo  teoria das neuroses, 
e isso foi, certamente, um procedimento mais correto do que se tivssemos feito o oposto. Mas, assim como os sonhos preparam o caminho para uma compreenso das neuroses, 
tambm, por outro lado, uma verdadeira apreciao dos sonhos s pode ser realizada depois de se conhecer os fenmenos neurticos.No sei dizer o que os senhores 
pensaro, porm devo assegurar-lhes que no lamento ter-lhes exigido tanto do seu interesse e do tempo de que dispusemos para os problemas dos sonhos. No existe 
nenhuma outra coisa mais, a partir da qual se possa to rapidamente obter certeza da correo da tese pela qual a psicanlise resiste ou perece. Trabalho muito srio, 
por meses e at mesmo por anos,  o que se exige para demonstrar que os sintomas de um caso de doena neurtica tm um sentido, servem a um propsito e se originam 
das experincias de vida do paciente. Por outro lado, um esforo de apenas umas poucas horas pode ser suficiente para provar que o mesmo procede para um sonho que 
e, de incio, confuso a ponto de ser ininteligvel, e para, dessa maneira, confirmar todas as premissas da psicanlise - a natureza inconsciente dos processos mentais, 
os mecanismos especiais a que estes obedecem e as foras instintuais que neles se expressam. E quando temos em mente a extraordinria analogia entre a estrutura 
dos sonhos e a dos sintomas neurticos e, ao mesmo tempo, consideramos a rapidez com que uma pessoa que tem um sonho se transforma em um homem vigil e racional, 
adquirimos a certeza de que tambm as neuroses se baseiam apenas em uma modificao do jogo de foras entre os poderes da vida mental.
         
         
         
         
         



2



Conferncias Introdutrias sobre psicanlise (Partes I e II) - Sigmund Freud
